("Deixe que cada um exercite a arte que conhece." Aristóteles)
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Foto: Riokan
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A idéia de difundir a cultura do congo entre crianças e jovens das comunidades carentes da Grande São Pedro e Ilha das Caieiras era um sonho de Fábio Carvalho, ex-vocalista e ex-percussionista da banda de rockongo Manimal. Fábio comentava com sua parceira, Alcione Dias, que ele mesmo só foi ter contato com o congo na adolescência, graças aos ensinamentos do já falecido Mestre Antonio Rosa. Alcione lembra que o companheiro comentava as conversas que tinha com o Mestre, que andava descrente. Ele achava que ‘os mais novos não queriam continuar a brincadeira’. As conversas e reflexões encorajaram o casal, que resolveu abraçar o desafio de criar o projeto Congo na Escola. Com a idéia na cabeça, mas sem dinheiro para encampar o projeto, o casal começou a correr atrás de patrocinadores. Conseguiram aprovar o projeto na Lei Ruben Braga de incentivo à cultura, mas ainda faltava encontrar empresas dispostas a usar o bônus previsto na lei para financiar o projeto.
Depois de bater de porta em porta em outras empresas capixabas, eles finalmente receberam sinal verde da Companhia Vale do Rio Doce. O recurso, lembra Alcione, era para desenvolver o projeto por um período determinado e também estipulava uma série de restrições quanto ao uso do dinheiro. “Nós não podíamos, por exemplo, usar o dinheiro para comprar instrumentos. Todo final de semana eu fazia a mesma peregrinação. Pegava o carro e viajava até Nova Almeida para pegar os instrumentos emprestados do Mestre Zé Bento para os meninos tocarem”.
O projeto terminou, mas o sonho de continuar levando a cultura do congo para a juventude não acabou. Pelo contrário, o sucesso do projeto motivou ainda mais o casal a prosseguir com a empreitada. Por sorte, o patrocinador, também satisfeito com os resultados, decidiu continuar apoiando o projeto. A visibilidade foi aumentando naturalmente e outros financiadores foram aparecendo pelo caminho. Com mais dinheiro em caixa, o projeto foi crescendo. Atualmente, além do Congo na Escola, o Centro Cultural Caieiras (Cecaes) mantém também o projeto Manguerê, que é dividido em três núcleos: Percussão, Artes Cênicas e Audiovisual. Alcione calcula que desde 1999 já passaram pelo projeto cerca de mil e duzentos jovens.
Acompanhe a seguir a entrevista de Alcione Dias, que é atriz, produtora cultural e gestora do Centro de Cultura Caieiras. Nesta entrevista ela relata a importância do congo como projeto de inclusão social e de resgate da cultura indígena e afro-brasileira para as comunidades carentes da Ilha das Caieiras e Grande São Pedro. A banda de congo do Cecaes, que é referência no Espírito Santo, já se apresentou em diversos estados com músicos consagrados da música popular brasileira, como João Bosco e Ed Motta, além de ter participado de concertos com a Orquestra Filarmônica do Espírito Santo.
Século Diário: - Como nasceu a idéia de disseminar a cultura do congo entre os jovens?
Alcione Dias: - Na verdade, o projeto nasceu com o Congo na Escola. O percussionista Fábio Carvalho, da banda Manimal, em conversas com Mestre Antônio Rosa (já falecido). Mestre Antônio sempre dizia que ‘os mais novos não queriam continuar a brincadeira’. Ao mesmo tempo, Fábio Carvalho se questionava por que foi conhecer o congo somente na adolescência e não antes. Dessas conversas com o mestre e desse conhecimento que ele considerou tardio, chegou à conclusão que o aprendizado do congo poderia ser levado para as escolas. Em 1999, nasce o Projeto Congo na Escola.
- A partir daí, como o projeto evolui?
- Hoje, o projeto trabalha com outras expressões artísticas, como artes circenses, vídeos e teatro. O congo funciona como um elemento aglutinador, como resignificador de conhecimento. Há uma rápida identificação e aproximação das crianças com o congo. Nós trabalhamos o desenvolvimento humano. Dentro dessa proposta, usamos a arte como instrumento. O congo permite resgatar essas raízes culturais, isso tem um significado fundamental para esse trabalho. As crianças aprendem a história, as cantigas e a tocar o congo. Entretanto, é preciso deixar claro que a missão do Centro Cultural Caieiras não é formar bandas de congo. Nossa missão é promover o desenvolvimento e os direitos humanos, através do incremento e da difusão da cultura local, estabelecendo ações que fortaleçam a auto-estima, a dignidade e promovam a geração de renda, contribuindo para o desenvolvimento sustentável, permitindo que o jovem se torne um cidadão mais consciente e mais capaz de fazer suas escolhas.
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Foto: Riokan
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- Atualmente, como está estruturado o projeto?
- O Cecaes atua na Ilha das Caieiras e na Grande São Pedro, bairros de baixa renda da cidade de Vitória. Temos o projeto Congo na Escola, que foi por onde nasceu todo o trabalho da organização. O projeto prevê aulas práticas e teóricas sobre a história e a música do congo, artes cênicas, artes plásticas e saídas culturais ao cinema, teatro, mostras de artes etc. Os participantes do projeto, que têm idade entre 8 e 18 anos, recebem ainda reforço escolar, acompanhamento psicopedagógico e plano de saúde privado. O projeto Manguerê tem justamente o objetivo de aprofundar esse trabalho de sensibilização às artes e da formação técnica dirigida aos jovens. As atividades do projeto estão divididas em três núcleos, o de Percussão Manguerê, o de Artes Cênicas e o de Memória Audiovisual. O Núcleo de Percussão prepara os jovens para dominar a linguagem e a estrutura musical. O conteúdo se baseia nos ritmos regionais brasileiros e na pesquisa de instrumentos alternativos criados a partir do reaproveitamento de sucatas com potencial sonoro. No Núcleo de Artes Cênicas trabalhamos com oficinas que vão desde o aprendizado do teatro à montagem do espetáculo. Nesse Núcleo também há uma preocupação de capacitar os jovens para o mercado de trabalho nas áreas de técnicas circenses, alegorias, adereços, direção e montagem de espetáculos. No Audiovisual se trabalha os conteúdos imateriais da cultura local, através de oficinas de produção de texto, fotografia e vídeo.
- Como é garantida a sustentabilidade do projeto?
- O projeto nasceu com incentivos da Lei Ruben Braga. A concepção inicial do projeto, idealizada por Fábio Carvalho, era formar a banda de congo. E isso nós fizemos com os recursos propiciados pela lei. No início, nós enfrentamos muita dificuldade para trocar os bônus proporcionados pela lei com possíveis agentes dispostos a financiar o projeto. A Companhia Vale do Rio Doce foi a única que, à época, abriu as portas para nós e resolveu apoiar o projeto. Entretanto, a Lei Ruben Braga previa um período determinado de duração. Fora isso, a lei previa algumas restrições para o uso dos recursos, o que acabou impedindo a expansão do projeto. Com o sucesso do projeto e o fim da lei, a Vale nos chamou para dar continuidade ao projeto. Hoje, nós temos outros parceiros importantes além da Vale, como a Unimed Vitória – que oferece plano de saúde gratuito para todos os participantes do projeto -, a prefeitura de Vitória, o Ministério da Cultura, a Grafitusa, a Fire, o Cine Ritz, entre outros parceiros.