Vitória (ES), edição de 07 de novembro de 2007
     Capa       Agendas       Cinema         Dicas       Exposições       Rapidinhas       Arquivo       Expediente         Fale Conosco
Aparelhos: algumas impressões



Leonardo ViSo

No primeiro dia a chuva. No segundo, uma porta fechada. Finalmente, no terceiro consegui visitar a exposição Aparelhos de Fernando Augusto. A mostra marca a o início do calendário de atividades da Galeria Homero Massena em 2008. O tempo chuvoso permanecia e como os capixabas são feitos de papel, a galeria estava vazia. Por alguns instantes, eu estaria sozinho no universo criado para a exposição.

Quem conhece a Homero Massena sabe que ela não é dos maiores espaços. Mesmo assim, exerce um fascínio que ainda a faz um dos espaços mais disputados para exposições. Porém, agora o piso acima da galeria principal foi totalmente agregado e a exposição também se estende até lá. E pensar que por anos, tínhamos ali um depósito de todo tipo de entulho imaginável. Yvana Belchior, antiga coordenadora de artes visuais da Secretaria de Estado da Cultura, foi a responsável pela faxina.

Limpeza de lado, voltamos à Galeria no presente. A Homero Massena está localizada no meio dos poderes vigentes - Palácio Anchieta, Fórum de Justiça, Catedral Metropolitana e Assembléia Legislativa (até poucos anos atrás) - mas, consegue ainda assim ter seu charme e sua energia própria. Ninguém é obrigado a acreditar nisso, mas pense que pode ser muito mais prazeroso entrar na galeria do que na maioria dos prédios circundantes.

Aparelhos mostra um conjunto de 32 trabalhos, pinturas e desenhos-fotografias, expostos fixados na parede e em módulos de madeira ou mesas. Em duas paredes num pequeno texto de apresentação da mostra, Fernando Augusto explica que a concepção de Aparelhos tem como base o "cruzamento entre o ideal de precisão da arte construtiva e concreta e os impulsos emocionais da arte informal". Imagens dos aparelhos médicos de cirurgia e de ginecologia identificam todo esse processo. Esses aparelhos, que ele classifica como poéticos, "são formas imaginárias para cirurgias verdadeiras".

O artista deixa pistas nas paredes, mas temos toda a liberdade de criarmos outros significados. Foi o que eu fiz - e talvez as 88 pessoas que foram antes de mim e assinaram o livro de presença. Resolvi ir calmamente, quadro por quadro. São trabalhos em escala média, o que possibilita um mergulho sem muita aproximação física. Na minha ordem, o primeiro quadro era uma espécie de canhão muito parecido com aqueles virados para o Penedo na Beira-Mar. De maneira, imaginar que a tela ao lado sem um barco de madeira é quase inevitável. Assumir essa interpretação é um risco, mas por que não? Seriam resquícios do espaço e do caminho até a própria galeria?

Preto, azul e todas as cores entre elas dominam as obras. Quando uma cor diferente aparece, como um laranja, por menor que seja o destaque é grande. Também pudera. Destaque para a série Visita ao Campo Santo. Antes mesmo de ler os títulos dos quadros - conforme me orientou um colega uma vez numa exposição de Picasso - só conseguia ver túmulos e urnas. A mais bela seria uma espécie de caixão sobre rochas de uma arrebentação de ondas de um mar revolto em um tempo fechado. Influência do tempo?

Outra série que se destaca é A Casa do Passado. Vários ângulos da mesma casa e telas distintas. Pouco se vê dessa casa, pouco se sabe ou nada se quer mostrar. Onde ela fica? Quem mora nela? Nada importa, uma vez que ela ficou presa a um momento que não existe mais. Com a imagem dessa casa, subo ao piso superior da exposição. A sala é mais ampla e dá a sensação que a exposição se multiplica assustadoramente. Nas paredes e no chão em mesas, as obras tomam conta do ambiente.

A casa do passado volta a aparecer outras vezes. Nem sempre é fácil se mudar, fechar a porta e não olhar para trás. "Todos os tecidos apodrecerão", está escrito em uma dela com vista para a Rua Pedro Palácios. E o que não apodrecerá? Em meio a objetos quase inanimados, uma figura de mulher desenhada em uma página de um livro. A pergunta "por que ela quer?". É possível quem nem ela responda.

A série Aparelhos e que dá nome a exposição, finalmente aparece, mas não chama tanto a minha atenção quanto as outras. Eu poderia forçar uma imagem de intervenções corporais possíveis, mas não me vinha à mente. Isso gerou um certo incômodo - seria intencional? Mas, na parede diz que Aparelhos é mais que um título da série e, sim, um batismo. E para mim, tudo então se torna ainda mais aceitável e Aparelhos passa a ser um batizado forçado para um ambiente pagão.

Depois da minha viagem a exposição, o jeito é esperar até o dia 24 de abril quando Fernando Augusto fará um bate-papo falando um pouco mais sobre a escolha do título da mostra. Até lá, nomeamos nós mesmo cada um daqueles pedaços.

Serviço
A exposição Aparelhos, do artista Fernando Augusto, está na Galeria Homero Massena. Rua Pedro Palácios, 99, Cidade Alta, Vitória. Visitas de segunda à sexta, das 10h às 18h. Até 25 de abril. O bate-papo com o artista acontece dia 24 de Abril, às 15h.

 

Leia Também:
    
Agendas
Turismo e Cultura do ES

Século Diário
Notícias do dia

Veículos
Novidades sobre o mundo automobilístico