Como prometi nas crônicas passadas, um dia ainda me sobrará um tempo para escrever as saborosas e impagáveis histórias políticas de Cachoeiro. Aliás, sobre a palavra "história", Ziraldo - que esta semana esteve no Estado na qualidade de "Patrono do Fórum das Águas" - defende uma de suas muitas teses. É interessante relembrar. De acordo com o cartunista, o seu suposto sinônimo - "estória" - foi a pior herança que nos legou o mineiro Guimarães Rosa, que, em vez de lutar com palavras, como Drummond, preferia emprenhá-las e saiu por aí criando um mundo semântico de encher nossos ouvidos da música mais bela.
Mas é o próprio Ziraldo que diz: "as reclamações sobre Guimarães Rosa não devem ser levadas muito a sério, pois eu me encantava com a capacidade que Guimarães Rosa tinha de, a partir de falar dos sertões, misturar raízes gregas ou latinas - e até de línguas mais remotas - para criar termos novos que davam aos seus personagens, no falar, a consistência de figuras homerianas. Aí, quando ele quis reduzir suas narrativas à condição de causos, achou que a palavra história não era a palavra adequada para nomeá-las. Causo era pouco, já pertencia ao Carmo Bernardes ou ao Mário Palmério. O que fez ele? Aproveitou que, em inglês, existem para narrativa as palavras History (quando é ciência ou narrativa mais longa) e story para uma historinha mais maneira, e decidiu tirar o H de história e inventar a nova palavra. Começando com "i", ele achou que não ficava bem e, então, escreveu estória. Estória, meu Deus! És!!!. Um som que, neste lugar aí (começo da palavra história), nunca ouviu na boca de qualquer brasileiro, contador de causo".
Com seu ar irreverente, nesse mesmo ritmo narrativo, acrescenta o cartunista: "um bando de bobocas entrou nesta. Todo mundo danou a contar estória! Ô, antipatia!".
Ziraldo fala sem sossego. Será que ainda dá para pegar o gancho lá de cima, quando eu falava sobre as histórias cachoeirenses? Mas acho que posso continuar sem perder o fio da meada, como dizia a minha querida mãe, mineira também, lá de Leopoldina.
Contam os historiadores que, quando interventor do Estado, em 1946, o médico cachoeirense Aristides Alexandre Campos, deslocado para o poder, vez por outra era dominado por grandes angústias, na rotina do Palácio Anchieta. Ele sentia falta do bate-papo no ponto de encontro de Cachoeiro (Bar Vitória), onde sempre apareciam grandes debatedores. Nunca houve unanimidade sobre qualquer assunto, principalmente política. As discussões duravam horas e mais horas. O lema era: alguém tem que discordar da tese levantada, caso contrário saía da roda. Havia sempre alguém discordando dele, então médico. E o debate passava a ser acalorado. Encerrada a conversa, todos ensarilhavam as armas verbais e continuam amigos para sempre. Ou seja, até o dia seguinte.
Bem, mas eu ia dizendo que Dr. Aristides foi para a capital na qualidade de interventor. E, lá, ninguém discordava dele. Tudo que falava era ordem. Yes, man. Os assessores eram asseclas. Exatamente ao contrário do que se passava toda tarde em Cachoeiro, no Bar Vitória.
A situação já se tornava inquietante e, com o tempo, configurou aquilo que poderíamos chamar - se não houver qualquer idiossincrasia do Ziraldo - de "solidão do poder".
Não suportando mais aquela situação, o interventor se deu ao luxo de mandar um assessor seu agendar uma reunião com todos os amigos de Cachoeiro, para uma tarde no Palácio. Obedecida a ordem, reunidos todos, na sala principal, a conversa se repetiu, tal qual no Bar Vitória. O papo - o certo seria essa expressão - não era travado com o interventor. Mas com o amigo, que, aliás, foi veementemente criticado por todos e como nunca. Cada um tinha uma cobrança ou uma indicação, sob efeito de crítica. Dr. Aristides passara de debatedor para vitrine.
Restou estabelecida a alegria do poder, naquela tarde.
Dizem ainda os historiadores que Dr. Aristides, um homem extremamente probo e habilidoso, para poder continuar na interventoria, exigiu que pelo menos uma vez por semana ficasse estabelecida a mesma reunião no Palácio, quando, então, poderia exercer o poder sem a subserviência dos assessores, mas com as críticas ácidas e acerbas dos amigos cachoeirenses. O máximo que admitia era o cafezinho e a água, como mordomia. Tempos bons, diria Rogério Medeiros, que, por sinal, me presenteou com uma de suas mais belas fotos para enfeitar meu novo escritório.
Lamento, por fim, que uma cidade como Cachoeiro, com tanta história a ser contada, não tenha mantido, pelo menos, um ponto de encontro para que o passado pudesse servir de luz para o presente e futuro. E isso é tão simples.
Você, meu caro leitor, já imaginou o Dr. João Madureira defendendo a tese de que, além das planícies terrestres conhecidas, também existem planícies hidrosféricas e atmosféricas, com divisões e subdivisões?
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