Vitória (ES), edição de 14 de janeiro de 2008
 
Primeira cacique do ES aposta na
gestão com apoio da comunidade


José Rabelo


Foto: Syã Fonseca

No último dia de 2007, Edinéia Pinto Joaquim (foto) foi nomeada oficialmente a primeira cacique mulher do Espírito Santo. Aos 45 anos, casada e mãe de três filhos, a nova cacique garante que está preparada para representar as 113 famílias e os quase 500 índios da aldeia Irajá, que agora estão sob sua responsabilidade. “O apoio da comunidade me deixou mais fortalecida para continuar a luta”.

Filha do cacique Benedito Tupinikim – um dos pioneiros na formação de Caieiras Velha e fundador da aldeia de Irajá (a 8 km de Caieiras) –, Edinéia conta que desde os 10 anos costumava acompanhar o pai nos assuntos da aldeia. “As pessoas procuravam meu pai para ajudar a resolver os problemas da comunidade e eu ficava prestando atenção nessas conversas. Às vezes apareciam repórteres ou professores para conversar com meu pai e eu ficava o tempo todo escutando. Foi por isso que acabei me envolvendo e me interessando nos assuntos de papai”.

A cacique explica que um conselho formado por dez índios, cinco homens e cinco mulheres, faz a indicação. O cacique escolhido passa a ter um mandato de dois anos. Ao final do mandato, a comunidade se reúne para fazer uma avaliação da gestão do cacique para decidir se ele permanece por mais dois anos ou deixa o cargo. “Se eu fizer um bom trabalho eu continuo, senão eles têm o direito de me tirar. Tudo depende da palavra final da comunidade. O conselho me escolheu, mas a minha indicação teve que ser aprovada pela comunidade. A decisão final é sempre da comunidade”, ressalta.

A chefe da aldeia Irajá conta que outros índios estavam na disputa, mas a maioria votou na sua indicação. “Eu já era vice do cacique Jonas (cacique que deixou o cargo). Acho que isso também contou na hora da escolha”. Edinéia disse ainda que seu nome foi bem aceito não só na aldeia de Irajá, mas também pelas outras seis comunidades indígenas da região de Aracruz. “O pessoal da comissão de Caieiras Velha também achou bom trabalhar com uma mulher. As coisas precisam mudar. Não interessa se é homem ou mulher. O importante é ter vontade para trabalhar”.

Bomba à frente

Há menos de duas semanas no cargo, cacique Edinéia, junto com outros seis caciques, já tem um grande desafio pela frente. Ela reclama que o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), que foi assinado entre os caciques das sete aldeias Tupinikim e Guarani e representantes da Aracruz Celulose, e com a validação do ministro da Justiça, Tarso Genro, não está sendo cumprido. Segundo a cacique, no TAC ficou acordado que a Aracruz Celulose faria o depósito da primeira parcela para os índios até o dia 14 de dezembro do ano passado. Entretanto, segundo a cacique, o pagamento não foi efetuado.

“Nós fomos lá (na Aracruz) e eles disseram que o problema é do sistema, que todo dia esse sistema custa a abrir e por isso está atrasando o pagamento. A Aracruz não está cumprindo o que foi combinado no TAC. Eu acho que a Funai também está mentindo para nós. Nós já avisamos, enquanto a Funai não resolver o problema do dinheiro a Aracruz não vai entrar aqui para pegar um pau de eucalipto. Nós estamos contando com esse dinheiro para começar a desenvolver os projetos”.

Clique aqui e leia a entrevista de completa de Edinéia Pinto Joaquim, a primeira cacique do Espírito Santo.



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