Vitória (ES), edição de 02 de abril de 2008

Pagoto de volta à prisão: mudou de endereço sem
avisar à Justiça para não ser achado e notificado



Nerter Samora


O empresário e ex-PM Sebastião Pagoto (foto) foi preso na manhã desta quarta-feira (2) pelo descumprimento de uma ordem judicial no processo a que responde pela morte do advogado Marcelo Denadai. Pagoto, um dos braços do crime organizado no Estado, é acusado de ser o mandante desse crime. O advogado havia denunciado um esquema de corrupção em licitações do qual Pagoto se beneficiara. Essa é a terceira passagem de Pagoto pelo xadrez ainda em função deste caso.

A nova prisão foi motivada pela tentativa dele de não mais ser localizado para receber notificações judiciais. Ele se mudou há cerca de oito meses e, desobedecendo um dos requisitos para responder pelo crime em liberdade, não comunicou o novo endereço à Justiça. Pagoto é ainda suspeito de participação no assassinato de seis das oito testemunhas envolvidas no Caso Denadai.

A prisão de Pagoto aconteceu por volta das 6h30. Ele foi encaminhado à Delegacia de Polícia Judiciária de Vitória para prestar esclarecimentos. O pedido de prisão preventiva foi solicitado ao Juízo da 4ª Vara Criminal de Vila Velha pela promotora de Justiça Karla Dias Sandoval.

Após as investigações policiais, a promotora descobriu que o empresário já não residia no endereço informado à Justiça há mais de oito meses. Alegando não tê-lo encontrado para ser intimado de um ato processual, a promotora decidiu então pedir a sua prisão.

Mas, apesar de ser a terceira vez de Pagoto na prisão, ele continua desfrutando de uma influência muito grande no poder público estadual, principalmente no mundo das licitações. Marcelo Denadai tentou desmascarar publicamente essa influência de Pagoto e por isso foi executado no dia 15 de abril de 2002, um dia antes de apresentar à Justiça uma série de denúncias envolvendo Pagoto.

Na época do assassinato do advogado Marcelo Denadai, Pagoto comandava um esquema de fraudes em licitações na prefeitura de Vitória, crime que começou a praticar na gestão Paulo Hartung.

Agora, sob a administração de Hartung, o Estado tem sido seu alvo preferido. Pagoto se utiliza de sócios laranjas para atuar livremente na prestação de serviços à Companhia Espírito-Santense de Saneamento (Cesan). Ele influi até mesmo na participação de outras empresas nos certames da companhia, pór ser uma figura temida no meio empresarial. Consta que ele costuma barrar a participação de quem ousa concorrer com sua empresa nas licitações.

Ele se especializou em manobras empresariais e ampliou a área de ação de seus negócios, retirando-se da Líder Saneamento e Serviços Ltda. para constituir a Forte Ambiental Ltda.

Sua manobra recente mais ousada foi colocar à frente de sua empresa dois laranjas, Bruno Christo e Lucíla Scandian Frigi Pagoto. Com isso, a nova empresa dele passou a ser sucessora da Life Serviços Ambientais Ltda, recuperando assim um vultoso contrato com a Cesan (R$ 3,1 milhões).

Logo após a retomada deste contrato, a deputada estadual Aparecida Denadai (PDT), irmã do advogado morto, fez um pronunciamento na Assembléia denunciando o ato e em seguida recebeu, através de seu telefone celular particular, naquele momento em poder de uma assessora, uma ligação em que uma voz lançava ameaças contra ela e as suas duas filhas.

De acordo com as investigações policiais, as ameaças que motivaram essa ação partiram de um compadre de Pagoto, o diretor das categorias de base do Vitória Futebol Clube e ex-presidente da Comissão Licitatória de Cariacica, José Nicodemos Venturini.

Venturini admitiu ter dado o telefonema, mas afirmou que o fez apenas para assustar a parlamentar em virtude das críticas que ela fazia à empresa de Pagoto, mas que não tinha intenção de matá-la.

O caso gerou uma outra ação na Justiça, desta vez de ameaça. Durante a audiência de instrução do julgamento, realizada no final de fevereiro, mais uma faceta do policial-empresário foi exposta: a de pessoa perigosa e figura temida no meio empresarial.

Segundo o relato das testemunhas da ação judicial, Pagoto assusta tanto que outros empresários evitam disputar licitações quando uma das empresas dele está na disputa. Uma das testemunhas, que tem filhos atuando como empresários, chegou a revelar ter-lhes recomendado não participar de nenhum certame em que as empresas de Pagoto participam.