Vitória (ES), edição de 16 de abril de 2008
 
Aracruz confirma fábrica
no RS: ES é a bola da vez

Ubervalter Coimbra

Os ambientalistas e os grupos que combatem o agronegócio no Espírito Santo devem estar preparados: a Aracruz Celulose anuncia a construção da sua quarta fábrica no Estado ainda este ano. Nesta quarta-feira (16), a empresa publicou nota nos jornais capixabas informando da construção de uma nova fábrica, a segunda, no Rio Grande do Sul.

No Espírito Santo, a Aracruz Celulose concluiu no ano passado a ampliação da produção de suas fábricas em Barra do Riacho, no município de Aracruz, norte do Estado. A capacidade de produção da transnacional nas fábricas A, B e C passou para 2,33 milhões de toneladas anuais, um aumento de 9%.

Uma nova fábrica, a D, está projetada para a região. A Aracruz Celulose está prevendo produzir na área mais 1,3 milhão de toneladas de celulose anualmente. Anuncia que a quarta fábrica entra em operação em 2015.

Para aumentar a produção de celulose com sua quarta fábrica, a transnacional Aracruz Celulose demanda novos plantios de eucalipto em aproximadamente 100 mil hectares no Estado, e no máximo até o sul da Bahia. O que quer dizer ampliação do Deserto Verde na região.

Segundo Juraci Portes de Oliveira, da coordenação estadual do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a organização é "literalmente contrária ao agronegócio. Estes plantios, como os do eucalipto e da cana-de-açúcar, são do interesse de grupos especuladores internacionais e não produzem riqueza".

Aponta o dirigente que haverá redução das áreas destinadas à reforma agrária, e, portanto, à produção alimentos, com a nova fábrica da Aracruz Celulose.

Com a nova fábrica, a ampliação da Veracel (nova fábrica para produzir 1,3 milhão de toneladas anuais, mais que a atual) e a que foi confirmada no Rio Grande do Sul, a empresa vai mais que dobrar sua produção no país, passando de 3 milhões de toneladas anuais para cerca de 7 milhões de toneladas por ano, até 2015. A fatia de mercado mundial da Aracruz, de 13%, será ampliada para 25% do mercado global. Está de olho no mercado da China e Índia.

Somente no Rio Grande do Sul, a Aracruz, Votorantim e Stora Enso já compraram, juntas, mais de 200 mil hectares para o plantio de exóticas, segundo dados divulgados por ambientalistas gaúchos. No informe oficial sobre sua fábrica no Rio Grande do Sul, a Aracruz Celulose anuncia que as obras vão começar no segundo semestre. Será ampliada a capacidade da Unidade Guaíba para 1,8 milhão de toneladas anuais de celulose branqueada de eucalipto.

"O projeto de expansão prevê a construção de uma nova linha de produção de celulose ao lado da atual, com capacidade para 1,3 milhão de toneladas anuais - podendo atingir 1,4 milhão de toneladas no médio prazo, sem a necessidade de gastos adicionais - que demandará investimentos da ordem de US$ 1,8 bilhão. As licenças prévias ambientais - florestal e industrial - já foram concedidas pela Fundação Estadual de Proteção
Ambiental (Fepam-RS)", informa a Aracruz Celulose.

E comemora: " O destaque dessa nova fábrica será o seu reduzido custo operacional, ainda mais competitivo que a atual fábrica da Veracel, onde a Aracruz tem participação de 50%. Novas tecnologias e sinergias assegurarão excelência operacional e baixo custo de produção. A nova linha entrará em operação em agosto de 2010..." .

E que "a base florestal também receberá um incremento, passando a somar 160 mil hectares de plantios de eucalipto". Estão incluídas as áreas de arrendamento, contratos florestais e parceria com produtores. O investimento florestal é estimado em US$ 600 milhões, incluindo a aquisição de terras, infra-estrutura e silvicultura, já teve 40% do seu montante realizado. A empresa anuncia que terá também outros 90 mil hectares de terra para consolidar o projeto.

   
Empresa criada com recursos públicos

A norma da Aracruz Celulose desde sua fundação há 40 anos, com apoio da ditadura militar, é promover a ampliação de seus negócios com recursos públicos. A Aracruz Celulose foi criada pelos militares atendendo ao empresário norueguês Erling Sven Lorentzen.

Erling é casado com a princesa Ragnhild, irmã do rei Harald V. Para criar a empresa, o autoritário governo federal e os governos estaduais atenderam a tudo o que foi idealizado e pedido pelos noruegueses. Na prática, a empresa foi instalada com dinheiro brasileiro. Depois seu comando e os lucros foram entregues principalmente a Erling Sven Lorentzen.

A Aracruz Celulose empregou mão-de-obra bandida para tomar terras dos quilombolas: usou como seu principal testa-de-ferro o tenente Merçon, do Exército. No máximo, o militar consentia em pagar valores irrisórios aos que resistiam. Os negros então foram forçados a abandonar cerca de 50 mil hectares em todo o Estado em favor da empresa. Vieram depois os plantios de eucalipto e a destruição ambiental em toda a área.

Além dos quilombolas, a Aracruz Celulose tomou terras dos índios. Para pressioná-los a empresa lançou mão dos serviços de um dos maiores pistoleiros da história do Espírito Santo, o major PM Orlando Cavalcante. Os Tupinikim/Guarani conseguiram recuperar 18.027 dos 40 mil hectares tomados pela empresa.

A Aracruz ainda mantém em seu poder terras devolutas, como da fazenda Agril, que por lei deve ser destinada à reforma agrária.

   


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