Vitória (ES), edição de 21 de janeiro de 2008    
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A comédia humana



Da Redação



  
Foto: Divulgação
  

Com suas frases lapidadas exaustivamente, suas palavras precisas, o romance Bouvard e Pécuchet (Estação Liberdade, 400 págs, R$ 48 em média) do francês Gustave Flaubert, atravessou o tempo sem perder seu impacto e sua força expressiva. Publicado originalmente em 1881, permanece sendo "literalmente uma obra de vanguarda", como dizia Roland Barthes.

Após anos sem edição brasileira no mercado, a nova tradução, de Marina Apenzeller, mantendo-se fiel às edições críticas francesas, traz notas explicativas e os roteiros manuscritos que o escritor deixou para o final da primeira parte do romance, bem como para a segunda parte, como o famoso Dicionário das Idéias Feitas.

Conta também com um ensaio de Guy de Maupassant, escrito por ocasião do lançamento da obra, e com uma apresentação, assinada pela especialista Stéphanie Dord-Crouslé, sobre a construção do livro e sua revolucionária estrutura narrativa.

Nesse romance inacabado, Flaubert coloca em cena dois personagens crédulos, os escreventes Bouvard e Pécuchet, que, caminhando na rua, na hora do almoço, sentam num mesmo banco de praça e acabam se tornando grandes amigos. O sonho desses dois "homenzinhos", como o escritor a eles se referia, era conseguir largar o trabalho insano de copistas para se dedicarem aos estudos, aos altos conhecimentos, científicos ou não, do mundo.

  
Foto: Divulgação
  
Um dia, um deles recebe uma bela herança, suficiente para passar o resto da vida sem trabalhar em escritório. Combinam, então, trocar a vida parisiense pela vida no campo, onde poderiam se dedicar aos estudos e às experiências, procurando pôr em prática, nesse laboratório da natureza, tudo que aprenderiam nas grandes obras de referência.

O resultado se torna uma série de trapalhadas, narradas com humor refinado e carregado de crítica. Vários são os assuntos que passam pelos olhos dos dois personagens, que compram livros e mais livros, de manuais de agricultura a obras de grandes e importantes cientistas. O que mais os atordoa é a impossibilidade de determinar uma verdade.

Cada capítulo é recheado de citações, de referências bibliográficas, de sistemas, enfim, de discursos que se cruzam sem que o leitor possa se fiar no que está sendo dito. Flaubert percebe que nenhuma linguagem é inocente, e também não garante nenhuma certeza. A estrutura circular da narrativa, que faz com que os capítulos sigam um esquema muito parecido, mostra a própria obsessão da procura da verdade como uma roda que gira em falso, envolvendo de forma divertida e patética seus dois protagonistas e todo o saber enciclopédico do século XIX.


 

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