O empresário e ex-PM Sebastião Pagoto (foto) é uma pessoa perigosa e temida no meio empresarial. O relato foi feito por testemunhas da ação judicial movida pela deputada estadual Aparecida Denadai (PDT) após receber um telefonema com ameaças depois de fazer denúncias contra Pagoto. O perfil de um Pagoto perigoso e ameaçador foi feito durante a audiência de instrução do julgamento da ação de Aparecida, realizada nessa terça-feira (26). De acordo com ela, o medo do empresário-bandido é tão grande que outros empresários evitam disputar licitações quando uma das empresas dele está na disputa. O temor se justifica pela quantidade de processos a que o empresário responde. Em um deles Pagoto é apontado pela Polícia Federal como mandante do assassinato do irmão de Aparecida, o advogado Marcelo Denadai, morto após denunciar um esquema de corrupção envolvendo uma empresa do policial-empresário na prefeitura de Vitória.
A audiência foi longa. Iniciada por volta de 13h30, só se encerrou às 18h, e o clima era de permanente tensão. Durante a audiência, Aparecida ficou cara a cara com o mandante do assassinato de seu irmão. Segundo a deputada, as testemunhas do caso reafirmaram o temor que todos têm de Pagoto, um indivíduo capaz de influenciar na disputa de contratos com o poder público.
"Temos a exata noção do potencial de perigo que o Pagoto representa. Eu e minha família já sentimos na pele o medo dessa situação", relatou Aparecida. De acordo com a deputada, que ouviu atentamente os relatos das testemunha do caso, esse medo envolve a todos os incluídos no processo, um claro exemplo de que empresários deixam de participar de licitações em função da presença de empresas de Pagoto nos certames.
Uma testemunha que tem filhos atuando como empresários revelou ter-lhes recomendado não participar de nenhum certame em que as empresas de Pagoto participam. A testemunha revela que tem medo que seus filhos possam sofrer represálias, em caso de a empresa do ex-PM sair perdedora. Por conta disso, Pagoto projeta no meios empresariais a figura de uma pessoa temida, tanto em questões pessoais, e mais ainda nas questões empresariais.
O envolvimento de Pagoto neste caso tem relação com o autor das ameaças. De acordo com as investigações policiais, as ameaças que motivaram essa ação partiram de um "compadre" de Pagoto, o diretor das categorias de base do Vitória Futebol Clube e ex-presidente da Comissão Licitatória de Cariacica, José Nicodemos Venturini.
O caso, marcado por coincidências, iniciou-se um dia após a deputada Aparecida criticar, em pronunciamento na tribuna da Assembléia, a manutenção de contratos de limpeza de galerias de esgoto em poder da empresa de Pagoto com o Executivo de Vitória. Através de seu telefone celular particular, no momento em posse de uma assessora, uma voz lançava ameaças contra a parlamentar e as suas duas filhas.
Após a quebra do sigilo telefônico, ficou apurado que a linha de onde partiram as ameaças pertencia à Casa das Bombas, situada na avenida Leitão da Silva, em Itararé.
Curiosamente, a loja comercializa bombas para limpeza de galerias de esgoto, como as utilizadas pela Hidrobrasil (empresa de Pagoto) para a realização de seus serviços, mas o celular havia sido emprestado para o dirigente do Vitória Futebol Clube Paulo César Braga, que declarou ser o número utilizado não só por ele, mas por jogadores e membros do clube.
Nos depoimentos, uma terceira pessoa foi incluída no caso. José Nicodemos Venturini, diretor e ex-vice-presidente do Vitória Futebol Clube, com histórico vinculado a licitações públicas e relacionamento íntimo com Pagoto, que é tratado como 'cumpadre' - sem mesmo de fato sê-lo.
Venturini admitiu que fez o telefonema apenas para amedrontar a parlamentar em virtude das críticas à Hidrobrasil - empresa de seu 'cumpadre' - e que não tinha intenção de matá-la. Apesar disso, os dois foram indiciados pelo crime de ameaça, cuja pena varia de um a seis meses de prisão, ou multa.
Um assassinato
O advogado Joaquim Marcelo Denadai foi liqüidado a tiros no dia 15 de abril de 2002, um dia antes de encaminhar à Justiça uma queixa crime em que, segundo o coordenador do Grupo de Repressão ao Crime Organizado (GRCO), do Ministério Público Estadual (MPE), promotor Fábio Vello, citava o envolvimento de 12 empresas, algumas administradas por laranjas, em fraudes em licitações, concorrências e serviços públicos nas 78 prefeituras existentes no Espírito Santo e outras no Rio de Janeiro.
Entre os crimes que ainda estão sendo investigados após a morte de Denadai constam falsidade ideológica, falsidade material, lavagem de dinheiro, agiotagem, formação de quadrilha, fraude em licitações e fraude fiscal. Parte deste material fazia parte da notícia crime que teria sido uma das causas do assassinato do advogado. Mas o grosso da história se referia a fraudes envolvendo a prefeitura de Vitória e as negociações com o ex-militar e empresário Sebastião Pagoto, que mantinha contratos com as prefeituras de Vitória e Cariacica, entre outras.
Denadai foi morto porque, com base em documentos do Tribunal de Contas do Estado e outros, anexados a um processo judicial, descobriu que o empresário Pagoto era um dos mais importantes elementos do crime organizado no Estado, falsificando documentos e fraudando concorrências e contratos em prefeituras e órgãos estaduais.
Descobriu toda a fraude envolvendo a prefeitura de Vitória e um contrato superior a R$ 10 milhões. E forneceu ao irmão, vereador Antônio Denadai, os elementos para que a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), conhecida como CPI da Lama, descobrisse toda a trama envolvendo Pagoto e a prefeitura de Vitória, então sob o comando do PSDB (primeiro com Paulo Hartung e depois com Luiz Paulo Vellozo Lucas).
Livre, leve e solto
Passados mais de cinco anos do assassinato do advogado Joaquim Marcelo Denadai, o acusado de ser o mandante do crime, o empresário Sebastião Pagoto, continua em liberdade. Usando laranjas, ele mudou a razão social de sua empresa e conseguiu recuperar um contrato de R$ 3,1 milhões com a Cesan. Pagoto é suspeito do assassinato de seis testemunhas do Caso Denadai.
Acusado de fraudes em licitações em diversas prefeituras, ele se especializou em manobras empresariais e ampliou a área de ação de seus negócios, retirando-se da Líder Saneamento e Serviços Ltda. para constituir a Forte Ambiental Ltda. Colocou à frente da empresa dois laranjas, Bruno Christo e Lucíla Scandian Frigi Pagoto. Inclusive a manobra foi oficializada no Diário Oficial, onde surge um termo aditivo de contrato no qual a nova empresa de Pagoto passa a ser sucessora da Life Serviços Ambientais Ltda.
O raio de ação da nova empresa vai desde serviços de hidrojateamento em indústrias com atividades de mineração, papel e celulose, petroquímicos e siderúrgicos, em aciarias, alto forno, fornos petroquímicos, trocadores de calor, torres, tubos, coleta e transporte rodoviário em geral, de lixo e resíduos de galerias e rede de águas pluviais e esgotos industriais, domiciliares e hospitalares.
Para efeito de público externo, Sebastião Pagoto e Lucila Scandian Frigi Pagoto afastaram-se do ramo empresarial, já que deixaram a Líder Saneamento e Serviços Ltda., onde eram os dois únicos sócios. Transferiram suas quotas acionárias para Bruno Christo e Lucila Frigi Pagoto, respectivamente com 90% e 10% do capital social da Forte Ambiental Ltda.
Após essas manobras, o empresário pediu à Cesan para restabelecer o prazo contratual que tem em quatro meses, já que, com as medidas adotadas, considera equacionados os motivos que levaram à suspensão temporária do contrato, no valor de R$ 3,1 milhões.
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