Vida de Imigrante - O click do cheese




Wanda Sily
Escreve direto de Miami - EUA


Um menino, uma bola, verde campo de grama nova. O menino no ato de chutar, a perna esquerda erguida, a cabeça baixa, o cabelo caindo no rosto, os braços em arco para dar mais impulso. O menino concentrado no ato de criar um momento inolvidável. O sol brinda a cena com a claridade necessária. O clique do fotógrafo atento, provavelmente o pai. O chute se perde, já não é necessário.

Essa é a era da fotografia. Eu gosto, você gosta, nós gostamos. A tecnologia pôs as câmeras ao alcance de todos, em todos os preços e formatos, de todos os tipos e estilos, das mais simples às mais sofisticadas. E as promoções de fim de semana, fim de mês, fim de ano são irresistíveis. O excesso de fotos aquece o mercado e impulsiona a economia.

Tempos houve de fotos escassas, entronizadas entre molduras numa parede ou num porta-retratos no console da sala, entre jarras e bibelôs empoeirados. Elaboradas e eternas, uma única foto era o comprovante de toda uma vida. Havia até o mórbido hábito de fotografar os defuntos. Se o sujeito viveu a vida toda sem precisar ser fotografado, por uma foto para prolongar a morte?

Mesmo em sendo de má qualidade, as famílias brigavam pela raridade, muitos queriam ser seu depositário fiel. Hoje temos fotos à vontade, em todas as datas e eventos, em qualquer ocasião, nos cenários mais diversos. Cheese, e o sorriso se eterniza no tempo - o momento exato, a foto perfeita. Se há mais de um interessado, não precisa brigar, imprime-se outra cópia. E mais outra.

O hábito faz o monge. As promoções para imprimir abundam - pague uma e leve duas, ganhe um pôster; imprime e leve um filme de brinde; compre o filme e imprime de graça. Ou imprime na sua impressora. Ou nem imprime, deixa armazenada para sempre na digital. Para sempre é muito tempo. Em breve será substituída por outras, que se o coração é grande a capacidade da câmera é pequena.

No entanto... vai alguém entender os negativos da alma humana! Apesar dos excessos, é muito difícil se desfazer de uma foto. Não ficou boa, está fora de foco, tremeu, olho vermelho, olho fechado, boca aberta, queixo duplo... Mesmo assim continuam no álbum ou no armário, ninguém quer eliminar, apagar, jogar fora, rasgar, queimar.

Amamos nossas fotos, mesmo que não sejam boas, mesmo que não sejam muito fiéis ao modelo. Ou não saiam do jeito que o modelo acha que é. Ou mostrem o modelo tal qual é. Talvez resquícios dos preconceitos que marcaram o começo da era fotográfica: tirar fotos faz mal, roubam a alma, encurtam a vida, essas coisas.

É o mito invertido, tirar a foto agora pode, mas se desfazer dela é um ato simbólico de se desfazer da própria pessoa fotografada, mesmo que seja eu mesma. Mesmo se não gostamos, vamos guardando. Talvez um dia, por algum motivo totalmente absurdo e absolutamente impensado, seja a única que reste.