A nova estratégia da Aracruz Celulose é a de cooptar pelo menos parte dos quilombolas e indígenas capixabas para garantir o chamado selo verde, certificado internacional. Esta certificação assegura melhores preços para os produtos da empresa. O alerta é de Dorizete Cosme, um dos coordenadores estaduais do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA).
A manifestação do coordenador do MPA foi feita nesta sexta-feira (11), após a divulgação de que a Aracruz Celulose está promovendo no Espírito Santo o que chamou de "Dialogue sobre Silvicultura de Manejo Intensivo no Brasil". O evento será realizado deste domingo (13) a quinta-feira (17).
O MPA e o MST formam a Via Campesina, aliada dos quilombolas e dos índios no país. Ao se referir ao evento programado para o Espírito Santo, Dorizete Cosme assegura que é uma ação tática da Aracruz Celulose como parte de sua estratégia para mudar a imagem no exterior.
Afirmou o dirigente que com o evento a Aracruz Celulose "com certeza vai buscar cooptar lideranças indígenas e quilombolas". É um movimento para arrefecer "o levante das comunidades que lutam para retomar terras que a empresa ocupou e explora". No passado, no seu processo de implantação, a Aracruz Celulose usou quilombolas, como o conhecido Pelé, para ocupar os territórios.
Dorizete Cosme diz que os índios e quilombolas devem ficar alertas, principalmente suas organizações, como a Comissão Quilombola e a Associação dos Tupinikim e Guarani, e esclarecer suas bases. Também devem estar alertas e atuando as organizações que apóiam os índios e quilombolas, como a Rede Alerta Contra o Deserto Verde.
Para o dirigente do MPA, a Aracruz Celulose no seu processo de sedução dos negros e dos índios usará as táticas de aproximação, com oferta de recursos, apoio a projetos e parcerias, visando dividir as comunidades para continuar dominando. Defende ações paralelas ou no evento, com o objetivo de contestar a propaganda da empresa.
Lembra que com apoios, ainda que pontuais, de quilombolas e negros, a Aracruz Celulose poderá melhorar sua imagem no exterior, sua principal meta. E com isto obter o selo verde, como vem tentando. A Aracruz Celulose quer o FSC (Forest Stewardship Council), hoje o selo verde mais reconhecido no mundo.
Na prática, os certificados florestais como o FSC só devem ser dados às empresas que fazem atividades de manejo e exploração dentro de uma área florestal seguindo regras sociais, ambientais e econômicas corretas. Isto permite às empresas o acesso a mercados mais exigentes.
A Aracruz Celulose não pratica atividades sustentáveis: a empresa tomou terras dos quilombolas, dos índios e usa terras devolutas que, por lei, devem ser destinadas à reforma agrária.
A empresa também destruiu cerca de 50 mil hectares de mata atlântica nativa, e toda a sua biodiversidade, e usa coquetéis de venenos agrícolas nos eucaliptais, contaminando e matando os poucos quilombolas que conseguiram resistir em pequenas propriedades no meio dos eucaliptais, e contaminando o solo e a água, matando a flora e fauna.
Segundo os organizadores do "Dialogue sobre Silvicultura de Manejo Intensivo no Brasil", o evento tem como objetivos "compreender o contexto no qual a silvicultura de manejo intensivo vem sendo implantada no Brasil, assim como entender os processos relacionados à disputa pelo uso da terra com outros setores da sociedade". E "construir, a partir dos diálogos sobre o mesmo tema realizados na Indonésia e na China, um aprendizado sobre a situação atual e as tendências futuras para a silvicultura no Brasil".
Segundo o Instituto BioAtlântica (IBio) o chamado "Diálogo Florestal para a Mata Atlântica" tem o seguinte histórico: "Em outubro de 2003, trinta representantes de organizações conservacioistas, de empresas do setor florestal e de universidades e centros de pesquisa encontraram-se em Santa Cruz Cabrália, Bahia, para discutir temas relacionados ao uso dos recursos florestais e conservação da biodiversidade. Este encontro foi convocado pelo The Forests Dialogue, uma série de fóruns internacionais que reúne os diversos setores da sociedade envolvidos em questões-chave para a gestão florestal sustentável".
Garante que "o sucesso deste evento, que teve como tema central Florestas e Biodiversidade, inspirou três organizações conservacionistas - Instituto BioAtlântica (IBio), The Nature Conservancy (TNC), Conservação Internacional (CI-Brasil) - e três empresas do setor de papel e celulose - Rigesa/MeadWestvaco, Suzano Papel e Celulose e Veracel Celulose - a proporem uma continuidade deste Diálogo, com foco na mata atlântica brasileira. Deste modo, surgiu o Diálogo Florestal para a Mata Atlântica, com a aprovação e o apoio do comitê gestor do The Forests Dialogue internacional".
E que "a primeira etapa do Diálogo Florestal para a Mata Atlântica ocorre no triênio 2005 - 2007, com a realização de 4 encontros". O objetivo: "Construir uma visão comum entre empresas e ambientalistas, para a promoção de ações efetivas em prol da conservação da biodiversidade associadas às operações de produção florestal. Ampliar a escala dos esforços e gerar benefícios tangíveis, tanto para os participantes do Diálogo quanto para a sociedade em geral".
Financiam as atividades o "IBio, TNC, CI, Rigesa/MeadWestvaco, Suzano, Veracel e demais empresas participantes".
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Veja a programação do "Dialogue"
Domingo, 13 de Abril
Chegada a Vitória, Espírito Santo.
20 horas: Jantar de abertura e pernoite no Novotel Praia do Canto.
Segunda-Feira, 14 de Abril
7:00 Partida de ônibus para a cidade de Aracruz.
8:30 Chegada à fábrica da Aracruz Celulose.
8:45 Boas vindas e apresentação corporativa na Aracruz.
9:30 Partida de ônibus para visitar viveiro de mudas e um sistema agroflorestal com eucalipto.
13:00 Partida de avião fretado para a cidade de Mucuri, na Bahia - será servido um lanche reforçado à bordo.
14:00 Chegada à Mucuri, com deslocamento de ônibus para a fábrica da Suzano Papel e Celulose
14:30 Boas vindas e apresentação corporativa na Suzano
15:15 Partida de ônibus para visita à propriedade com fomento e a uma área de reserva nativa de Mata Atlântica protegida pela Suzano
20:00 Jantar oferecido pela Suzano Papel e Celulose em restaurante em Mucuri.
- Pernoite em pousadas de Mucuri.
Terça-Feira, 15 de Abril
7:00 Partida de ônibus para comunidade de Cruzelândia
8:30 Visita à comunidade de Cruzelândia, onde está localizada a Cooperativa de Carvoeiros Nova Chance
- Na oportunidade, serão abordados os aspectos sociais, econômicos e ambientais relacionados à produção de carvão por comunidades. Um grupo de artesãos indígenas, da etnia Pataxó, também estará presente neste momento, para compartilhar com os participantes um pouco das suas questões relacionadas à oferta de madeira para fabricação de artefatos.
13:20 Partida de avião fretado para a cidade de Aracruz, no Espírito Santo - será servido um lanche reforçado à bordo.
14:30 Chegada à Aracruz e partida de ônibus para visitar uma área de colheita de madeira e uma comunidade indígena Tupiniquim.
Ao final deste dia, haverá duas opções:
Opção 1- 18:00 Partida de ônibus para Vitória, com chegada no Novotel às 19:30.
Opção 2 - 18:00 Churrasco, na Casa de Hóspedes da Aracruz Celulose, encerrando às 20:30, com chegada no Novotel às 22:00.
Quarta-Feira, 16 de Abril
8:30 Boas vindas e introdução - Gary Dunning e James Griffiths, Moderador
- Resumo sobre os Diálogos sobre Silvicultura de Manejo Intensivo do The Forests Dialogue - Hannah Murray.
- Visão geral sobre os objetivos do Diálogo e agenda - James Griffiths
- Status atual e desafios para a silvicultura no Brasil - André Guimarães
10:30 Reflexões e aprendizados das visitas de campo - Beto Mesquita (com Antti Marjokorpi).
11:00 Depoimentos de representantes das comunidades quilombolas de Conceição da Barra, Espírito Santo.
12:00 Almoço
13:00 Perspectivas dos diferentes setores sobre a silvicultura de manejo intensive no Brasil - Peter Kanowski e André Guimarães, Moderadores
- Perspectiva do governo local - Gilmar Dadauto (Incaper-ES).
- Perspectiva das comunidades indígenas - ?
- Perspectiva das comunidades de carvoeiros - ?
- Perspectiva dos produtores rurais - ?
- Perspectiva dos quilombolas - ?
- Perspectiva dos ambientalistas - Miriam Prochnow (Diálogo Florestal para a Mata Atlântica e APREMAVI).
15:15 Intervalo.
15:30 Perspectivas dos diferentes setores sobre a silvicultura de manejo intensive no Brasil (continuação).
- Perspectiva dos trabalhadores - Laudinho Souza (Sindicato dos Trabalhadores das Empresas de Silvicultura e Serviços Florestais).
- Perspectiva das empresas de silvicultura - Luiz Cornacchioni (Suzano Papel e Celulose).
- Perspectiva sócio-econômica - Pedro Strozenberg (ISER).
- Perspectiva dos investidores - Colin McKenzie (Global Forest Partners).
17:00 Encerramento
19:00 Jantar oferecido pela Aracruz Celulose, Restaurante O Mercador (Vitória).
Quinta-feira, 17 de Abril
8:30 Perspectivas dos diferentes setores sobre a silvicultura de manejo intensivo no Brasil (continuação) - James Griffiths, Moderador.
- Perspectiva do governo federal - Tasso Azevedo (Serviço Florestal Brasileiro).
9:30 Resumo do dia anterior.
10:00 Atualizações:
- Diretrizes voluntárias sobre silvicultura - Linda Rosengren (FAO).
- Padrões do FSC para plantações - Anders Lindhe.
11:00 Próximos passos
- Dando seguimento ao Diálogo.
- Alinhamento final sobre os temas abordados.
12:00 Almoço
13:00 Discussão sobre os temas acordados - André Guimarães, Moderador.
15:30 Comentários finais e conclusões.
17:00 Encerramento.
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