Fazia no mínimo oito anos que não ia à Serra. Explicando, Serra é município onde moro, pero no mucho. Vivo em um bairro-ilha e passo a maior parte do dia em Vitória. Mas, num sábado desses em que provavelmente eu ficaria em casa, me convidaram para uma festa no Centro do município. Seria a minha sexta visita ao lugar. E sempre acho que estou indo para muito longe de casa.
Chamei um amigo para me acompanhar, mas ele nunca passa da Reta do Aeroporto. Aliás, como a maioria dos meus amigos. Terribles! Resolvi ir mesmo assim. Seria um tiro no escuro, mas com certeza era melhor que ir para um barzinho não beber e falar sobre coisas que até gosto. Pelo menos na festinha, eu poderia pegar alguém e se não, conheceria gente nova.
Olho o horário do ônibus para lá e vejo que demoraria a passar. Detalhe: como sou enrolado e atrasado, esse seria o último horário. Se eu perdesse, não ia e se fosse não ia ter como voltar. Lá fui eu. Endereço e telefone anotados no bolso. Uma trocadora loura comandava a roleta. Fiquei na frente mesmo, e pedi para ela me avisar quando estivesse próximo.
Pela BR 101 o ônibus avançava. Uma viagem quase. Tudo deserto e muitas partes escuras. Uma aventura. Ela disse que antes do meu ponto o ônibus iria passar por outro bairro e voltaria, não entendi nada. Mas, ao perceber que já estava na rua que queria, pedi para descer. Fui contando os números. Quando cheguei onde deveria ser, achei que não era. Toquei levemente uma campainha e vi um portão ao lado que dava para um grande corredor escuro. Ouvia uma música "bate-cabelo" ao fundo.
O portão estava aberto e desisti da campainha, fui entrando. Eu não vi absolutamente nada e meu medo era aparecer um cachorro. Sim, nada de assalto ou fantasmas, ali o problema ter que correr de cachorro. Quando cheguei ao fundo, só via vultos. Tudo escuro e uma pista de dança em uma garagem iluminada com um globo colorido.
Agora estava em um lugar sem nenhum conhecido. Achei dois, o que me convidou mais um. Várias meninas bonitas e garotos nem tanto. Muita bebida - e eu continuo sem beber. Som de boate. É, som de boate. Lá estava eu na pequena cidade do interior que é Serra-Sede. Quando falo que "Laranjeiras não é Serra" as pessoas não entendem.
Na verdade, nessa festa descobri divisões da cidade que eu desconhecia - o assunto variou, mas não vou fazer colunismo social. A gente sempre reclama que a Gran-Vix é um ovo, que sempre esbarra com as mesmas pessoas na rua, mas de repente conheci tanta gente que nunca tinha visto na minha vida. No final, ficou um ranço de visita antropológica - com envolvimento do observador, pelo menos.
A Serra-Sede é uma "cidade do interior com indústrias em volta". Estão lá a Prefeitura, a Câmara, o Fórum e esses órgãos de governo. Porém, a maior parte das pessoas e da grana, está fora dali - no distrito de Carapina, só para informar. Lembra um pouco o que acontece em Cariacica-Sede - quem conhece Cariacica-Sede?
Voltando às impressões. Uma das coisas que mais me chamou curiosidade foi as pessoas se referirem a um lugar chamado de "Centro da Serra". Para mim, Serra-Sede era o Centro da Serra, mas eles me disseram que não. Pensei então na região de Laranjeiras. Outro engano. O Centro da Serra seria a região com bairros que ficam entre a Sede e Laranjeiras/Carapina. Nunca tinha ouvido isso. Estranha divisão, mas nem questionei.
Um colega de Vitória também se mostrava abismado com a dinâmica do lugar. Achava interessante todo mundo ali se conhecer de maneira bem comunitária e cooperativista. As pessoas nem sempre só pensam no individual e até mesmo podem ser altruístas - ok, até eu não acredito nisso. Ali, a performance era essa. Amizade e política de boa vizinhança.
Havia por parte de alguns uma certa insatisfação com o bairro. "Todo mundo aqui se conhece e qualquer coisa que se faça chega ao ouvido de todos", reclamou uma loirinha entre goles de vinho. Estava incomodada com as "carolas da rua" e queria sair. Um amigo dela disse gostar muito de morar lá, o problema era a distância dos outros centros. Outro disse que para se divertir prefere bairros distantes.
Chegou uma hora que cansei de ficar no papel de "forasteiro" estudando o ambiente. Distante de casa, com pessoas novas e música tocando, o melhor era aproveitar o ambiente na integra. Vivência é o importa, me diria um amigo. E é verdade, deixemos as análises sisudas para os urbanistas, sociólogos, antropólogos, geógrafos, historiadores...
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