Tentando exorcizar a visão de sua figura austera, vou cometer aqui uma inconfidência, para ver se o velho Rubem não fica com seus sisudos olhares de reprovação. Está bem, sei que ainda não cumpri o prometido — arranjar um coçador de costas com pata de veado para o Edvaldo Pacote e, ao entregar, dizer: "Está aqui. Foi o Rubem quem mandou. Disse que coçar as costas é a melhor coisa do mundo". Mas também onde vou achar um veado nas barrancas do Cricaré. Não há mais matas, e os que existem por aqui não têm mãos muito recomendáveis.
Nos idos dos Anos de Chumbo, quando o procurava na cobertura da Rua Barão da Torre 42, Ipanema, Rio de Janeiro — sempre à hora alimentar — o bom Rubem, antes da mesa farta, convidava a um uisquinho e deitava-se à rede, empurrando-a com um pé ao balanço preguiçoso e ficava indagando coisas: "Está morando onde?". Embora soubesse da resposta ditas tantas vezes, arrematava em seguida: "Que horror". Implicava com meus endereços na Lapa, Catete e Gamboa, naqueles idos de 70. Ele, no início da carreira, também havia morado lá.
Quem não o conhecesse diria: "Que sujeito mal-humorado? Não pode ser o Rubem Braga das sensíveis crônicas que embalavam a alma carioca pelo "Correio da Manhã", na Cidade Maravilhosa". Mas não tinha jeito. Era mesmo carrancudo, intragável aos estranhos, monossilábico nas respostas e fazia questão de não arredar pé dessa posição. Parecia mesmo que agia em defesa e não deixava ninguém se aproximar. Tudo era só fachada. Tinha o coração mole. Derramava-se todo com as coisas mais simples.
Certa feita, perguntou-me: "Quando morrer, vai preferir cremar o corpo ou vai ter velório, choradeira e sepultamento?". Que coisa mais sem sentido, nem penso nisso. Ele levantou-se, bebeu uma boa talagada e disse: "Pois quando eu morrer, não quero dar trabalho. Vou deixar tudo certo. Cremar o corpo e jogar as cinzas no Itapemirim. É higiênico e detesto gente chorando aos meus ouvidos. Além do mais, todos querem ir para o céu. Odeio lugar com gente comportada".
Voltei ao Estado do Espírito Santo e nos falamos algumas vezes. A 19 de dezembro de 1990, recebi a notícia: Rubem Braga morreu. Dias antes, havia ido a São Paulo, procurado uma empresa especializada e contratado o serviço: "Quero cremar um corpo". Solicitou o orçamento, sacou o talão de cheques, pagou e, quando a atendente indagou pelo endereço do defunto para ser removido ao crematório, disse-lhe: "O cadáver sou eu! Mas não espalhe que detesto ver gente chorando". Até na morte Rubem Braga foi genial.
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