("Desculpem, eu estava sonhando quando escrevi esses acontecimentos, que eu mesmo não verei, mas tenho o prazer de ter sonhado." Chico Mendes)
A presença das mulheres nos diversos setores da sociedade tem se tornado algo cada vez mais corriqueiro nesta primeira década do século 21 em quase todas as partes do mundo. Exemplo recente foi dado por nossos vizinhos argentinos, que elegeram em dezembro Cristina Kirchner para ocupar o cargo mais alto da Casa Rosada, com larga vantagem sobre seus concorrentes. Nos Estados Unidos, Hillary Clinton está na corrida eleitoral cabeça a cabeça com Barak Obama para tentar se sagrar a primeira presidente da maior potência econômica do planeta. Para além das sucessões presidenciais, o poderio feminino já começa a soprar com força também no Brasil, mais precisamente em terras Tupinikim. No dia 31 de dezembro de 2007, Edinéia Pinto Joaquim foi nomeada a primeira cacique do Espírito Santo. Agora, as 113 famílias da aldeia Irajá (a 8 km de Caieiras Velha, Aracruz, norte do Estado) estão sob o comando de uma mulher.
No Brasil, do que se tem notícia, Creuza Assoripa Umutina, de Mato Grosso, foi a primeira mulher a ocupar o posto de cacique de uma tribo. Creuza alcançou o cargo mais alto da tribo após sagrar-se a melhor atiradora, acertando três vezes consecutivas um mesmo alvo.
A cacique capixaba não precisou mostrar habilidade com o arco e flecha para conquistar a comunidade. Logo na nossa chegada à aldeia, encontramos os primeiros sinais de que a nomeação de Edinéia já havia sido bem assimilada e aprovada pela comunidade. Perguntamos a um senhor como fazíamos para encontrar a cacique Edinéia. Prontamente ele respondeu: “É só seguir essa rua que o escritório dela fica logo ali na frente”. Seguimos. O escritório, que funciona como uma espécie de gabinete da cacique, é uma pequena sala de cerca de 10 metros quadrados. Na parede, fotos de índios importantes e ex-caciques. Aguardamos que a cacique acabasse de atender um cidadão para iniciarmos a entrevista. Afinal, como explicou depois, “a prioridade é da comunidade”.
O escritório é bastante movimentado. Durante nossa conversa o entra e sai foi grande, alguns por curiosidade, outros interessados em acompanhar a primeira entrevista da cacique Edinéia à imprensa. Alguns conselheiros, crianças e pessoas da comunidade ouviram atentos a entrevista. Carlos, o vice de Edinéia, pediu um aparte para dizer que estava contente em poder ajudar a cacique, que ele já conhecia de outros trabalhos com a comunidade. “Esse negócio de ser mulher não tem nada a ver. O importante é a vontade de trabalhar, e isso ela tem de sobra”.
Filha do cacique Benedito Tupinikim – um dos pioneiros na formação de Caieiras Velha e fundador da aldeia de Irajá –, Edinéia conta que desde os 10 anos costumava acompanhar o pai nos assuntos da aldeia. “As pessoas procuravam meu pai para ajudar a resolver os problemas da comunidade e eu ficava prestando atenção nessas conversas. Às vezes apareciam repórteres ou professores para conversar com meu pai e eu ficava o tempo todo escutando. Foi por isso que acabei me envolvendo e me interessando nos assuntos de papai”.
Aos 45 anos, casada e mãe de três filhos, a nova cacique garante que está preparada para encarar os desafios do cargo. Ela diz que o ímpeto de mudança está no sangue de sua família. Edinéia acredita que só foi escolhida para cacique porque nesses mais de 30 anos que trabalha com a comunidade tem demonstrado que possui iniciativa, coragem e determinação para defender os interesses da aldeia. “Para mim é um orgulho muito grande ter recebido essa responsabilidade. Eu estou muito feliz e com bastante coragem para enfrentar os problemas. O apoio da comunidade me deixou mais fortalecida para continuar a luta. Isso é muito importante, porque não dá para fazer nada sozinha. Fiquei muito feliz em saber que a comunidade quer que eu fique aqui por muitos anos”.
A cacique mal assumiu o cargo e logo de cara tem um grande problema para resolver junto com os caciques das outras seis comunidades Tupinikim e Guarani. Bastante irritada, a cacique diz que até agora a Aracruz Celulose ainda não depositou a primeira parcela do dinheiro, conforme ficou acordado no TAC (Termo de Ajustamento de Conduta), que deveria ter sido feita no dia 14 de dezembro do ano passado. Sempre falando num tom sereno durante toda a entrevista, a cacique se expressou de forma mais contundente para dar um recado: “Enquanto a Funai não resolver o problema do dinheiro a Aracruz não vai entrar aqui para pegar um único pau de eucalipto. Nós estamos contando com esse dinheiro para começar a desenvolver os projetos. Nosso prazo termina na sexta-feira (11)”.
Século Diário: - Como é o processo de escolha do cacique?
Foto: Syã Fonseca
|
|
|
|
Edinéia Pinto Joaquim: - Chegar a cacique dentro de uma aldeia não é uma coisa que acontece por acaso. Para chegar até aqui foi preciso realizar antes um longo trabalho. A pessoa tem de ter liderança e estar envolvida com os trabalhos e discussões da comunidade. Eu já tinha um histórico na família que também me ajudou bastante. Meu pai (Benedito Tupinikim) foi o primeiro cacique da aldeia Irajá. Foi ele quem fundou essa aldeia e também a de Caieiras. Alguns dos meus irmãos também já foram caciques.
- Quando a senhora começou a se interessar pelos problemas da aldeia?
- Desde pequena, quando eu tinha uns 10 anos, já acompanhava meu pai em quase tudo. As pessoas procuravam meu pai para ajudar a resolver os problemas da comunidade e eu ficava prestando atenção nessas conversas. Aquele tempo não tinha esse mundo de gente que tem hoje na aldeia. Às vezes apareciam repórteres ou professores para conversar com meu pai e eu ficava o tempo todo escutando. Foi por isso que acabei me envolvendo e me interessando nos assuntos de papai. Nessa época nós ainda morávamos em Caieiras. Mais tarde, já adulta, me casei com um índio, mas o casamento não impediu que eu continuasse meu trabalho. Tanto é que logo depois fui convidada para fazer parte do conselho. Fiquei nessa função de conselheira por muitos anos. Nesse tempo, nós tivemos dois caciques. O terceiro, o cacique Jonas, saiu agora porque disse que já estava cansado. E eu entrei no lugar dele.
- E como foi a sua escolha?
- Dez índios, cinco homens e cinco mulheres fazem parte do conselho. São eles que escolhem o cacique. Cada cacique tem um mandato de dois anos. Depois de dois anos, a comunidade faz uma avaliação para decidir se o cacique permanece por mais dois anos ou sai. Se eu fizer um bom trabalho eu continuo, senão eles têm o direito de me tirar. Tudo depende da palavra final da comunidade. O conselho me escolheu, mas a minha indicação teve que ser aprovada pela comunidade. A decisão final é sempre da comunidade.
- A senhora concorreu com outras pessoas?
- Tinha outros índios que também queriam ser cacique, mas a maioria acabou me escolhendo. Eu já era vice do cacique Jonas. Acho que isso também contou na hora da escolha. É a primeira vez que uma aldeia aqui do Espírito Santo escolhe uma mulher para cacique. Para mim é um orgulho muito grande ter recebido essa responsabilidade. Eu estou muito feliz e com bastante coragem para enfrentar os problemas. O apoio da comunidade me deixou mais fortalecida para continuar a luta. Isso é muito importante, porque não dá para fazer nada sozinha. Fiquei muito feliz em saber que a comunidade quer que eu fique aqui por muitos anos.
Foto: Syã Fonseca
|
|
|
|
- A comunidade aceitou bem a sua indicação mesmo pelo fato de a senhora ser mulher e isso ser uma novidade?
- Eu penso que sim. A comunidade já me conhece. Já faz mais de 30 anos que eu trabalho com a comunidade. Mesmo o pessoal da comissão de Caieiras também achou bom trabalhar com uma mulher. As coisas precisam mudar. Não interessa se é homem ou mulher. O importante é ter vontade para trabalhar.
- Como é vista a cacique Edinéia pela comunidade e pelas outras aldeias?
- Eu sempre lutei para conseguir as coisas. Quando eu sei que as coisas são nossas por direito, eu vou lá e cobro. Comigo não tem esse negócio de ficar parada esperando as coisas acontecerem. As pessoas me apoiaram porque sabem que eu corro atrás. Senão elas não tinham me escolhido.