Cadê a oposição?




Antônio Carlos Medeiros
é administrador e cientista político

Quem aterrissa no Brasil de maneira desavisada tem a impressão de que a política nacional está igual a Biruta de Aeroporto. Sem direção, sem pauta, sem rumo. Misturando tática com estratégia, ação conjuntural com ênfase estrutural.

O governo está agindo com muita competência no varejo e no conjuntural. Desqualifica a discussão do terceiro mandato, mas sabe que esta discussão desvia a atenção da oposição para outro lugar e deixa a iniciativa da sucessão presidencial a altura do raio de ação do presidente Lula e do governo. Tem vários bodes na sala...

A oposição reúne-se em São Paulo, mas continua demonstrando falta de rumo e de coordenação. Rachada, fragmentada, sem pauta, sem rumo. Ainda por cima, embarca na discussão do terceiro mandato e entra no jogo dos bodes na sala. Bom para o governo, no varejo e no conjuntural.

Enquanto isto, a proposta do deputado federal Devanir Ribeiro (PT-SP) toma forma de PEC sobre mandato presidencial de cinco anos , sem reeleição. É a idéia de retomar o que estava na Constituição de 1988.

Ironizado por boa parte da chamada grande imprensa, o deputado Devanir Ribeiro tem uma bela história de vida política e é um dos parlamentares mais sérios do Congresso nacional. Apesar da sua proposta ter estimulado o debate do terceiro mandato, ele tem afirmado que a sua principal idéia e objetivo é estimular a reforma política mais ampla que o Brasil precisa.

É no sentido da reforma política que, por exemplo, o senador Renato Casagrande (PSB-ES), também um dos mais sérios do Congresso Nacional, também trabalha. Devanir Ribeiro, por exemplo, na Câmara. Renato Casagrande, por exemplo, no Senado. Na direção da reforma política. Ambos da base aliada.

É isto que nos leva a perceber que bandeiras do tipo da reforma política, de natureza estratégica e estrutural, é que deveriam ser assumidas pela oposição ao governo Lula. Mas não. É a própria base aliada que suscita o debate da reforma. A oposição só trata do varejo, da luta política de curto prazo. Uma pena. Lamentável. Ruim para o País.


Onde estão as propostas dos Democratas e do PSDB para as reformas que este País precisa? Por que só falar do conjuntural, do varejo? Cadê a oposição?

No fundo, mas também no raso, está faltando visão de Estado. Falta discutir os entraves ao desenvolvimento brasileiro, para além da sucessão presidencial. Se o PSDB e os Democratas desejam ser alternativas de poder, é preciso explicitar para o país o projeto de país que eles têm.

Por exemplo, como melhorar o ambiente de negócios no Brasil, estimulando o empreendedorismo, base do capitalismo-de-empreendedores do Século XXI? Como melhorar a produtividade da economia brasileira? Como melhorar o nível de investimentos em infra-estrutura? Como melhorar o nível de investimentos do governo? E assim por diante.

Neste sentido, o das questões de Estado, a reforma política é, certamente, uma questão fundamental a ser encaminhada. Assim, além de ironizar a proposta do deputado Devanir Ribeiro, não seria o caso da oposição melhorá-la e estabelecer ligações entre esta proposta - a do mandato de cinco anos sem reeleição - e a reforma política? Cadê a oposição?

O governo Lula deve estar achando ótima esta ênfase da oposição no varejo político. O ambiente de Biruta de Aeroporto é bom para o governo. Mas ruim para o País.