As paineiras estão carregadas de flores. Elas vieram na cor (rosa) de costume e no tempo certo (abril), mas em compensação o jasmineiro da vizinha amanheceu com duas flores em pleno mês de abril. Mais um descuido da vegetação ou será um sinal da mudança dos tempos?
Alguém consciente dos últimos distúrbios meteorológicos dirá que os jasmins temporões vieram em abril porque não tiveram tempo e clima para florir em novembro, no final da primavera, como é de sua natureza.
Inevitável dar uma cheirada para conferir: os jasmins da casa ao lado têm o perfume que lhes é peculiar. Tudo indica que não há nada de errado com eles. Sua cor branca e o formato também são os de sempre. Mas a desconfiança faz parte do cotidiano humano. Por que a natureza não inspira mais confiança? Decerto porque o homem a destratou.
Os abusos continuam, infelizmente. Veja-se o que acaba de acontecer no pampa, o menos conhecido bioma brasileiro, situado no Rio Grande do Sul. Cedendo às pressões da indústria de celulose, os técnicos-políticos responsáveis pela gestão do meio ambiente gaúcho liberaram totalmente o plantio de eucalipto e de outras árvores de interesse industrial, com a acácia negra e os pinheiros exóticos.
Desconsiderou-se o zoneamento ambiental elaborado nos últimos três anos por técnicos-ambientalistas que dividiram o pampa em 45 ecossistemas distintos. Nas áreas mais frágeis e vulneráveis, seria permitida a ocupação de 2% com plantios florestais. Nas áreas menos vulneráveis, a silvicultura poderia chegar até o limite de 50%, mas sempre obrigada a cumprir regras como manter uma distância mínima de um quilômetro entre maciços florestais com mais de 500 hectares.
Segundo os técnicos que o defendem, o zoneamento ambiental permitiria a ocupação de 8 milhões de hectares pelo florestamento industrial (atualmente, as florestas plantadas ocupam cerca de 400 mil hectares). Dispostas a plantar não mais do que 500 mil hectares de eucalipto, as empresas de celulose já compraram cerca de 300 mil hectares, parte deles já cultivada. Interessados nessa nova oportunidade de renda, muitos fazendeiros estão entrando na eucaliptocultura. O problema é que as áreas plantadas não coincidem com o zoneamento. Por isso, as empresas forçaram a porta.
O zoneamento da silvicultura nutre-se do conhecimento do comportamento das florestas e da observação do meio ambiente gaúcho, onde o eucalipto está presente há mais 100 anos, a acácia há 80 anos e o pinus há 40 anos. Além disso, há cerca de um século, os ecossistemas do Rio Grande do Sul começaram a ser usados intensivamente para o plantio de pastagens, arroz, trigo e soja. Segundo especialistas, apenas 40% do território gaúcho mantêm traços da fisiografia primitiva. A maior parte foi substancialmente alterada. Nesse contexto, e levando em conta o pioneirismo gaúcho na criação de leis ecológicas, por que os argumentos dos ambientalistas perderam força e foram completamente aniquilados pelos técnicos alinhados com políticos e empresários?
As respostas variam entre essas alternativas: 1) muitos ambientalistas são considerados românticos, incapazes de compreender as motivações das empresas; 2) outros são tidos como radicais sem noção da realidade; 3) algumas ongs tornaram-se suspeitas por aliar-se a movimentos radicais como o MST e a Via Campesina, protagonistas de ataques a viveiros e plantações.
Minoritários nos órgãos oficiais do meio ambiente, os ambientalistas-radicais foram patrolados por técnicos e políticos que preferem pagar para ver os investimentos das empresas de celulose no pampa. São três empresas, Aracruz, Stora Enso e Votorantim, que prometem investir cerca de 4 bilhões de dólares em terras, plantações, fábricas e terminais de exportação de celulose.
De fato, os investimentos em florestamento tendem a alterar a matriz econômica de uma centena de municípios gaúchos que vivem da agricultura, da pecuária e da mineração. Não haverá uma mudança substancial, mas as coisas tendem a melhorar do ponto de vista econômico. A dúvida é sobre o impacto ambiental. Dentro de 100 anos, como estarão as coisas? Serão os ambientalistas capazes de reverter o jogo e impor as regras ditadas pelo zoneamento?
Pensão ditatorial
De um leitor que assina Ewerton, recebi a seguinte mensagem a propósito da coluna anterior:
"Apesar de não ter vivido os anos negros da ditadura militar, ouvi e li muitas coisas e até concordo com aquelas pessoas que não pretendem auferir lucros às custas de suas ideologias, entretanto não acho correto que se apontem dedos para o Jaguar e Ziraldo por terem pleiteado a dita indenização, pois como todo militante político, estudantil ou outro qualquer, todos têm que fazer sacrifícios pessoais de alguma natureza para realizarem seus ideais.
A moralidade da indenização é relativa pois o caráter moral é subjetivo; aquilo que para mim é uma banalidade para outro talvez não seja. Em sua matéria você faz a citação de uma frase do Millor, que hoje comunga dos ideais e das idéias de meios de comunicação como REDE GLOBO e REVISTA VEJA, que sinceramente são totalmente desprezíveis do ponto de vista jornalístico fazendo campanha contra tudo aquilo que tenha relação com o governo Lula. Cadê o idealismo do Millor, talvez esteja no extrato de sua conta bancária.
Deixem o Ziraldo e o Jaguar em paz, hoje são senhores que têm muito a nos ensinar, ou pelo menos para aqueles que querem aprender, haja vista que vivemos num país que não dá valor aos idosos e ao passado".
Att.
Ewerton
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