Um marco no caminho





Ubervalter Coimbra


O dia 18 de abril de 2008 deverá se constituir num marco para a região sul capixaba. Não um marco destes que lembrem coisas positivas, mas, sim, um que lembre tragédia. Como, no hábito popular, a colocação de cruzes nas estradas, sinalizando mortes em acidentes.

Nesta sexta-feira, a Samarco Mineração coloca em operação sua terceira usina de pelotização em Ponta Ubu, na divisa de Anchieta com Guarapari.

Com a inauguração da nova usina, a capacidade de produção da Samarco aumenta em 54%, passando a produzir 23,5 milhões de toneladas de pelotas de minério de ferro por ano.

A transnacional anuncia que irá produzir e embarcar 21,6 milhões de toneladas de pelotas já em 2008. A Samarco é da Vale e da australiana BHP Billiton.

Com um decreto, a Samarco Mineração acaba com o turismo no sul capixaba, afetando particularmente os comerciantes.

Mas a poluição do ar e das águas no sul do Estado não perdoará, mesmo, os moradores: haverá mais poluição nos corpos das pessoas. O ar, as águas, o solo, as plantas e os animais estarão mais e mais envenenados.

Já contaminada com metais pesados lançados pela Samarco Mineração, a lagoa Mãe-Bá continuará sendo um tanque da poluidora.

Certamente a praia do Além, contaminada diariamente por pó de minério, por vezes atingida por poluentes mais densos que cobriram suas areias, mais contaminação terá. Prejudicado todo um ambiente onde, no passado, havia abundância de peixes e mariscos.

Onde ainda existe, mas por pouco, enorme riqueza de corais. Estes, ameaçados por um outro projeto, o porto da Petrobras.

De resto, apenas um outro projeto considerando o tamanho da desgraça ambiental que o governo Paulo Hartung reserva para o sul capixaba com sua forma (atual) de entender o progresso. Forma atual, pois o hoje governador, já foi "de esquerda" (da ala direita da esquerda, é verdade, mas de esquerda), o que na sua época de estudante universitário era traduzido como a forma moderna de ver o mundo. Num modernismo onde não cabia poluição!

Pois este projeto do ex-esquerdista reserva para o sul capixaba, nas proximidades da Samarco, um pólo industrial que já está em implantação. Nele, a Vale criará um pólo siderúrgico possivelmente maior do que Tubarão: serão sete pelotizadoras, podendo chegar a dez.

O pólo também terá uma siderúrgica de grande porte (produzirá 5 milhões de toneladas anuais, podendo dobrar a produção a médio prazo) da chinesa Baosteel e da Vale. Há, ainda, a possibilidade de a Vale construir uma siderúrgica em parceria com a transnacional ArcelorMittal. E quem sabe, outras siderúrgicas.

Também estão reservados para a região sul outros projetos. O governo do Estado quer ainda um pólo petroquímico, incluindo uma refinaria de petróleo. Tudo isto contando com os portos, atual e futuros, e com a Ferrovia Litorânea Sul, que a Vale construirá para dar suporte aos projetos industriais do pólo.

Sinistro futuro do Sul capixaba, como é sinistro o presente da Grande Vitória com a poluição que gera morte, e todo um complexo de violência que a instalação destas empresas (Vale, ArcelorMittal Tubarão e Belgo, principalmente) acabou por favorecer.

As cruzes para serem colocadas no caminho do sul, em Ubu, já deviam estar sendo preparadas.

Tornariam visível a grande desgraça do modelo econômico do Brasil, voltado para gerar riqueza, mas para as transnacionais que o país hospeda, sem considerar as mortes pelo caminho!


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