Vitória (ES), edição de 12 de fevereiro de 2008    
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É tudo verdade?



Henrique Alves



  
Foto: Divulgação
  

Assistir ao novo documentário de Eduardo Coutinho é sair do cinema com uma pulga atrás da orelha. Em cartaz desde a última sexta-feira (9) no Cine Metropolis, Ufes, Jogo de Cena tem angariado críticas e comentários entusiasmadíssimos, pois, mais uma vez, Coutinho (se) inova: consciente e sistematicamente, ele embaralha realidade e ficção; e faz de Jogo de Cena um grandioso baile de máscaras.

Eduardo Coutinho é um realizador inquieto, isto é facilmente perceptível em sua trajetória documental. E isto é ainda mais evidente em seu documentário anterior, O Fim e o Princípio (2005). De supetão, digamos assim, Coutinho e sua trupe desembarcam no sertão da Paraíba em busca de pessoas e histórias. Não há um levantamento prévio nem temas pré-definidos.

Jogo de Cena é outro passo novo, e mais destemido, em sua carreira. Verdade, ficção e interpretação estão sob ininterrupto questionamento. O consciente e sistemático questionamento do próprio diretor, como dissemos lá em cima, e o do espectador, que, sem querer, entra no jogo (o trocadilho foi inevitável).

Finalmente, vamos ao filme. A assistente de direção do filme, Cristiana Grumbach, entrevistou 83 mulheres entre muitas que atenderam a um anúncio de jornal que chamava mulheres para a participação de um documentário. Num segundo momento, 23 delas foram filmadas num teatro. Até aí, tudo bem.

  
Foto: Divulgação
  
Mas, agora, o filme é ardiloso. No mesmo teatro vazio, àquelas mulheres comuns são misturadas atrizes desconhecidas e atrizes tarimbadas e conhecidas do público - Marília Pêra, Fernanda Torres e Andréa Beltrão - que interpretam, cada uma a sua maneira, as histórias já narradas. Nesse momento, o aturdido espectador entra numa pueril brincadeira de verdade/mentira: quem afinal fala a verdade? Que é a atriz? Quem não é? E por aí vai. Jogo de Cena flexibiliza as fronteiras entre realidade e ficção. É claro que de pueril essa brincadeira não tem nada.

Mais algumas coisas valem alguns pitacos. O único homem do filme é o diretor. Os outros são filhos, maridos, namorados das histórias das mulheres; e estas, as histórias, são fruto de experiências muito fortes, relacionadas à morte e a relações familiares, predominantemente. Outra coisa que vale ressaltar é o cenário, que, significativamente, é um teatro. As cidadãs chegam, acomodam-se numa cadeira sobre o palco, e, de costas para as poltronas vazias, entregam-se ao jogo de Coutinho. E Jogo de Cena, como todo bom jogo, diverte e faz pensar.

Serviço
Jogo de Cena (Idem, Brasil, 2007, 105 minutos, Livre) está em cartaz no Cine Metropolis. Av. Fernando Ferrari, 514, campus de Goiabeiras, Ufes. 15h20 e 19h.


 

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