("Somos o que fazemos, mas somos, principalmente, o que fazemos para mudar o que somos.". Eduardo Galeano)
O problema do alcoolismo está presente em milhares de famílias brasileiras. Todos nós conhecemos algum caso mais próximo ou pelo menos já compartilhamos o problema com algum amigo ou conhecido. Só na primeira década do século XX, o alcoolismo passou a ser tratado como doença e alguns anos depois como um problema de saúde pública. Em 1976, a Organização Mundial de Saúde (OMS) definiu seis parâmetros comportamentais para identificar o perfil do alcoolista. Especialistas afirmam que os estudos disponíveis ainda estão em um estágio incipiente, o que impede que as análises dissequem a real extensão do problema no País, principalmente quando o alvo são os dados qualitativos. Entretanto, de acordo com dados do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), cerca de 11% dos brasileiros são alcoolistas, o que corresponde a aproximadamente 21 milhões de pessoas. Na esteira do alcoolismo vêm a criminalidade, a violência doméstica, a violência do trânsito, o desemprego e outros problemas decorrentes do uso do álcool, que geram um custo social e econômico ainda desconhecido.
Transportando os dados para o Espírito Santo, que tem uma população de aproximadamente 3,4 milhões de habitantes, podemos estimar que cerca de 370 mil pessoas no Estado sejam dependentes de álcool. Na desafiadora missão de enfrentar esse problema - que tem contornos quase invisíveis e recebe pouco apoio, como tantos outros problemas indesejáveis que são escondidos debaixo do tapete pela sociedade -, um grupo de profissionais da área de saúde, que há 22 anos trabalha na recuperação de alcoolistas no Espírito Santo, está entre os dois melhores do Brasil. Em 1985, a doutora Maria da Penha Zago, junto com outros colegas, deu início ao Programa de Atendimento ao Alcoolista do Hucam (Hospital Universitária Cassiano Antonio Moraes) da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Segundo a médica, que é coordenadora do Programa, os serviços que têm um bom resultado atingem um grau de resolutividade de 40% de recuperação. "Temos uma resolutividade acima dos parâmetros nacionais. Dos pacientes que nos procuram, 50% conseguem parar de beber", atesta a médica. Ela acrescenta que só há mais um serviço no Brasil (Universidade de Curitiba) que detém índices semelhantes. O segredo da receita de sucesso está no trabalho sério, na dedicação, no respeito e no compromisso do grupo com uma situação que ainda é vista de forma míope por governantes e por parte da sociedade.
Acompanhe a seguir a entrevista exclusiva da doutora Maria da Penha Zago a Século Diário e entenda um pouco mais sobre o problema do alcoolismo, as formas de tratamento, as estratégias de ajuda e as complicações causadas por uma das doenças que mais mata, de forma direta e indireta, a população brasileira.
Maria da Penha Zago é graduada em Medicina, possui mestrado em Doenças Infecciosas e residência médica. Atualmente é professora adjunta da Ufes e coordenadora do Programa de Atendimento ao Alcoolista do Hucam.
Século Diário: - Como funciona o Programa de Atendimento ao Alcoolista do Hucam?
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Foto: Ricardo Medeiros
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Maria da Penha Zago: - O Programa de Atendimento ao Alcoolista do Hucam foi iniciado em 1985. Desde o início, trabalhamos como uma equipe interdisciplinar composta por três médicos, três enfermeiras, duas assistentes sociais e um psicólogo - profissional que foi integrado pouco depois à equipe. Nosso foco de trabalho é atender o paciente que já tenha um diagnóstico de alcoolismo e também seus familiares, de forma a poder garantir uma abordagem completa no atendimento. O serviço médico vai avaliar não só o momento que o paciente começou a fazer uso do álcool e suas complicações - sinais de sintomas de abstinência e outras complicações - mas também as complicações relacionadas ao uso de outras drogas, como, por exemplo, o tabaco. A equipe de enfermagem vai trabalhar o auto-cuidado do paciente, ou seja, as questões relacionadas à auto-estima do paciente: higiene pessoal, aparência, enfim, tudo o que está relacionado à auto-imagem da pessoa, que são elementos que o paciente precisa recuperar, porque com o alcoolismo ele perde essa referência. As assistentes sociais vão atuar nas questões socioeconômicas, oferecendo suporte ao pacientes e seus familiares. Uma das concepções importantes do Programa é que a equipe trabalha de forma integrada. Um paciente que chega ao serviço pela primeira vez irá passar necessariamente por todos os profissionais da equipe.
- O paciente chega até o serviço espontaneamente?
- Normalmente ele é encaminhado por médicos, pelo pronto-socorro, amigos, familiares etc. Nosso tratamento, basicamente, é ambulatorial. Em situações específicas, quando o quadro exige, nós fazemos internações clínicas. Isso acontece em casos de síndrome de abstinência grave, complicações graves ou falta de apoio social - pacientes que não possuem infra-estrutura familiar, como, por exemplo, moradores de rua. Alguns pacientes, no entanto, necessitam de internações prolongadas. São pacientes que, por exemplo, apresentam um déficit de memória relevante, pessoas que já não conseguem aprender o que explicamos. Pacientes que já possuem complicações clínicas e neurológicas graves, que já perderam sua capacidade de compreensão. Nesses casos é recomendada a internação prolongada.
- Existe uma rede de apoio adequada para internação desses pacientes?
- Existem as retaguardas municipais e estaduais e outras mantidas por Organizações Não-Governamentais (ONGs) - a maioria das entidades é de fundo religioso. Mas as vagas são insuficientes para atender à demanda. Os casos de internação prolongada correspondem a uma minoria, se considerarmos o universo. Em média, menos de 10% dos pacientes necessitam de internação prolongada. As internações clínicas são de curto prazo, cerca de 10 a 15 dias - período necessário para trabalhar a síndrome de abstinência grave. A síndrome de abstinência é uma neuroadaptação. O cérebro, para poder conviver com uma quantidade tão grande de álcool, aumenta neurologicamente seus receptores excitatórios. Quando se tira o álcool, só sobra o excitatório. Por isso, na abstinência, o paciente apresenta dificuldades motoras, agressividade, sofre de alucinações, entre outras reações. No entanto, depois de 10 a 15 dias de internação clínica, ele provavelmente não terá novas crises. Os casos de paciente com síndrome de abstinência grave, muitas vezes, exigem a internação, senão ele vai sofrer muito. Em muitos casos nós fazemos o atendimento ambulatorial. O importante é tentar reduzir ao máximo o sofrimento causado pela síndrome de abstinência, para mostrar ao paciente que ele pode ser tratado. Nós atendemos cerca de 3 mil pacientes por ano. Em média, recebemos 350 novos pacientes a cada ano. Parece muito, mas se considerarmos que cerca de 11% da população são alcoolistas, chegamos à conclusão que seriam necessários mais serviços para atender à demanda. Isso deixa claro que o trabalho que realizamos aqui é um pingo no meio do oceano. O Programa de Atendimento ao Alcoolista tem uma eficiência bastante satisfatória de resolução dos casos. Temos uma resolutividade acima dos parâmetros. Dos pacientes que nos procuram, 50% conseguem parar de beber. Para você ter uma idéia da importância desse número, os melhores serviços atingem 40% de resolutividade. No Brasil, só existe um trabalho semelhante ao nosso, na Universidade de Curitiba.
- Quais os fatores que explicam o sucesso do programa?
- O resultado positivo está em reconhecer o alcoolismo como doença e do trabalho sério de comprometer o paciente ao tratamento e de envolver seus familiares. Esse resultado tem motivado nossa equipe a estudar cada vez mais o alcoolismo, para entender mais sobre o tema. Inclusive, eu, que sempre tratei o alcoolismo como doença, agora digo que o alcoolismo é uma síndrome, ou seja, várias doenças dentro de uma só, mostrando um mesmo quadro clínico. Os pacientes são muito diferentes entre si, e nós temos que identificar essas diferenças para podermos fazer uma atuação específica para cada tipo de situação. Cada vez mais eu tenho clareza sobre isso e consigo identificar grupos diferentes, com apresentações distintas que exigem um tratamento também diferente. Uma determinada droga pode funcionar muito bem num determinado paciente, mas não em todos. Isso nos leva a identificar que há tipos diferentes de alcoolismo.
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Foto: Ricardo Medeiros
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- Existe um grau de classificação para o alcoolismo?
- Não é bem um grau. O alcoolismo é uma doença desde que ela começa. As pessoas que têm alcoolismo apresentam características diferentes desde o início. A primeira manifestação dessa situação nós poderíamos classificar como dependência psicológica primária. De maneira geral, o indivíduo alcoolista ou não alcoolista começa a beber na adolescência. Nos casos analisados no Programa, observamos que o jovem passa a fazer uso do álcool com 15 ou 16 anos de idade. No caso do alcoolista, as coisas só passam a ter sentido se o álcool estiver envolvido. Vamos pegar um exemplo bem clássico. Um grupo de amigos vai a um show e leva bebida. Alguns vão beber aquele dia e talvez nem voltem a beber. Outros vão beber, aumentar um pouco o consumo e continuar a beber moderadamente. Enquanto outros vão se tornar dependentes. Aquele indivíduo que começou a beber, de forma a criar dependência, vai estabelecer uma relação de prazer com o álcool. Porque, ao beber, a pessoa se sente alegre, ri, namora, se sente feliz. Numa outra oportunidade, a pessoa vai querer repetir aquela sensação de euforia. Nesse sentido, o indivíduo passa a relacionar seu prazer ao álcool. As outras coisas passam a ser secundárias. Então, essa situação, de maneira didática, é chamada de dependência psicológica primária, ou seja, a relevância da bebida frente a outras situações.