Vitória (ES), edição de 21 de janeiro de 2008    
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David Im Wunderland



Erly Vieira Jr.
Atualizado toda Terça-feira, às 16 horas

  
Foto: Divulgação
  
Kerl Im
Quando David Caetano surgiu no cenário das artes visuais capixabas, lá por 2001-2002, o que mais chamava atenção em seu trabalho eram as performances que sempre colocavam seu próprio corpo em questão, muitas vezes em situações de risco, mas sempre numa postura que variava entre o dramático e o ritualístico.

Foi assim, por exemplo, com Caim e Isabel, apresentado na exposição Ltda., em 2003, no Espaço Universitário. Nessa vídeo-performance, o artista provocava sua irmã, em seu próprio apartamento, visando uma reação violenta da parte dela. O ponto de vista da câmera, propositalmente, repetia o de alguém escondido atrás de uma janela da sala, de modo que ao espectador só era permitido acompanhar parte dos desdobramentos da briga através das imagens, e imaginar o restante da "encenação" (ou não-encenação) com base nos gritos e ofensas captados pelo microfone da câmera, enquadrando o cômodo vazio enquanto os irmãos se retiravam para continuar a agressão mútua em outro cômodo da casa.

Outro exemplo bastante marcante dessa ressignificação do próprio corpo através do gesto dramático pode ser encontrado na performance apresentada na coletiva Impermanência e transitoriedade (Museu de Arte do Espírito Santo, 2004), na qual David cortava cebolas obsessiva e silenciosamente e chorava, alheio às imagens de exclusão social projetadas no telão instalado na parede à sua frente. Ou seja: a deliciosa ironia de um choro por reação física, e não pelo conteúdo emocional da projeção.

  
Foto: Divulgação
  
Eu poderia ainda destacar outras situações: em Caminho, o artista caminhava obsessivamente em círculos, sobre um monte de britas, até nivelá-lo próximo ao chão, apenas arrastando as pequenas pedras com os pés descalços; num outro trabalho, sem título, realizado dentro de um ônibus coletivo municipal, ele seguia viagem por todo itinerário com os olhos e boca vendados; e ainda a instigante performance Bubbles, realizada praticamente sem platéia, em pleno sol-pôr, na qual David dedicava-se a soprar delicadas bolhas de sabão, repetidas vezes, sentado nas rochas de um quebra-mar, tendo como sonoplastia apenas as ondas bastante revoltas do mar bravio (mais uma vez, o pôr-se em risco como espécie de ars poética).

Desde que retornou à região serrana do Espírito Santo, poucos meses depois dessa exposição, David andava meio silencioso (muito embora o silêncio fosse um dos elementos mais marcantes de suas performances), exceto por uma ou outra performance esporádica. Até que começaram a surgir alguns desenhos (assinados com a Estrela de Davi) postados num fotolog, denominado Kerl im Wunderland (confira o link abaixo).

Mais que um diálogo intertextual com Alice in Wonderland (e, de certo modo, com a estética d'O Pequeno Príncipe, já que o traço lembra em muito as ilustrações de antigos livros infantis) essas fascinantes e delicadas imagens coloridas, desenhadas por cima de fotografias pessoais, e quase sempre acompanhadas de frases semi-silenciosas, carregadíssimas de poesia, revelam uma nova possibilidade de interpretarmos toda a sensibilidade que David transpirava em suas performances anteriores.

É como se ele reinventasse, através do desenho, o próprio corpo, ressignificando-o num mundo imaginário, em que habitam todos aqueles personagens presentes nas ilustrações. Uma transfiguração íntima do mundo, com base em pequenas memórias e anotações.

  
Foto: Divulgação
  
Em lugar da dramaturgia, uma série de instantâneos que acabam por perdurar na memória de quem acompanha as postagens quase diárias no fotolog. Talvez páginas de um diário cifrado, o que pouco importa no final das contas. A vontade que a gente tem quando vê um desenho desses é fechar os olhos e imaginá-los em movimento, tal como uma rotoscopia (a célebre técnica de animação que consiste no desenhar por sobre a imagem cotidiana captada pela câmera de cinema). Um farto transbordar de afetos, repleto de todos os aromas que costumamos guardar na memória.

Saiba mais!
Clique aqui e vá ao fotolog Kerl im Wunderland.




E-mails para o colunista: erlyvieirajr@hotmail.com



 

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