Vitória (ES), edição de fim de semana
 
‘Não é coisa de maluco dizer que o índio
virou branco ou que o branco virou índio’

O humano, demasiado humano





José Rabelo


("Se se ganha dinheiro, o cinema é uma indústria. Se se perde, é uma Arte." Millôr Fernandes)

“Continuo fechado com minhas posições de um cinema terceiro-mundista. Um cinema independente do ponto-de-vista econômico e artístico, que não deixe a criatividade estética desaparecer em nome de uma objetividade comercial e de um imediatismo político”. Embora na entrevista com o cineasta Andrea Tonacci o nome de Glauber Rocha não tenha sido mencionado, acho que essa frase de Glauber reflete um pouco da visão de Tonacci sobre o cinema. Incluído no chamado “Cinema Marginal”, que traz outros diretores consagrados como Rogério Sganzerla (O bandido da luz vermelha, A mulher de todos), Julio Bressane (Matou a família e foi ao cinema, O anjo nasceu), João Silvério Trevisan (Orgia ou O homem que deu cria) e Ozualdo Candeias (A margem, A herança) entre outros, Andrea Tonacci faz parte daquele grupo de diretores que coloca a arte acima de qualquer interesse financeiro ou político. Com extremo senso ético, o diretor de ‘Bang Bang’ – considerado pela crítica um dos 30 melhores filmes brasileiros, mas praticamente inédito para o grande público -, explica nesta entrevista exclusiva a Século Diário o processo de criação de ‘Serras da Desordem’, que em 2006 arrebatou os prêmios de melhor filme, direção e fotografia em Gramado.

Com um orçamento considerado relativamente baixo para os padrões atuais do cinema brasileiro (R$ 1 milhão), o diretor de ‘Serras’ inovou ao convidar os próprios personagens da história real para fazer o filme. Mesclando preto e branco e colorido, 35mm e digital, ficção e documentário, Tonacci reserva os primeiros quinze minutos do filme para exibir o cotidiano da aldeia de Carapirú. A relação com o universo indígena, iniciada há mais de 30 anos, permite ao diretor usar de todo sua sensibilidade para que Carapirú seja o o protagonista de sua própria história.

A exemplo de ‘Bang Bang’, ‘Serras’, apesar dos prêmios, continua a ser um ilustre desconhecido do público brasileiro. A oportunidade de assisti-lo está restrita a eventos como a “3ª Mostra Verão de Cinema em Vila Velha”, que acontece neste sábado (23), às 19h50, na Tenda da Cultura, na Praia de Itaparica. A exibição do filme, que contará com a presença do seu realizador, Andrea Tonacci, encerra a mostra.

- Século Diário: Muito antes de filmar “Serras da Desordem” o senhor já se interessava pela questão indígena. Quando exatamente surgiu essa aproximação com os índios?

Foto: Syã Fonseca
  
- Andrea Tonacci: Essa pergunta me faz pensar de alguma maneira nova pela primeira vez sobre o assunto. Menino ainda, com mais ou menos nove anos, cheguei ao Brasil sem saber a língua e enfrentando uma série de dificuldades de adaptação. A família havia ficado para trás, só sobraram meus pais e uma irmã mais nova. Nasci no finzinho da Segunda Guerra Mundial, em 1944, na Itália, pouco antes do Armistício. Isso me fez lembrar um pouco da infância de Andrea, em um momento bastante particular, introspectivo. No Brasil, tudo era novo, tudo era descoberta. Minha família sempre manteve, no Brasil, relações com a colônia italiana e Andrea sempre foi um menino que freqüentou fazendas, esses ambientes me permitiram a começar a conhecer o que é o Brasil. Minha família também foi muito ausente durante a minha infância. Fui criado, quase sempre, fora das minhas relações familiares. Desde a infância, a curiosidade sempre foi para mim uma coisa muito forte. Eu gostava de desmontar coisas para entender o funcionamento, desenhar...Você estava me fazendo lembrar de coisas que há muito tempo eu não pensava, coisas de criança mesmo. Era como se esse outro, esse desconhecido que sou eu mesmo, o caminho de conhecimento para esse outro, Andrea, fosse capaz de me jogar um pouco mais no mundo. Porque eu não tinha muita troca de conversa em casa. Essa época também não existia essa história de terapia – coisas da modernidade Crescendo, passei a me dedicar à questão mais artística, já gostava de escrever, de ler, até taxidermia eu fazia para entender como era feito um bichinho que estava morto, tinha curiosidade de ver como era por dentro e por ai vai...Acho que isso tudo era uma busca frenética por conhecimento.

- E a história com os índios...

- Vamos dar um salto desse período gráfico em que começo a pintar, fazer desenhos e em seguida parto para a fotografia. A fotografia para mim é um momento mágico, porque, se no desenho, no traçado, era uma construção que tinha que ser feita à mão de forma progressiva, na fotografia era algo que tinha de ser construído subjetivamente para que, num determinado momento, eu pudesse perceber no instante exato de conseguir o resultado esperado com a fotografia. Esse já é um período de universidade, que marca meu encontro com Rogério Sganzerla. Passamos a ter uma convivência muito próxima. Logo em seguida, passamos a trabalhar nos curtas ‘Olho por Olho’ (1966) e no ‘Documentário’. Essa história do olhar passou a ficar tão presente que eu imaginava, na ingenuidade dos meus vinte e poucos anos, que o olhar do outro em uma cultura que nunca tivesse gerado tecnologia, como é caso da cultura indígena, pudesse me revelar algo dessa identidade, desse espelho. Depois de ter feito ‘Bang Bang’ (1973) e ‘Blá Blá Blá’ (1975), fui convidado pela Ruth Escobar para fazer um trabalho sobre os bastidores do teatro (‘Interprete mais, pague mais’, 1975). O filme abordava as relações humanas dentro do teatro, que é justamente a história desse outro do teatro que vai representar um personagem. Ali já havia um conceito de ficção dessa realidade, porque a realidade é uma coisa maleável. Falei de tudo isso para te mostrar como nasce esse interesse pelo o olhar do outro. Ao mesmo tempo em que aparece o vídeo portátil, amigos me convidam para fazer um documentário em uma aldeia Canela, no Maranhão, que tratava sobre uma questão de demarcação de terras. Aceitei o convite. Nesse trabalho, eu passo a perceber que esse olhar do outro não é diferente do nosso. Porque, se você botar a câmera na mão de uma pessoa e ensiná-la a operar vai perceber que ela vai fazer exatamente a mesma coisa que fazemos, porque a máquina é feita para este fim, ela determina. Ao mesmo tempo, percebi que a tecnologia poderia ser usada como um instrumento de liberação do olhar do outro. No caso do filme, permitia que os índios expressassem seus direitos sobre a terra através da câmera. Assim começou minha história com os índios, misturando um pouco minha subjetividade com a necessidade que tive de sair de São Paulo por questões políticas. Havia acabado de fazer ‘Blá Blá Blá’ e a repercussão com a censura me obrigou a ficar afastado de São Paulo por um tempo.

- Como foi essa primeira experiência com os índios?

Foto: Syã Fonseca
  
- Esse projeto era muito a serviço do outro, no sentido de expressar o que os índios queriam dizer para alguém utilizando o recurso da câmera. Fizemos então o documentário ‘Conversas do Maranhão’ (1979) com o intuito de exibi-lo a pessoas que tivessem alguma interferência na questão administrativa e política indígena. Queríamos mostrá-lo para políticos, antropólogos, pessoas da igreja etc.

- O documentário fazia uma denúncia da situação ilegal imposta aos índios?

- O documentário não é bem uma denúncia. Ele apenas mostra uma situação. Se há uma denúncia ela é feita pelos índios. Porque ele não é narrado por ninguém. A contradição é patente e sua visibilidade é expressa sem panfletária. E isso que eu gostaria que ficasse claro. Porque isso passa pelo respeito ao olhar do outro. Eu não tenho que dizer como ele tem de olhar. A idéia é: diga-me, vou tentar te entender. A intencionalidade política era do nosso grupo. Queríamos exibir o documentário para que as pessoas soubessem, na palavra dos índios, o que estava acontecendo. A partir dessa experiência, passei a trabalhar nesse sentido. Desfeita a ilusão de que o olhar do outro era diferente, como observação sobre o mundo, que um instrumento determina a forma praticamente do que vai ser feito, embora isso seja defendido pelos estudiosos de lingüística há muito tempo, eu vou chegando nas coisas por um outro caminho, revelando, descobrindo, em um processo de aprendizado. Comecei a me relacionar com os índios humanamente e, conseqüentemente, passei a fazer amigos.

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