Vitória (ES), edição de 18 de janeiro de 2008    
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Compraram, mas não pagaram



Leonardo ViSo


  
Foto: Nerter Samora
  

Alguém imagina viver sem o comércio? Não, não necessariamente o consumo desenfreado e frenético. E se fosse tudo na base do troca-troca? Talvez, seria melhor. Trocadilhos de lado. Nem mais os índios querem saber de escambo - certíssimos! Mas, a atividade de comprar e vender, que parece que sempre existiu, demorou a entrar no cotidiano. É justamente essa história que a Andaraí vai contar na avenida.

Comprar e vender. Viver e aprender esse é o enredo da escola, ou melhor, do Grêmio Recreativo Escola de Samba Andaraí, de Vitória. Fundada desde 1946, a Andaraí é uma das mais tradicionais escolas de samba do estado. Apesar dos altos e baixos, a "Venenosa" sempre figura entre as mais populares do Sambão do Povo. Seria porque a escola de Santa Marta nasceu de um time de futebol, e aí juntou duas paixões brasileiras? Uma hipótese.

Para falar do comércio, o carnavalesco da Andaraí, Paulo Balbino, explica que abordará desde os fenícios até chegar ao comércio de rua. "Queremos mostrar o surgimento do comércio ainda na época em que famílias que pescavam trocavam com as que produziam cereais. Vamos falar dos povos que iniciaram essa arte - fenícios, árabes e judeus", diz.

O enredo prossegue contando a evolução do comércio. Os grandes momentos vão ser destacados nos quatro carros alegóricos que a escola leva para o desfile. O primeiro carro representará um grande templo Persa. A alegoria seguinte retrata o período das grandes navegações através de uma caravela portuguesa. O terceiro carro fala do ciclo do pau-brasil e do escambo indígena. "No final teremos uma grande liquidação", revela Balbino. O último carro representa o calendário comercial e o comércio popular.

A escola pretende também abordar a organização do comércio que cresceu e sentiu necessidade de criar um sindicato. "É o sindicato que cria organiza e cria um calendário para impulsionar as vendas. Escolhemos quatro dessas datas: a volta às aulas que é a ala das crianças; o Natal por ser a grande mina do comércio; o reveillon que será representado pelas baianas; e por fim o carnaval", descreve o carnavalesco.

Apesar de o enredo tratar de comércio, compra, venda e dinheiro, a segunda parte dele - viver e aprender - é que prevalecerá. O "fenômeno da promessa não honrada" se manifestou na Andaraí e o patrocínio esperado não apareceu. "Todo nosso trabalho foi feito em cima de um projeto que não foi para frente. A escola poderia chegar na avenida melhor se a promessa tivesse sido cumprida", lamenta Balbino. Nessas horas, o jeito é reajustar. "Evitamos usar materiais caros, principalmente nas alegorias. O importante é que a leitura sobre o tema será mantida", afirma.

O dinheiro pode não ter chegado o suficiente, mas a comunidade se faz presente na escola. Ao todo, a Andaraí vai desfilar com mais de 1.800 componentes. Quatro fantasias estão sendo confeccionadas pelos membros da comunidade. "Como tivemos um bom resultado no ano passado, a procura foi bem maior. E eles vêm dando o maior apoio para nós aqui", falou o carnavalesco. Isso é uma das coisas que não dá nem para comprar e muito menos vender no samba.

 

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