Vitória (ES), edição de 15 de janeiro de 2008
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Urbanidades: O submundo do Bacurau



Leonardo ViSo


  
Foto: Divulgação
  
Durante nossa breve vida temos vários ritos de passagem e de liberdade. Troca da dentição, primeiro dia de aula, primeira polução noturna, ganhar a chave de casa, primeiro porre e etc. cada um tem os seus. Dentre o meus, teria destaque na lista a minha primeira viagem no coletivo da madrugada, o Bacurau. Sempre achei que era uma lenda urbana tipo Transcol vazio fora do horário de pico e antes das 23h - sim, dizem que existe. Depois que constatei que era verdade, minha vida nunca mais foi a mesma. Antes do Bacurau, minha vida era assim: ou pagava de Cinderela ou dormia na casa de alguém. Ou seja, tinha que muitas vezes abandonar o auge da festa ou acordar na casa dos outros (nem sempre isso é legal).

Um dia resolvi ir mais além dessa lógica e adentrar a madrugada. A noite estava prometendo, a Lama estava incandescente e a minha mesa um freak show - mas, que a noite prometia, prometia. Foi dando 23 horas, 23:30, meia noite e ai, vi que ia ser perda de tempo ficar ouvido confissões de um caminhoneiro brigada com a namorada e uma pseudo-argentina no 2º período de Psicologia numa faculdade “pagou-levou” da vida. Meu suco de limão já tinha acabado e até minha mãe havia ligado para saber onde eu estava. Era uma terça-feira. A argentina de Jucutuquara foi ao banheiro e eu aproveitei para me despedir dos que ficaram. Até hoje, tenho dúvidas se cortei o clima, enfim fui embora.

Corri para o ponto, ali em frente à Ufes e para minha sorte de principiante, menos de 10 minutos depois surgiu um Transcol azul, desses que só circulam entre bairros. “Serra Dourada II/Rodoviária” indicava o painel, e mais embaixo uma plaquinha singela informava “bacurau”. Me senti Amelie Poulain ao descobri o dono da caixinha de bombons. E desde então, comecei a exercer de ir e vir pela madrugada. Com o tempo, aprendi os horários e que havia uma outra linha, “Nova Almeida/Rodoviária”, mais interessante e que deixava mais perto de casa. Liberdade ainda que tardia.

Acontece que o Bacurau não é uma linha de ônibus qualquer. Além de carros velhos e desconfortáveis, seus usuários são peculiares. Basicamente quem anda de bacurau, são os motoristas e cobradores (quem nunca se perguntou como eles voltavam para casa?) e garçons e cozinheiras (você achava que eles tinham carro ou que o padrão pagava o táxi?), enfim o “bonde” dos trabalhadores. Tirando essa galera, é a balburdia que freqüenta as linhas noturnas, mas sempre no “maior respeito”, ou nem tanto assim.

Fazendo o itinerário Reta da Penha/Fernando Ferrari/BR 101, a linha “836 - Serra Dourada I” é dominada pelos “universitários de festa”, aqueles que estão em todo rock na Ufes se vestem de preto ou de maneira estranha (ou com uma roupa bizarra preta) ou a galera do reggae. A maioria pula a roleta e nem olha para a cara do trocador que nem ensaia uma reação e geralmente põe um olhar blasé no rosto. Sempre que eu pego com eles, eu pulo a roleta também. Tão underground e rebelde. Ninguém ali milita pelo movimento do passe livre e muito menos almeja um cargo no DCE. Geralmente, ou gastaram tudo na cerveja barata ou no baseado da hora (para não citar outras coisas ilícitas). Lotam o ônibus e fazem muita gritaria, mais muita mesmo. A idade média deles deve ser 18 anos, a mental...

  
Foto: Divulgação
  
Já na rota “837 - Nova Almeida” que segue via praia de Camburi e rodovia Norte-Sul, os personagens são outros. Nela, o Bonde dos Trabalhadores ganham o reforço dos profissionais do sexo que labutam na orla. Já nem chama muita atenção dos passageiros encontrar uma prostituta em pé na porta do meio, uma travesti “causando horrores” sentada no painel ou um michê decadente no banco de trás. O bacurau avança pela orla e cada um desce no seu polissêmico ponto. Há quem desça já acompanhado - time is money, honey! Com a rotina quase todo mundo vai se conhecendo e o barulho geralmente é das risadas. Dificilmente alguém pula a roleta, preferem economizar “colaborando” com o trocador.

Nunca me aventurei pelas outras linhas, como a “Serra-sede” ou “Cidade Continental”, muito menos as que vão para Vila Velha ou Cariacica. Dizem que são animadíssimas também, principalmente o fundão. Uma vez, na 837, uns plays de Jardim Camburi resolveram barbarizar e pegaram um bacurau, tentaram pular a roleta sem colaborar. Ficaram falando “gracinhas para o motorista e trocador”. Não demorou muito e todos sentiram a freada brusca e as portas se abrindo. Lacônico, o motorista mandou eles descerem. A playboizada tentou um protesto, um pouco menos lacônico o motorista manteve o carro parado e eles saíram do busão. Os outros passageiros quase aplaudiram. Alguma mamãe deve ter sido acordada e saiu para resgatar o rebento pela madrugada. Definitivamente, o bacurau não é para quem usa talquinho.

Saiba mais!
Clique aqui e leia a coluna da última semana, Urbanidades: Caixas, notas fiscais e poeira.

 

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