Vitória (ES), edição de 20 de fevereiro de 2008
 
Trabalhador denuncia Aracruz
Celulose por discriminação racial

Ubervalter Coimbra


A Aracruz Celulose foi denunciada na Justiça do Trabalho pelo crime de discriminação racial, entre outros. A denúncia é do funcionário Clausner Silva dos Santos, dirigente sindical, negro, que trabalha na empresa desde 1996. Nesta quarta-feira (20) houve audiência de instrução do processo, em Aracruz, norte do Estado. O movimento negro não pôde acompanhar a audiência.

Os representantes de diversas entidades negras ficaram revoltados em não poder acompanhar a audiência. Segundo Isaías Santana da Rocha, presidente do Conselho Estadual dos Direitos Humanos (CEDH) e coordenador do Fórum Estadual de Entidades Negras, processos sobre discriminação racial são, em princípio, públicos.

Destacou que discorda da decisão do juiz em decretar segredo de Justiça no processo, a pedido da Aracruz Celulose. E informou que os movimentos negros se mobilizarão para participar da audiência de julgamento, marcada para o dia 2 de abril próximo, às 10h.

Segundo Clausner Silva dos Santos, desde que entrou nos quadros funcionais da Aracruz Celulose, em 1996, ele só não foi vítima de discriminação quando trabalhou em São Mateus e na Bahia, por cerca de sete meses. Sua função é de controlador de transporte.

No processo, o trabalhador da Aracruz Celulose afirma que foi vítima de perseguição, assédio moral, discriminação e racismo. Informa que recebia tratamento diferenciado em relação a seus colegas da mesma função. Se saia até o pátio, era observado. Diz que tinha de relatar o que ia fazer, por onde havia andado. É que, como dirigente sindical, observava as condições de segurança do pátio, entre outras coisas, e cobrava providências.

Em relação ao assédio moral, Clausner Silva dos Santos relata que ocorreu, por exemplo, quando o gerente da área impediu seu acesso às informações da empresa, medida tomada durante suas férias. Quando voltou ao trabalho, não tinha como exercer corretamente suas atividades por falta de acesso a estas informações, essenciais ao trabalho.

A discriminação racial era praticada com a conivência da empresa. Relata o funcionário que um colega se referia a ele como “negro sujo” ao falar dele e do seu trabalho. Quando teve de se afastar, para fazer quatro cirurgias no joelho, o colega o substituía e se queixava desta substituição a seus superiores, na presença de outros funcionários, e dizia que o afastamento do trabalho “era coisa de negro sujo”.

As agressões, diz Clausner Silva dos Santos, foram relatadas oralmente à empresa, em 2003. No ano seguinte, por escrito e com testemunhas, à Aracruz Celulose o funcionário relatou a discriminação racial. A Aracruz Celulose se calou.

Agora responde ao processo na Justiça do Trabalho. Clausner Silva dos Santos diz que só continua funcionário da Aracruz Celulose por ter estabilidade no trabalho, pois atuou como cipeiro e agora é diretor suplente do Sindicato dos Empregados na Indústria de Celulose, o Sinticel.

Clausner Silva dos Santos requereu à Justiça do Trabalho que a Aracruz Celulose lhe pague indenização pelas agressões que sofreu. A indenização deve ser de aproximadamente R$ 300 mil.



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