Vitória (ES), edição de fim de semana
 
'A mulher não foi educada para ter orgasmo'
Relaxar e gozar, uma questão de equilíbrio





José Rabelo


("A vida sexual transforma-se constantemente ao longo de toda a evolução individual, porém só desaparece com a morte". Mira y López)

Cercados de muitos mitos e tabus, a maioria dos casais ainda não conseguiu romper com o preconceito e levar para as quatro paredes as conversas sobre a sexualidade conjugal. Embora a sabedoria popular indique que o sexo é responsável por 50% de uma relação de sucesso, parece que na prática a importância dada ao assunto ainda não está na ordem do dia. Para surpresa das mulheres, são justamente os homens que procuram com mais freqüência ajuda para resolver os problemas relacionados às disfunções sexuais. Segundo a médica, sexóloga e terapeuta sexual Lorena Meneguelli Batista, as próprias mulheres têm preconceito. "Elas ficam admiradas quando sabem que os homens procuram esse tipo de tratamento. Os homens, além de procurarem ajuda com mais intensidade, também são muito rápidos às respostas do tratamento. A partir do momento que o homem sente a mínima dificuldade sexual, ele procura ajuda e cumpre com rigor todo o tratamento com o objetivo de superar rapidamente o problema". A médica esclarece, porém, que as mulheres estão, aos poucos, mudando essa tendência e se curvando à ajuda médica para reverter as estatísticas que as coloca em uma posição nada confortável quando o assunto é realização sexual.

Foto: Syã Fonseca
  
De acordo com estudos realizados pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo - Projeto Sexualidade -, 65% das mulheres se queixam de dificuldades para atingir o orgasmo. A anorgasmia (ausência de orgasmo) que nos tempos da vovó era encarada naturalmente pelas mulheres como uma condição pertinente a uma mulher considerada de família, as colocava na posição de servidoras incontestes dos desejos e caprichos masculinos. Essa situação, no entanto, vem mudando nas últimas décadas e a mulher moderna - que já conquistou espaço no mercado de trabalho, na política e nos mais diversos segmentos da sociedade - passou a exigir também seu direito de se realizar sexualmente. Um indicador dessa transformação pode ser constatado no aumento do número de mulheres que estão procurando a ajuda de especialistas para garantir também seu lugar ao sol.

Lorena Maneguelli explica que anteriormente cerca de 70% das mulheres que procuravam o consultório queriam resolver o problema da anorgasmia. Entretanto, ela afirma que essa demanda se reduziu e as mulheres passaram a procurar ajuda para reverter problemas relacionados à diminuição do desejo sexual. "A mulher está atrás de apetência sexual. Por exemplo, como há o Viagra e o Cialis para os problemas de disfunção erétil do homem, elas também querem saber se não há medicamentos equivalentes para a mulher. Essa nova demanda é crescente e tem se manifestado também em mulheres mais jovens. Isso indica que o desejo está interferindo nas relações sexuais das mulheres".

Nesta entrevista exclusiva a Século Diário, Lorena Meneguelli Batista, usando uma linguagem simples e direta, explica quais são os principais casos de disfunção sexual masculina e feminina. Fala sobre os desafios da mulher moderna, da mulher-multifunção, que está à busca de um ponto de equilíbrio para tentar reordenar as novas demandas do dia-a-dia que a dividem entre o papel de mãe e de fêmea.

Século Diário: - A mulher moderna hoje é caracterizada pelas multifunções que ela é obrigada a desenvolver no seu dia-a-dia (profissional, mãe, esposa etc). Como essa nova dinâmica tem se refletido no comportamento sexual da mulher?

Lorena Meneguelli Batista: - Anteriormente, cerca de 70% das mulheres que vinham ao meu consultório queriam resolver o problema da anorgasmia (falta de orgasmo). Hoje, essa demanda se reduziu e as mulheres passaram a procurar ajuda para reverter a diminuição do desejo, ou seja, a mulher está atrás de apetência sexual. Por exemplo, como há o Viagra e o Cialis para os problemas de disfunção erétil do homem, elas também querem saber se não há medicamentos equivalentes para a mulher. Essa nova demanda é crescente e tem se manifestado também em mulheres mais jovens. Isso indica que o desejo está interferindo nas relações sexuais das mulheres. O homem, mesmo assumindo multifunções, foi criado moralmente e culturalmente para separar as coisas e priorizar a relação sexual. A mulher, por sua vez, prioriza o filho, a profissão, a religião, e vai abrindo mão do tempo que seria reservado para sua vida conjugal afetiva.

- Uma pesquisa realizada pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo (Projeto Sexualidade) revelou que 65% das mulheres têm dificuldade para atingir o orgasmo e outras 66% alegam que sentem desconforto no momento da penetração. Problemas como esses são normalmente de ordem física ou psicológica?

- Pode ser tanto um problema orgânico quanto psicológico. Quando o problema é físico, é bem mais simples de ser resolvido. Na maioria das vezes esses problemas são psicológicos. Existem duas disfunções femininas que são consideradas as mais importantes: a dispauremia (dor genital recorrente ou persistente associada ao ato sexual, não devida a uma condição médica geral) e o vaginismo (contração, em espasmo, involuntária, recorrente ou persistente da musculatura do terço inferior da vagina que impossibilita a penetração). Para se ter uma idéia dos transtornos causados por esses problemas, existem casais que há mais de dez anos não conseguem realizar uma relação com penetração completa. O desconforto (disparemia), citado na pesquisa - que atinge cerca de 66% das mulheres - é causado por uma dor intensa no momento da penetração. Esse desconforto, como eu já disse, está geralmente relacionado a um bloqueio psicológico que impede a mulher de se entregar ao ato sexual.

Foto: Syã Fonseca
  
- A senhora disse que a demanda relacionada aos problemas de anorgasmia diminuiu um pouco, mas ainda é um número bastante relevante.

- A mulher não foi educada para ter orgasmo. Já o homem é estimulado o tempo todo para desenvolver a sua sexualidade. Durante a adolescência há uma preocupação da família em manter a privacidade sexual dos filhos homens. A menina, ao contrário, é reprimida o tempo todo. Alguns desses bloqueios vão se manifestar mais tarde na vida adulta.

- Ainda, segundo os dados levantados pelo Hospital das Clínicas de São Paulo, 35% das mulheres sentem desejo, mas não atingem o orgasmo; 25% não sentem desejo sexual; 35,5% têm outros problemas sexuais (aversão sexual, disparemia, vaginismo, homossexualismo não assumido etc.) que as impedem de sentir orgasmo; 50% das mulheres conseguem atingir o orgasmo com penetração, a outra metade apenas se houver estímulo direto no clitóris. Gostaria que a senhora comentasse esses dados.

- Esses dados estatísticos levantados pela doutora Carmita Abdo correspondem à realidade. As mulheres hoje estão muito mais preocupadas em buscar esse direito de sentir orgasmo. Antigamente, a mulher não dava importância à anorgasmia. Ela achava que sua função era servir o marido. A mulher foi educada para dar prazer ao outro, para se doar, para se entregar, para fazer pelo outro. Com o passar dos anos, a mulher foi se emancipando na carreira profissional, na participação social e política e também sexual. A mulher passou a buscar informação sobre educação sexual para entender melhor sua sexualidade. Nas gerações passadas, o orgasmo não era admitido para as mulheres de famílias consideradas sérias. O orgasmo era restrito às prostitutas. As mulheres de família, mesmo quando atingiam o orgasmo, não podiam manifestar seu sentimento.



- De acordo com as pesquisas, o homem sempre procurou mais a ajuda de sexólogos e terapeutas do que as mulheres. Em princípio, se imagina que o homem fosse mais resistente a esse tipo de tratamento, mas isso não é verdade...

- No meu consultório, por exemplo, eu atendo mais pacientes do sexo masculino. As próprias mulheres têm preconceito, elas ficam admiradas quando sabem que os homens procuram esse tipo de tratamento. Os homens, além de procurarem ajuda com mais intensidade, também são muito rápidos às respostas do tratamento. A partir do momento que o homem sente a mínima dificuldade sexual, ele procura ajuda e cumpre com rigor todo o tratamento com o objetivo de superar rapidamente o problema. O homem, até por uma questão cultural, valoriza muito a sua sexualidade.

Foto: Syã Fonseca
  
- Normalmente, as demandas trazidas pelos homens são de ordem psicológica ou física?

- O bom terapeuta deve fazer uma investigação profunda para avaliar cada um dos casos, antes de chegar ao diagnóstico sobre se o problema está relacionado a fatores físicos ou psicológicos. Por isso, muitas vezes, é importante que o terapeuta tenha também a formação em medicina, a fim de que ele possa aumentar seu escopo de investigação. Depois de descartados os problemas físicos, passamos então a investigar as causas psicológicas. Uma dificuldade de ereção, por exemplo, pode estar sendo causada pelo uso de um medicamento, um diabetes ou uma hipertensão arterial. Às vezes, a pessoa passou a usar um medicamento que nem se recorda mais. Entretanto, muitas vezes esse remédio está provocando a disfunção sexual. Nesse caso de disfunção sexual causada por medicamentos, suspendendo ou alterando o remédio, a pessoa volta à normalidade.

- Aproveitando que a senhora tocou no assunto dos medicamentos, quais são as drogas que podem causar diminuição da libido? Os médicos, na hora de fazer a prescrição, alertam os pacientes para esses possíveis efeitos colaterais?

- O mesmo medicamento não vai necessariamente causar disfunção para todas as pessoas. Cada organismo pode reagir de maneira distinta ao medicamento. Alertar o paciente sobre o risco de a droga gerar disfunção sexual pode ser pior. Isso pode fazer com que o paciente desista de tomar a medicação para garantir seu desempenho sexual. Por exemplo, uma pessoa que está com a pressão arterial muito alta precisa priorizar o tratamento para controlar a hipertensão e evitar um enfarte. Depois de controlada a pressão, o médico vai então avaliar a possibilidade de se alterar o medicamento para resolver o problema da disfunção sexual, que passa a ser secundário neste momento. Se os pacientes tivessem cultura para entender isso, o certo seria informá-los no momento da prescrição. Entretanto, nossa cultura valoriza muito o sexo, e a informação, como eu disse, poderia ter um efeito negativo no tratamento que está sendo priorizado.

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