Foto: José Rabelo
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- Qual é o teor desse documento?
- É uma avaliação do impacto da poluição na saúde da população. São avaliações clínicas que o doutor Pignaton fez aqui em Vila Velha durante os dez anos que ele clinicou no posto de saúde. O estudo aponta o agravamento das doenças respiratórias, alérgicas e de pele causadas pela poluição. Hoje os médicos mais ricos em Vitória são justamente os otorrinolaringologistas. Experimenta tentar marcar uma consulta rapidamente para ver se você consegue? Como eu disse, basta visitar o site do Ministério da Saúde que está tudo lá bem explicado. Por que os deputados não contratam um especialista nessa área, mesmo que seja do exterior, para avaliar o problema de maneira isenta, imparcial? Eles consultam hoje um programa de pesquisa da Universidade de São Paulo (USP). O problema é que esse estudo é financiado pela Vale. Estamos cercados. A Ufes, por sua vez, tem uma dependência histórica com a Vale. Mas o Ministério da Saúde tem uma comissão que poderia ser contratada para fazer essa avaliação da poluição atmosférica em Vitória. Nós inclusive pedimos isso formalmente, mas esse documento também desapareceu dentro da Assembléia. Eu tenho cópia desse documento que foi assinado por mim e pelo Geraldo Pignaton.
- Parece que a população vai passivamente convivendo com o problema da poluição como se não houvesse outra saída?
- Observe as varandas dos prédios da orla de Vitória e Vila Velha, as pessoas evitam ficar nas sacadas. As janelas ficam fechadas praticamente dia e noite como solução para se livrar da poeira. O sujeito realiza o sonho de comprar um apartamento de frente para o mar e depois descobre que não pode desfrutar da brisa, do prazer de jantar na varanda. Ele fica impedido de usar livremente essa parte do apartamento.
- Mesmo diante desse seu descontentamento em relação às audiências públicas, o senhor pretende continuar participando?
- Vou continuar participando, inclusive na próxima segunda-feira (14) estarei na audiência que acontece na 1ª Igreja Batista. Mas tem uma coisa, não preencho mais nenhum formulário de identificação. Se quiserem me aceitar assim, tudo bem. Não vou respaldar mais uma encenação. Essas audiências são sempre muito complicadas. Eu lembro que em 1999 ou em 2000, aconteceu uma na Câmara de Vitória e eles me convidaram para expor os quadros que eu fiz com o pó de minério. Em um primeiro momento, disse que não participaria da mesa e que ficaria junto aos quadros para explicar o propósito do projeto às pessoas. Entretanto, durante a audiência, um representante da Vale afirmou que o material usado nos quadros não era minério de ferro. Na hora que ouvi aquilo não agüentei. Larguei os quadros e solicitei meu lugar na mesa. Na minha fala, fui até a janela da Câmara, raspei a poeira sobre uma folha de ofício, peguei um imã de geladeira que carregava no bolso e provei que a poeira dançava de acordo com os movimentos que eu fazia com o imã sob o papel. Desse dia em diante, eles passaram a admitir que poderia haver algumas partículas de ferro no meio da poeira, mas eles frisam o tempo todo que os principais responsáveis pela poluição são os veículos e a construção civil.
Foto: José Rabelo
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- Saindo do problema da poluição e passando para artes, o senhor afirma que a Vale também tem feito um mau uso do Museu Ferroviário, supervalorizando artistas de fora em detrimento dos talentos locais?
- O Artigo 215 da nossa Constituição diz que é obrigação do Estado divulgar e promover a produção cultural. E eles, além de não cumprirem a lei, prestigiam o que se faz dentro do Museu da Vale. Para você ter uma idéia, durante dez anos não houve exposição de um único artista capixaba no Museu da Vale. Se isso fosse feito com o dinheiro deles, tudo bem. Cada um faz o que quer com o próprio dinheiro. Mas o Museu é financiado com dinheiro abatido em imposto de renda, ou seja, é o dinheiro do povo que está lá. São promovidas exposições regadas a champanhe francesa só para convidados da empresa, nessas o povo não entra. O Banco do Brasil faz essa mesma sacanagem usando as leis de incentivo à cultura. Há uma tenda para os convidados vips e outra para o povão, só que é o povo quem paga as duas. São essas coisas que me afastam dessas leis de incentivo à cultura. Quando eu criei o Museu Homero Massena, em 1986, eu o fiz pelo mérito do projeto, não existia à época uma única lei de incentivo à cultura no Brasil. Depois veio a Lei Sarney e quando a conheci decidi que não faria nenhum projeto para obter recursos por esses meios. Essas leis de incentivo foram montadas para favorecer as grandes empresas. A Abril Cultural, por exemplo, distribuía uma coleção de acabamento fantástico que se chamava 'A História em Revista'. A Publicação era editada pela Time Life e distribuída pela Abril no Brasil. Eles conseguiram aprovar um projeto de incentivo para os Correios fazerem a distribuição sem custos para empresa, agora, o meu livro suado eu tive que tirar dinheiro do meu bolso para pagar a edição. Fiz uma carta para a concorrente da Abril, a Isto É, para denunciar o caso. Estranhei que eles não publicaram a carta. Soube mais tarde que a publicação da editora da Isto É, 'Mil que fizeram a História', era distribuída da mesma maneira. Por essas e outras não acredito nessas leis de incentivo à cultura. A dona Maria que tenta preservar uma tradição da Barra do Jucu com suas almofadas de renda não recebe nenhum incentivo. Eu vim a primeira vez aqui na Barra do Jucu com a minha mãe para ela comprar essas almofadas de renda de bilro. A dona Maria poderia receber R$ 500 ou 1.000 por mês para ensinar a técnica a outras pessoas, gerar renda e manter uma tradição cultural. Agora eu pergunto: a dona Maria tem acesso às leis de incentivo à cultura? Ela sabe fazer projetos? Isso é um absurdo.
- Vamos voltar ao Museu Ferroviário, quais são os outros problemas que acontecem por lá?
- Eles contratam palestrantes de outros estados que desconhecem nossa realidade, ignoram nossa história. Um deles teve coragem de afirmar que a nossa tradição artística era rala e sem consistência. Essa é a posição provinciana que impera no Museu Ferroviário, valorizam o exótico e subestimam o artista local. Esse pensamento encontra ressonância na política de cultura do Estado. Depois de esperar sete anos pela regulamentação do Fundo de Cultura, os artistas capixabas terão seus projetos avaliados e julgados por pessoas que desconhecem a realidade cultural local. Deixando de lado suas obrigações e compromissos, o governo do Estado nos entrega à tutela cultural exótica. Talvez ele entenda que isto é globalização. É por essas e outras que Hartung é um dos principais responsáveis pelo desmonte da cultura no Estado.
- Podemos dizer então que na primeira e na atual gestão, Hartung trabalhou e trabalha contra a cultura capixaba?
- Isso não é de agora. Quando Hartung era candidato a deputado estadual, e veio discursar pela primeira vez como político no colégio Desembargador Ferreira Coelho, na Glória, em Vila Velha, eu assisti. Confesso que fui acompanhar seu discurso empolgado. Amigos haviam dado ótimas referências sobre Hartung e, além do mais, éramos da mesma região: Caparaó. No final do discurso fui falar com ele para lhe dar os parabéns. Eleito deputado estadual, uma das primeiras leis que ele fez, que teve uma repercussão muito grande, foi a da composição do Conselho Estadual de Cultura. Nessa época eu já era membro do Conselho e sabia que a lei acabaria matando o Conselho.
Foto: José Rabelo
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- Qual era a proposta da lei?
- Era uma lei corporativista de inspiração fascista. Com ela os membros do Conselho seriam eleitos pelos sindicatos das entidades de classe. Hartung achava que isso era democracia. Eu sabia que o Conselho viraria um saco de gatos, seria um arranhando o outro. E o governador acabaria intervindo e esvaziando o Conselho. Não deu outra. Embora me dissessem que Hartung era bem intencionado e que queria apenas democratizar o Conselho, eu acho que ele estava sendo instruído. O que ele estava fazendo era corporativismo. Se ele quisesse ser democrático, deveria ter apresentado a proposta para o povo decidir. Na verdade, ele queria compor um Conselho de Cultura com gente da confiança dele. Eu lembro que na época o Camata era governador e promoveu um almoço no palácio com todos os presidentes de sindicato ligados aos movimentos culturais e misteriosamente me convidou. Achei até estranho. Esse almoço teve até uma coisa engraçada. Eu perguntei ao governador se ele tinha uma granja no fundo do palácio, porque os cinco pratos servidos eram à base de ovos, inclusive a sobremesa. Mas voltando, esse almoço era para festejar a conquista da criação do Conselho, porque o Camata sancionaria a lei naquele dia. Todos os presentes aprovaram e aplaudiram a lei, acreditando, provavelmente, que receberiam um jetonzinho no final do mês. Eu era o único representante do atual Conselho e não me contive. Quando me posicionei contra lei, quase me jogaram pela janela do palácio. Eu propus que fosse criada uma federação de cultura com independência para fiscalizar as ações do Conselho, porque, afinal, o Conselho passava a ser um órgão vinculado à Secretaria de Cultura. Eles tacharam minha proposta de fascista. Foi uma pena o que fizeram com o Conselho, porque estávamos num momento muito bom, o grupo era ótimo: eu, Augusto Ruschi, Beatriz Abaurre, José Moisés, Paulo Césas Magalhães, entre outros. Esse grupo havia sido formado pela Anete Calil Vidal, que era secretária da Educação à época.
- O senhor está partindo para a 12ª edição do protesto, ou provocação, como o senhor prefere qualificar. Qual é a sua expectativa daqui para este ano?
- A cada ano, eu sempre espero que as coisas melhorem, mas, infelizmente, só pioram. Para este ano o desenho deve ser uma porção de chaminés e um tubarão bem grande em cima, todo preto, com a inscrição: 100 toneladas - fazendo uma alusão à quantidade de poluentes que é lançada por dia no ar que respiramos. Como eu disse no panfleto deste ano, ao longo das décadas, a Vale, a CST e mais recentemente a ArcelorMittal foram incompetentes para conter essa poluição. O governo Paulo Hartung, por meio dos órgãos ambientais do Estado, autoriza constantemente a ampliação das empresas poluidoras. Ele ainda tem coragem de declarar na imprensa que seu projeto de desenvolvimento ambiental é responsável. As empresas se defendem alegando que os maiores responsáveis pela poluição são os automóveis e a construção civil. É certo que esses fatores contribuem, mas eles usam essa desculpa para colocar uma cortina de fumaça em nossos olhos. A cor, o brilho, a densidade e o teste do imã denunciam que a contribuição das siderúrgicas na poluição do ar é incontestável. Vivemos hoje dentro de uma calota de ar saturado de partículas de ferro. Falta aos nossos políticos motivação para reverter essa situação. A grande mídia está acomodada, os partidos dependem da contribuição dessas grandes empresas para darem mais brilho e menos conteúdo às suas campanhas eleitorais. A melhoria das condições do ar que respiramos só acontecerá quando houver uma reforma política que redefina o financiamento das campanhas eleitorais. Um governo que concede licença para expansão de indústrias que se mostram incompetentes para resolver o problema da poluição em áreas densamente povoadas é no mínimo desumano e irracional. Humildade é a condição para que essas empresas reconheçam seus erros, arrumem suas as malas e se afastem definitivamente de Tubarão, como já pedia há muitos anos Augusto Ruschi.
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