Vitória (ES), edição de fim de semana
 
‘O apoio da comunidade me deixou
mais fortalecida para continuar a luta’

Com o ímpeto da
mudança no sangue





José Rabelo


- E quais são os projetos prioritários?

- Nós ainda vamos nos reunir para discutir esses projetos. Por exemplo, um dos projetos que nós temos aqui na Irajá é o de criação de peixes. Mas ainda precisamos discutir melhor cada um dos projetos. As sete comunidades (Irajá, Caieiras Velha, Três Palmeiras, Piraquê-Açú, Boa Esperança, Pau Brasil e Comboios) estão unidas para pensar o que será melhor para todos. Até agora, entre nós, as coisas estão correndo de maneira tranqüila. A única coisa que está nos chateando é essa falta de compromisso da Aracruz, que até hoje não fez o pagamento.

Foto: Syã Fonseca
  
- Quais são as principais demandas da comunidade de Irajá atualmente?

- A gente tem dois problemas sérios em Irajá, que é saúde e educação. A comunidade quer um posto de saúde e uma escola aqui na aldeia. Hoje, quando precisamos de atendimento médico temos que ir até Caieiras Velha. Nossa comunidade cresceu muito. Hoje são 113 famílias (cerca de 400 pessoas). Os prefeitos prometem, a Funasa promete, mas ninguém faz nada. A escola é a mesma coisa. Nós construímos umas salas de aula improvisadas, mas queremos uma escola de verdade. Atualmente a prefeitura de Aracruz paga somente os salários dos professores que são da própria comunidade. Nós queremos um lugar decente para nossas crianças estudarem. Precisa também fazer um curso de alfabetização de adultos. Tem muito índio que não sabe ler e escrever. Acho que mais de 30% dos índios são analfabetos. Uma outra reivindicação da comunidade é a criação de uma associação própria. Hoje nós participamos de todas as atividades na associação de Caieiras Velha, mas queremos ter a nossa própria associação para desenvolvermos nossos projetos.

- Atualmente a aldeia possui projetos de geração de renda?

- Alguns vivem de artesanato, outros trabalham em empresas fora da aldeia. Mas a maioria, que gostaria de trabalhar na roça, não tem incentivo. Minha idéia é justamente organizar grupos de trabalho de casados e de jovens para desenvolver a agricultura na aldeia. Nós temos uma dificuldade, porque nem tudo pode ser produzido nessa terra. Temos que trabalhar com os produtos que dão certo. Por exemplo, um dos meus planos é fazer um projeto de plantação de feijão, milho, goiaba e cana. Um dos meus sonhos também é fazer um projeto para recuperação de mata nativa. Eu queria separar um pedaço desses 11 mil hectares para isso. Assim a gente ajuda os bichos para que eles tenham um lugar para ficar.

- Por que os grupos de trabalho têm de ser separados entre jovens e casados?

- Porque junto não dá certo. Eles não aceitam. Você tem de deixar os solteiros de um lado e os casados de outro. Cada um na sua terra.

- Na entrada da aldeia eu percebi que havia uma placa da igreja Assembléia de Deus. Como é tratada essa questão religiosa dentro da aldeia?

- Isso acontece também nas outras aldeias. As pessoas têm liberdade de seguir a religião que elas quiserem. Nós temos a igreja católica e duas evangélicas: a Assembléia e a Deus é Amor. A pessoa escolhe. Eu mesma sou da Assembléia.

- Os pastores são da aldeia?

- Não, eles vêm da cidade.

- A senhora disse que já trabalha há mais de 30 anos com a comunidade. Nesse período, quais foram os trabalhos mais importantes que a senhora realizou?

- Acho que nenhuma vitória foi mais importante para todos nós do que a retomada das nossas terras. Todos trabalharam unidos para essa conquista. Ainda não foi do jeito que queríamos, mas a terra nós já conseguimos. Eu estou nessa luta desde o começo.

- O Termo de Ajustamento de Conduta, assinado recentemente, foi considerado satisfatório para vocês?

- Olha, na minha opinião não foi um bom acordo. Acho que tinha muita coisa naquele documento que poderia ter sido mudada. Por exemplo, embora nossa luta principal seja pela terra, a madeira (eucalipto) deveria ficar para nós. Era o mínimo. Quem vai pagar os prejuízos que a Aracruz deixou para trás?

- E o recurso financeiro que a Aracruz ficou de pagar, já foi depositado?

- Até agora nós não vimos a cor desse dinheiro. No TAC eles disseram que fariam o pagamento da primeira parcela até o dia 14 de dezembro e até agora nada.

- A Aracruz deu alguma explicação para justificar o atraso?

- Nós fomos lá e eles disseram que o problema é do sistema, que todo dia esse sistema custa em abrir e por isso está atrasando o pagamento. Uma parcela deveria ter sido paga em 14 de dezembro e a outra em março. A Aracruz não está cumprindo o que foi combinado no TAC. Eu acho que a Funai também está mentindo para nós.

- Qual foi a explicação que a Funai deu para vocês?

Foto: Syã Fonseca
  
- A Funai disse que assim que o TAC fosse assinado esse dinheiro entraria na conta, mas agora eles também estão enrolando. Nós já avisamos, enquanto a Funai não resolver o problema do dinheiro a Aracruz não vai entrar aqui para pegar um pau de eucalipto. Nós estamos contando com esse dinheiro para começar a desenvolver os projetos.

- Parece que há certo descontentamento com a Funai.

- Com certeza. A Funai nunca faz nada por nós. Ela só gosta de aparecer nesses momentos de luta. Nessa briga com a Aracruz eu acho que a Funai (Fundação Nacional do Índio), o Cimi (Conselho Indigesnista Missionário) e a Fase (Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional) mais atrapalharam do que ajudaram.

(Nesse momento, o conselheiro Elias, que acompanhava a entrevista, entra na conversa...)

Conselheiro Elias: - Eu já falei isso para o Fabinho (indigenista da Fase, Fábio Villas) que eles fazem as coisas para aparecer e receber dinheiro lá de fora. O Cimi consegue dinheiro do exterior e dá pra gente em troca de pão velho. Existe é muita conversa fiada para se promover em cima dos índios. Por exemplo, hoje não existe na aldeia um único projeto da Fase ou do Cimi. Pra gente só sobram as migalhas. Deixaram a Funai tomar conta desse dinheiro e nós estamos aqui passando por dificuldades. Hoje os índios estão lutando para pagar as contas de energia. A maioria das casas daqui da aldeia está com a energia cortada por falta de pagamento. Nós temos o dinheiro e ele está preso com a Funai. O que a Funai dá para nós hoje? Um tíquete de R$ 350,00 para comprar comida. Sabe o que os índios estão fazendo? Estão sendo obrigados a vender esse tíquete no mercadinho por R$ 300,00 para poder pagar suas contas. O dono da venda desconta R$ 50,00 para nos dar em dinheiro vivo. Isso não está certo. Nós temos que lutar pelos direitos da comunidade. E você sabe que não adianta brigar com a Funai, porque é órgão federal. Nós temos que brigar com a Aracruz. Se a gente começar a brigar com a Funai o governador faz como já fez outras vezes, manda a polícia para dar borrachada nos índios. É tudo resolvido na base da borracha e do porrete, como se nós estivéssemos errados. Nós temos que brigar para esse dinheiro passar direto para nossa mão. Esse dinheiro não deveria ir para a mão da Funai, porque a Funai não está pressionando a Aracruz. A Funai só existe porque o índio existe. Quando não tiver mais índio não precisa mais ter Funai. Eles deveriam estar do nosso lado, mas não estão. Fomos nós que lutamos e a Funai quer agora abraçar nossa vitória. A verdade é essa.

- Cacique Edinéia - Nós demos um prazo para a Funai resolver o problema do pagamento da primeira parcela até sexta-feira (11). Se até sexta-feira a Funai não resolver o problema, na segunda-feira (14) nós voltamos a fazer o movimento novamente. Ou a Aracruz passa esse dinheiro ou as coisas vão se complicar de novo.