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Foto: Divulgação
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Janeiro é um mês parado desde o tempo de faculdade - parece até que eu saí muito tempo de lá. A cidade pára, as ruas e ônibus ficam quase vazios. O ritmo diminui e a gente quase entra em quase letargia - ainda mais com os dias mais longos. Pessoas normais aproveitam o tempo livre para ler, ir à praia ou correr no parque. As meio-normais vão ao cinema, saem com amigos ou buscam companhia. E as nem-tão-normais-assim cansadas (ou com preguiça) das atividades listadas, vão atrás de coisas menos ortodoxas, tipo, arrumar o quarto. Me encaixo no terceiro grupo.
Não pensem que era uma arrumação banal, dessa de tirar poeira e mudar móveis de lugar. Mudo menos dessas baseadas no ano novo que já nasceu. Era uma organização profunda, estrutural, quase um Feng shui. Não, não aguardem dicas de como renovar a energia da sua casa - já temos gente escrevendo demais sobre isso. O fato é que precisava jogar coisas fora e superar alguns vícios - isso é bonito né, muito “bem vindo 2008”. O principal deles é de acumular passado. Tem coisas que não tem porque ocupar espaço no armário. Cartinhas, CDs e posters ficam. Faturas antigas de cartão de crédito não. Canhotos de cheque, lixo!
No primeiro dia quase entrei em desespero. Olhei para os lados e todo o meu quarto estava repleto de caixas e papéis velhos. Tenho mania de caixas. Não faço idéia como isso começou. Caixa de sapato, de cinto, de modem adsl, de celular, papel fotográfico. Muitas caixas. As mais feias recebem uma colagem e ficam tão bonitas. Quando a caixa é toda lisa, sem a marca, fico muito feliz. Fui abrindo uma a uma. Cartas para amigos na primeira. Fanzines, recortes de jornal e convites na segunda. Numa tinha cartões telefônicos usados, meu primeiro gravador e três minifitas - joguei meu primeiro aparelho de celular nela. Lá também tinha a caixinha da minha agenda eletrônica e caixa do meu palm top (nunca usei ele), além de credenciais de eventos e, por fim, um tamagotchi novinho!
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Achei três caixas vazias e feias. Sem pensar as joguei fora. A limpeza/arrumação continuava a todo vapor ou pó. Tive que usar uma máscara que ganhei numa viagem ao Rio. Ela é distribuída aos moradores de Copacabana contra a poeira tóxica da construção do metrô. Aqui em casa uso para evitar espirros. Foi usando essa máscara que cheguei a mais arqueológica das caixas: a das notas. Essa caixa guardava o que não precisava ser guardado e mesmo assim seu conteúdo era capaz de reconstituir meus pais nos últimos nove anos.
Uma caixa parda que um dia foi de um sapato de couro bege de bico quadrado e sem cadarço. Repleta de notas fiscais de coisas miúdas, recibos de empréstimos de livros e filmes e muitos outros tipos de papel. Tantos tipos de papel.
Nos últimos anos, fui tantas vezes ao Mc Donald’s. Mais muitas mesmo. No dia 27 de julho de 2004, eu fui e comi um Mc Menu combinado duplo. Paguei R$ 5.95. Hoje, esse mesmo lanche custa quase R$ 7,50. Sim, eu ainda continuo indo muito atrás do M dourado. Outro lugar que sempre ia (vou) foi Extrabom Supermercados, sempre comprando coisas saudáveis. Só achei estranho no dia em que comprei um pacote de café (nem café tomo), um de açúcar dois quilos e uma caixa de ovo de codorna com 30 unidades. A nota fiscal do dia 4 de setembro de 2003 tinha mais a minha cara: duas coca-colas, uma ruffles, wafer, chiclete, escova e fio dental. Pela data eu estava indo para Belo Horizonte. Encontrei passagens para essa cidade com datas de um mês antes. Saí de Vitória dia 1 º de Agosto de 2003 e voltei dia 3. Um fim de semana tedioso. Por isso tantos chicletes para a segunda viagem?
Pelas notinhas da caixa, nota-se que gastava sempre usando cartão de crédito/débito ou cheque. Não é à toa que tudo foi cancelado. Os extratos bancários não mentem. No dia 25 de março de 2004, eu só tinha R$136,33 na conta porque vários cheques e taxas tinham sido descontados anteriormente - e como me conheço, esse 136 durou pouco. Devo ter sacado para pagar os 24 reais da prestação de uma bolsa que tinha comprado para minha avó na Paraíba. Ou 6 reais (pelo valor duas coca-colas dois litros) numa pizzaria aqui perto. Tanto eu quanto minha avó devemos ter ficado satisfeitos com essas compras. A nota fiscal loja de presentes dizia que eu tinha comprado duas xícaras jumbo. Pela data, foi presente de casamento para a irmã de uma amiga. Lembro que nesse dia quando fui cumprimentar a noiva derrubei o arranjo do cabelo dela. Terrível!
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Definitivamente, gastei tempo e dinheiro com outras coisas. Prova disso são os recibos de mensalidade de 1999 do Colégio Americano Batista - eu não tinha dito que tinha gastado bem, disse com outras coisas. Os 171 reais com um curso de inglês, em fevereiro de 2005, são bem sugestivos. Aprendi pouco e ainda faltei muito, as aulas eram de 12:50 às 14:20 - isso é horário de gente como eu almoça. Mais do Mc Donalds e Extrabom, por conseqüência. Por R$ 69,62 reais, eu fui para São Paulo de avião (no assento 20F do vôo 1622), aeroporto de Congonhas! Isso me joga para maio de 2007, ou seja, essa viagem foi muito cara (dinheiro não é tudo, dizia a propaganda).
A caixa era pequena, mas guardava tanta coisa. Informações que eu nem lembrava. Em 16 de setembro de 2002, eu devolvi a Melayne, atendente da Biblioteca da Faesa, o livro
Alice no País das Maravilhas. Já para Denuzia, outra atendente, renovei o empréstimo do
Império do Grotesco, em 2003. Um ano antes a mesma Melayne que registrou a registrada do livro
O Uso de Vocabulário da Língua Inglesa no Texto Jornalístico. Cá entre nós, Melayne, sério que esse livro existe?
Cinema e Ideologia e
Showrnalismo, eu lembro. O segundo eu tenho em casa e nunca li tudo, mas usei na prova de transferência para a Ufes. No dia 10 de janeiro de 2002, eu comprei (ganhei de presente) um radiogravador NKS com CD player vertical, com certeza foi nele que escutei pela primeira vez
Hail To the Thief, disco do Radiohead comprado em junho de 2003, por R$ 34,90 (depois não entendo porque as pessoas preferem downloads) ou o CD do Chico Buarque, a coletânea
O Político - esse custou só 9,99. Com certeza, li mais livros e ouvi outras músicas.
E para finalizar - porque eu também estou cansando de falar dessas notinhas e memórias e doido para queimar essa caixa - tenho que falar dos filmes que loquei. Os ingressos de cinema estão em outra caixa. Esses são os de videolocadora - quanto tempo será não entro em uma? Num mesmo dia de 2002, aluguei
Dançando no Escuro,
Intrigas e o
Psicopata Americano. A fita do filme de Lars von Trier estava com defeito e eu não paguei por ela; só não fiquei frustado porque tinhas assisto o filme no Metropolis antes. Numa outra nota indicava que eu assisti
Crime + Castigo (nada a ver com a obra do Fiódor Mikháilovitch Dostoievski),
Doce Novembro (escolha de uma amiga de pouco cérebro) e
O Oposto do Sexo (dica de um amigo virtual). Sempre locava três e um saía de graça. Só assim, explica eu ter locado um filme chamado
Irmãos de Espada, junto com o
Crime do Padre Amaro e
Bellini e a Esfinge. Quatro reais pelos dois últimos e nada pelo do título duvidoso.
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Tantas “preciosidades” merecem a lixeira ou um happening de incineração. No meio de tantas notinhas ainda encontrei bilhetes perdidos. O telefone do Júlio, do Fernando, do Caio, Márcio, Rafael, Carlos, Guto. Se alguém souber quem eles são, me escreve um e-mail? Tem uma tal de Regina no meio também, essa que não lembro mesmo. E o cartãozinho de visitas da Maria Tereza, na época assessora de comunicação de um badalado bar. Nunca mais ouvi falar dela. Do transporte escolar do Tio João nunca precisei, ainda mais da Ufes para Laranjeiras. Achei uns e-mails de uma Luciana e de uma Juliana, será que já escrevi para elas? Por que guardei um recorte de coluna social com três mulheres cafonas? E quem será que me escreveu o bilhete “Chega de tanta falação e propaganda, vamos para o debate”?
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