("A arte não reproduz o que vemos. Ela nos faz ver". Paul Klee)
Sou recebido por Kleber Galvêas no portão. Antes de entrarmos, ele aproveita para me dar uma aula básica de botânica, me apresenta algumas espécies de árvores e restingas que ele preserva no quintal da sua casa-ateliê. "Nesse restinho de mata atlântica mantenho algumas espécies que já foram praticamente extintas do nosso litoral. Essa aqui, por exemplo, o pessoal usava em grande quantidade para fazer os famosos tamancos de madeira que eram vendidos em Guarapari". Na entrada do ateliê ele me explica que a construção é a ultima casa primitiva de pescadores preservada da Barra do Jucu. Dentro do ateliê começa outra aula, agora de artes. Galvêas apresenta um a um seus quadros me explicando didaticamente histórias e significados de cada uma das pinturas: do impressionismo ao expressionismo, passando pelo abstrato. O artista chama minha atenção para exibir três pinturas de significado especial de óleo sobre cal que foram pintadas pelo seu mestre, Homero Massena, aos 89 anos, pouco antes de sua morte, em 1974. "Dá para perceber o contorno desse pássaro aqui? O Homero chegou a desenhar, mas antes de pintar se sentiu mal e teve que interromper a pintura, logo depois ele morreu", lamenta com tristeza e saudosismo.
Foto: Acervo Pessoal
|
|
| Ateliê de Galvêas funciona na última casa primitiva de pescadores da Barra do Jucu; o jardim preserva uma restinga formada por cipós e bromélias.
|
Esses são os polêmicos quadros feitos com o pó de minério da Vale, pergunto ao pintor. "Exatamente. No dia 6 de maio, terça-feira, às 12 horas, acontece o ponto principal da 12ª edição do projeto 'A Vale, A Vaca e a Pena'. Como nos anos anteriores, uma tela está exposta à poeira em uma mesa da varanda da minha casa, em posição horizontal, desde o dia 17 de março até 6 de maio, portanto, durante 50 dias. Esfregando com o dedo a poeira ali precipitada, farei mais um desenho alusivo à poluição atmosférica".
Ele diz que, a cada ano, o resultado é mais interessante, porque pode ser comparado com um maior número de telas já desenhadas nos anos anteriores.
"Em 1997, na primeira edição do projeto, a Vale (nossa colaboradora, fornecedora da matéria prima) era uma empresa estatal. Dia 8 de maio ela completa onze anos como empresa privada. Esse projeto é uma provocação artística à poluição causada pela empresa. Ele é desenvolvido todos os anos no mesmo período, lugar, posição, materiais, procedimentos e tempo. Como é rigoroso o controle destes fatores podemos comparar os resultados, ano a ano, e perceber a evolução da poluição atmosférica em nossa região, que está cada vez maior".
Entre um quadro e outro, o artista aproveita para fazer críticas contundentes ao governo do Estado, à Vale e Cia. "O governo Paulo Hartung, por meio dos órgãos ambientais estaduais, autoriza constantemente a ampliação das empresas poluidoras no Estado. Ele ainda tem coragem de declarar na imprensa que seu projeto de desenvolvimento ambiental é responsável. Você acredita"? (risos).
Kleber Galvêas, 60 anos, nasceu em Divisa, hoje Dores do Rio Preto, no Caparaó. Os primeiros anos da infância passou em Dores do Rio Preto, São Mateus e Rio de Janeiro. Com sete anos veio morar na Prainha, em Vila Velha.
Nesta época já havia recebido de sua mãe, ex-aluna da irmã Tereza na escola do Carmo, as primeiras orientações sobre pintura. Em 1962 passa a freqüentar o ateliê de Homero Massena e acompanha o mestre até sua morte, em 1974, quando organiza no teatro Carlos Gomes uma retrospectiva em sua homenagem e publica para a Fundação Cultural do Espírito Santo um catálogo sobre a vida e a obra de Massena.
- Século Diário: O governador Paulo Hartung considera todos aqueles que se posicionam de forma crítica às grandes empresas instaladas no Estado como pessoas anacrônicas, que torcem contra, que não querem o desenvolvimento do Espírito Santo. Como o senhor avalia essa questão?
- Kleber Galvêas: Eu acho que a Vale não deixa de ser uma empresa muito interessante para o Espírito Santo, pelo ponto de vista da riqueza que ela pode gerar ao Estado. Entretanto, minha crítica está direcionada ao problema que ela causa à população. Isso é condenável. E esse problema não é de agora, ele se arrasta há 30 anos. Desde que ela começou a funcionar, a Vale se propôs a reduzir a emissão de poluentes e até hoje nada. Nesses 30 anos, o que nós percebemos é exatamente o inverso, a poluição aumentado no mesmo ritmo de seu crescimento.
Foto: José Rabelo
|
|
|
|
- Então o senhor acha que a Vale poderia conviver harmonicamente no Estado desde que ela não trouxesse problemas tão graves à saúde da população?
- Justamente. O problema é que a poluição é progressiva. Há doze anos, quando a Vale ainda era uma empresa pública, seu lucro era de US$ 275 milhões, hoje é de R$ 12 bilhões. Isso é sinal de que a atividade industrial tem sido intensificada e, com ela, os problemas da poluição. O governo Paulo Hartung, por sua vez, se esnoba ao afirmar que somos os maiores produtores de chapa de aço, de pedra, de petróleo, gás, minério etc. E a qualidade de vida da população, onde fica? Acompanhando o noticiário, mesmo da grande mídia capixaba, dá para perceber uma série de problemas. Nossa educação, saúde, segurança, habitação estão falidas, ou seja, tudo que o governo deveria fazer para resolver os problemas sociais do Estado não está sendo feito. Acredito que se tivéssemos um governo forte, atento às questões sociais, que impusesse, que defendesse o interesse do povo, e que não fosse um pinto na chuva como é Hartung quando está na mídia nacional, nós estaríamos com um padrão de vida parecido com o da Suíça. O imperador não pode só pensar em morar no palácio, ele precisa agir, impor a favor do seu povo.
- Como o senhor avalia a influência do governador Hartung sobre a grande mídia, a Assembléia Legislativa, o Ministério Público e outras instituições que deveriam atuar como defensoras dos interesses públicos?
- A grande mídia capixaba ou está comprada ou está acomodada. Eu participei de um programa eleitoral a pedido de um partido. Eles queriam que eu mostrasse essas telas da poluição causada pela Vale no programa eleitoral de um candidato a deputado federal que se dizia disposto a combater o problema. Como tenho interesse na causa, pedi apenas que meu nome não fosse vinculado ao partido, porque não pertenço a partido político nenhum. Meu compromisso é com a arte. Foram quatro minutos dentro de um programa eleitoral expondo os problemas causados pela poluição da Vale. Depois das eleições encontrei com esse candidato a deputado federal, que saiu derrotado, no casamento da filha de um outro candidato a deputado estadual, do mesmo partido, que foi eleito. Perguntei a eles: e agora, vamos à luta. Os dois desconversaram. Depois de algumas semanas fiquei sabendo que o deputado derrotado havia sido nomeado secretário de Estado.
- Era o Marcos Vicente?
- Exatamente. Ele foi nomeado justamente para a Secretaria de Turismo, que deveria ser a área mais combatente à questão da poluição. Nós temos uma condição excepcional que poderia nos tornar um dos destinos turísticos mais visitados do País. Estamos em um raio de um pouco mais de mil quilômetros das maiores concentrações populacionais do Brasil, além disso, temos uma costa maravilhosa, montanhas etc. Nós estamos simplesmente destruindo essa possibilidade. Infelizmente, o Marcos Vicente aceitou o cargo em troca de se manter calado, porque nunca mais ele quis tocar no assunto.
- A Vale tem sempre se esquivado das críticas, negando que seja a única responsável pela poluição na Grande Vitória...
- Tudo bem, não podemos dizer que é só a Vale, tem a ArcelorMittal (ex-CST) e outros fatores que contribuem com a poluição, mas a Vale sempre tirou o corpo fora. Eu lembro que houve uma audiência pública na Câmara Municipal de Vitória, lá na hora, recolhi poeira e coloquei sobre uma folha de papel e passei o imã embaixo para provar que a poeira dançava no compasso dos movimentos do imã. Isso prova que existe ferro na poeira. Eles até admitiram a hipótese, mas desviaram a culpa para a emissão de poluentes causada pela frota de veículos e pela construção civil. Isso na verdade é uma cortina de fumaça que eles colocam sobre os nossos olhos para se eximir da responsabilidade. Depois dessa acusação, procurei os representantes do Sindicato da Construção Civil para avisá-los que a Vale estava transferindo parte da culpa causada pela poluição para eles. Entretanto, mesmo acusados, eles não quiseram entrar na briga porque constantemente são procurados pela Vale para fazer obras.
- Quer dizer que o senhor está praticamente sozinho nessa luta que já dura doze anos?
- Praticamente não, eu estou sozinho. Na Festa da Penha distribui 10 mil folhetos para divulgar as ações que faremos este ano no projeto 'A Vale, a Vaca e a Pena'. Gastei R$ 800 do meu bolso para fazer os folhetos e o rapaz que limpa o quintal aqui de casa me ajudou a distribuir.
Foto: José Rabelo
|
|
|
|
- Qual o significado do título do projeto: "A Vale, a Vaca e a Pena"?
- A Vale, obviamente, é uma homenagem à nossa maior empresa, que inclusive produz a matéria prima utilizada nas telas; pena está relacionada à tubulação, ao calibre das chaminés poluidoras; e enfiamos a vaca no meio porque o matuto lá do interior, que tem seu rebanho de vacas, pega a bosta da vaca, junta e vende como esterco, ou seja, é uma lição para que os empresários peguem a sujeira que eles produzem na Vale e façam outra coisa com ela. A vaca foi enfiada ai no meio com esse propósito (risos).
- Por que o senhor decidiu iniciar esse protesto?
- Eu tinha uma galeria na Prainha (Vila Velha) e precisava contratar uma funcionária exclusivamente para limpar a poeira diversas vezes por dia, isso para não correr o risco de o cliente passar a mão em uma peça e sair com os dedos sujos. Foi então que decidi usar a própria poeira para desenhar nas telas, em vez de desenhar em cima do balcão como eu fazia muitas vezes. Como era o último ano da Vale como empresa pública, eu tive a idéia de registrar essa transição. Inclusive, acreditava que a privatização talvez pudesse mudar as coisas para melhor. Fiz então a primeira tela em 1997. No ano seguinte, decidi fazer novamente justamente para comparar se havia ocorrido alguma melhora. Tinha a expectativa que a poluição pudesse ter diminuído. Mas o que percebi foi que o problema havia se agravado significativamente. Então, a partir daí, fui fazendo ano após ano para ver quando a curva cairia, uma vez que as promessas eram sempre mirabolantes. Diziam que iriam importar equipamentos modernos para conter a poluição etc etc. Essas promessas sempre existiram, tanto por parte da Vale quanto do governo. Para piorar a situação, um dos governos, anterior a Hartung, prometeu isenção fiscal à Vale. O secretario de Meio Ambiente alegava, à época, que a empresa cumpria as exigências ambientais muito além das expectativas legais.
- Esse discurso protecionista parece que está sendo mantido pelo atual governo?
- Nessa gestão a coisa se tornou mais preocupante ainda, porque a atual secretária de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Maria da Glória Abaurre) deve ser muito poderosa, mudou quase toda a equipe e ela permaneceu firme e forte à frente da secretaria, isto porque ela é o braço direito da Cepemar, que é o instituto responsável em desenvolver quase todos os projetos de impacto ambiental dessas empresas poluidoras.
- A Cepemar, teoricamente, não tem a isenção devida para fazer esses estudos?
- Isso me preocupou e me preocupa bastante, ao mesmo tempo em que me dá gás para continuar com o projeto ('A Vale, a Vaca e a Pena'). Comecei a perceber que essas promessas do governo e da Vale eram vazias, uma vez que eles colocaram o lobo para tomar conta do galinheiro. Desta maneira, o processo fica todo comprometido.
- Desde que o senhor começou a fazer as telas para chamar a atenção da sociedade o governo ou a própria Vale se ofereceram para dialogar?
- Nas duas primeiras edições do projeto, a Vale mandou um fotógrafo à galeria para fotografar as telas. Os diretores de Comunicação Social e o de Produção da Vale também foram à galeria algumas vezes. Olharam as telas e conversaram comigo. Foi até um diálogo interessante, porque eles me passaram informações que eu não tinha. Eles me trouxeram dados sobre o volume de poeira que escapa da Vale, que na época, segundo eles, era de 100 toneladas/dia. Eles quiseram até comprar as telas em 1999.
- Com qual finalidade?
- Eles queriam dissolvê-las para averiguar qual era o material que existia nas telas. Disse que isso não era necessário, expliquei que se eles quisessem eu faria uma nova tela e daria de graça para eles, se essa era questão. Porque as telas do projeto, é bom deixar claro, não são minhas. Desde a primeira edição do projeto eu decidi doá-las para a Casa da Memória do Espírito Santo. A intenção foi dar uma importância maior ao projeto, tornando-o um documento permanente da sociedade, um patrimônio público.
Foto: Acervo Pessoal
|
|
| Desenho de 2005 ironiza que o ferro também está presente na Barra do Jucu, já o do ano seguinte, a figura do desenho agoniza para respirar
|
- Essas poucas conversas que o senhor teve com o pessoal da Vale fez com que a discussão avançasse?
- Eles sempre fizeram promessas. Disseram que ficariam mais atentos à questão, que fariam estudos para instalar equipamentos mais modernos que eram utilizados em outros países etc. As promessas sempre aconteceram, tanto por parte da Vale quanto dos governos, mas nunca foram cumpridas e o problema só se agravou.
- Os Termos de Ajustamento de Conduta (TACs) assinados entre a Vale e o Ministério Publico Estadual (MPES), pelo visto, nunca dão em nada, porque não há uma empresa isenta para avaliar se as exigências estão sendo cumpridas pela Vale.
- Inclusive esse último TAC que foi celebrado entre o MPES, a Vale e o governo do Estado, eles deixaram para me convidar no dia da audiência, justamente para que eu não participasse. Eu fui a quase todas as audiências públicas realizadas no Colégio Marista, que é com a população de Vila Velha, as que acontecem na Câmara de Vitória e na Assembléia Legislativa. Para ser bem sincero, me arrependi profundamente.
Por quê?
- Porque somos feitos de palhaço. Na entrada do auditório eles mandam a gente preencher uma ficha com os nossos dados pessoais. Durante a audiência eles praticamente não nos dão voz, ou, quando muito, permitem que falemos por no máximo cinco minutos. Já a empresa tem uma hora para expor com todos os recursos tecnológicos (datashow, slides etc) para impressionar o público. Quando a gente começa a entrar no assunto, a campainha toca para avisar que o tempo está esgotado. Para justificar essa distribuição desigual do tempo, eles alegam que a empresa é uma só e nós somos diversos. Resultado: você deixa seu nome registrado que esteve presente, a interpretação deles é que você está dando respaldo às decisões que foram tomadas na audiência, quando na verdade você não teve voz para se expressar democraticamente. Para piorar a situação, alguns líderes comunitários usam as audiências como moeda de troca. Dizem: 'Nós apoiamos a Vale desde que ela asfalte a rua X, resolva o problema do bairro Y', e assim por diante. Eles negociam a saúde da população em troca de benfeitorias miseráveis, insignificantes, frente à gravidade do problema.
- Quer dizer, o foco da discussão é desviado para problemas secundários por conta desses oportunistas?
- Na verdade não há mais nada para discutir sobre a questão da poluição, o importante é solucionar o problema. Isto está para todo mundo ver no site do Ministério da Saúde, todos sabemos dos males que essa poluição causa à saúde.
- No meio dessas pessoas que participam das audiências há algumas que pensam como o senhor, que estão preocupadas em solucionar o problema?
- Infelizmente são exceções. Fica difícil para se fazer qualquer articulação mais efetiva, as pessoas falam uma coisa hoje e amanhã elas mudam de posição misteriosamente. Isso acontece também com os nossos deputados da Comissão de Meio Ambiente da Assembléia Legislativa. O deputado Cláudio Vereza e a deputada Janete de Sá, por exemplo, devem estar com o rabo preso em algum lugar. A verdade é que nas audiências públicas eles conduzem todas as discussões na surdina, favorecendo sempre o outro lado. Quando é para se manifestar eles se omitem.
- Quer dizer que dos 30 deputados estaduais não há nenhum hoje verdadeiramente disposto a enfrentar esse problema?
- Nenhum. Nem o Vereza nem a Janete que usaram essa questão nos seus programas eleitorais estão cumprindo com seus compromissos. Informalmente eles parecem grandes defensores da causa, mas na hora H correm. Inclusive há um amigo que está sempre junto comigo nessa causa que é o doutor Geraldo Pignaton, que é pneumologista. Nós levamos na audiência da Assembléia um documento preparado pelo doutor Pignaton para ser anexado aos outros documentos e misteriosamente esse documento desapareceu.
- Mas sumiu como?
- Não sei. O documento foi entregue para a Janete de Sá e para o Vereza e não consta do processo.