Geir Campos





Maciel de Aguiar


Ele foi um dos mais brilhantes poetas da Geração de 45. Manteve intensa atividade como escritor, jornalista, redator de programas da Rádio MEC, professor e tradutor, reconhecidamente um brilhante intelectual dos tempos modernos. Segundo a própria definição, só conseguiu reunir essas condições porque "havia se livrado das questiúnculas da província distante". Ainda jovem, foi viver no Rio de Janeiro, onde, publicou vários livros, foi aclamado pela crítica, ganhou inúmeros prêmios literários e construiu uma trajetória de sucesso na literatura brasileira.

Geir Nuffer Campos foi um prócer das letras, mas em compensação ficou inteiramente desconhecido em seu Estado natal — nasceu na cidade de São José do Calçado, Espírito Santo, a 28 de fevereiro de 1924, filho de Nair Nuffer e do dentista Getúlio Campos. E mesmo sendo referência nos meios acadêmicos e intelectuais na capital carioca, era preterido pelos conterrâneos, não propriamente os calçadenses, mas os literatos, críticos, professores e, sobretudo, o Departamento de Letras da Universidade Federal do Espírito Santo. Ali se fazia questão de o desconhecer.

Fez os primeiros estudos em Campos dos Goytacazes, no Norte fluminense. Depois, na cidade do Rio de Janeiro, foi "internado" do Colégio Pedro II, quando o famoso estabelecimento de ensino era um dos mais importantes do País e cumpria um relevante papel na formação educacional de jovens estudantes que demonstravam boa aptidão e sensibilidade. O tradicional educandário, além de um staff de notáveis professores, foi responsável por disseminar algumas dezenas de bons alunos que se converteram em profissionais qualificados. Era muito concorrido o ingresso em suas salas de aulas, em função do rigoroso exame de admissão.

Depois dos estudos básicos, cursou as faculdades de Direito e de Filosofia. E em seguida, ingressou na Escola de Marinha Mercante. Quando eclodiu a II Guerra Mundial, estava embarcado. Singrou os mares até o fim do conflito, que ceifou grande parte da humanidade mas formou sua compreensão da vida e, principalmente, dos problemas enfrentados pelos povos que se defrontaram. Conheceu outras culturas, hábitos e costumes, o que veio enriquecer sua extraordinária obra. Mais tarde, casou-se com Alcinda Lima Souto e tiveram dois filhos: Carlos Augusto e Mauro.

No Rio de Janeiro, que logo adotou como sua "terra do coração", publicou o primeiro livro, com grande sucesso: "Rosa dos rumos". Depois, se seguiram "Arquipélago", "Coroa de sonetos", "Da profissão do poeta", "Canto claro & poemas anteriores", "Operário do canto", "Canto provisório", "Cantigas de acordar mulher", "Canto ao homem da ONU", "A meus filhos", "Metanáutica", "Canto peixe & outros cantos", "Canto do Rio" e "Cantar de amigo ao outro homem da mulher amada", completando uma bibliografia de l950 a 1983, mantendo-se sempre como um dos escritores mais influentes de sua geração.

Geir Campos foi, ainda, considerado um dos melhores tradutores do alemão e do inglês para o português. Traduziu autores como Rilke, Kafka, Sófocles, Dickens, Hesse, Whitman, Brecht, Goethe e Shakespeare, além de inúmeros outros mestres da literatura universal. Lecionou "Introdução às Técnicas de Comunicação" na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro e foi, ainda, autor do "Pequeno Dicionário de Arte Poética". Produziu diversos artigos para jornais e revistas de circulação nacional. Lembrado algumas vezes, não chegou disputar vaga na Academia Brasileira de Letras.

Apesar de considerado uma referência na literatura brasileira e de fazer sucesso nos anos 50 e 60 — sobretudo nos grandes centros culturais, que o consagraram como um dos maiores poetas da Geração de 45, desfrutando de enorme prestígio intelectual e profissional —, o Estado do Espírito Santo não tomou conhecimento de sua existência. Jamais foi convidado para lançamentos, conferências, palestras ou outras manifestações artísticas concernentes às suas atividades, ou mesmo adotado pela Ufes nos exames de vestibular. Porém, dizia que "não aflorava mágoas".

É certo que Geir Campos não se importava com o descaso de seu Estado natal. Falava que havia "esquecido" a naturalidade e encontrado na Cidade Maravilhosa a "terra do coração", repetindo inúmeros outros artistas nascidos capixabas que foram buscar valorização e sobrevivência profissional além das fronteiras espírito-santenses. Realmente não ficou expressando descontentamentos, característico dos filhos da terra dos gatos selvagens, e preferiu se dedicar à literatura. Deixou ao longe as querelas provincianas e se tornou universal.

Certa feita, provavelmente tentando explicar sua posição, citou o crítico, professor, ensaísta, dramaturgo e poeta Osório Duque Estrada — célebre autor da letra do Hino Nacional Brasileiro —, que, após viagem ao Norte do País, registrou em livro suas impressões de cada Estado da Federação. Sobre o Espírito Santo, não poupou as evidências antropofágicas dos habitantes da "roça de milho" — definição de capixaba na língua nativa — e afirmou: "Não há literatos, nem cultores das artes". Desde aquela época, tal alegação passa quase incontestada, o que corrobora com a verdade.

Anos depois, o poeta cachoeirense, Antônio Belizário Vieira da Cunha, em 1915, na Revista Apollo, afirmou: "Entre todos os Estados do Brasil, o Espírito Santo é um dos únicos que tem passado em branco perante a nossa história intelectual, sem jamais demonstrar sua cultura em qualquer ramo das ciências ou das artes. Raras vezes o seu nome tem surdido e ocupado a atenção da alta imprensa do País. Também, é certo, não houve ainda quem se atrevesse a um estudo sério sobre as causas que conduzem o Estado a tão doloroso ostracismo espiritual".

Alguns anos antes do falecimento — ocorrido a 8 de maio de 1999 - surpreendido com a citação de seu nome e de outros escritores nascidos em terras capixabas, que também eram preteridos, preferiu não ferir suscetibilidades. Na ocasião, o Departamento de Letras da Ufes recorreu a eles como referência da literatura nacional para promover um desagravo aos livros escritos por seus protegidos — cuja repercussão e importância até os dias de hoje não consegue ir além da Ponte da Passagem. Depois, justificou porque dispensava o tardio reconhecimento:

- Há muito me livrei da mediocridade da província!