"A alegria da alma constitui os belos dias da vida, seja qual for a época." (Sócrates)
A expectativa de dirigentes e integrantes das escolas de samba, da prefeitura de Vitória, de foliões de carteirinha e do público em geral é de que o carnaval 2008 seja um dos melhores dos últimos anos. Depois de amargar cinco anos sem desfile (1993 a 1997), retornar em 1998 precariamente à avenida Jerônimo Monteiro - sem a presença de escolas consagradas como a Jucutuquara, por exemplo - devido às péssimas condições do Sambão do Povo, o carnaval de Vitória só voltou a dar o ar da graça no sambódromo em 2002, quando as escolas decidiram retomar os desfiles com o afinco de outros carnavais.
Desde 2005 à frente da secretaria municipal de Cultura, Maria Helena da Costa Signorelli afirma que a atual gestão inaugurou uma nova fase do carnaval de Vitória. A capixaba de Colatina conta que nos três últimos anos o carnaval vem passando por um processo de modernização e profissionalização: em parte pelos investimentos feitos pela prefeitura e também por iniciativa das próprias escolas, que têm buscado no Rio de Janeiro conhecimento e tecnologia com o objetivo de colocar o carnaval de Vitória entre os melhores do Brasil.
A secretaria ressalta, no entanto, que o fato de "importar" know-how carioca não significa necessariamente que o carnaval capixaba está se cariocando. "As escolas ainda não sabem se o modelo a seguir é esse do Rio de Janeiro. Há com certeza uma influência, mas acho que nós estamos construindo nosso próprio estilo. Até porque as condicionantes são bastante diferentes", ponderou.
Controvérsias à parte, o fato é que a prefeitura de Vitória investiu R$ 2.478 milhões no carnaval 2008, entre obras de infra-estrutura no Sambão, montagem de arquibancadas e camarotes, repasse às escolas e convênio com a Lieses (Liga das Escolas de Samba do Espírito Santo), que é responsável por toda a preparação artística do carnaval.
Para a secretaria, o processo de profissionalização é indispensável para incluir o carnaval de Vitória no circuito turístico nacional. "Na verdade, todo esse investimento que está sendo feito pela prefeitura no carnaval tem o propósito de dar mais visibilidade ao espetáculo e trazer, num futuro próximo, recursos da iniciativa privada".
Século Diário: - O carnaval de Vitória atravessa um processo de profissionalização. Exemplo que confirmam essa tendência é a contratação, por parte de algumas escolas, de carnavalescos do Rio de Janeiro. Além disso, a Liga das Escolas de Samba do Espírito Santo também anunciou que este ano o júri será carioca. Esse processo de profissionalização faz parte de uma proposta estratégica da prefeitura de Vitória de reformulação do carnaval ou vem acontecendo naturalmente por iniciativa das próprias escolas?
Foto: Ricardo Medeiros
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Maria Helena Costa Signorelli: - Esse processo de profissionalização é uma conseqüência natural do crescimento do carnaval de Vitória. É claro que há uma preocupação da prefeitura de Vitória, por meio da Secretaria de Cultura, de investir no carnaval com o objetivo de profissionalizar o espetáculo. Isso vem acontecendo por dois motivos: primeiro porque o carnaval é uma manifestação que faz parte da cultura da cidade, segundo porque o carnaval de Vitória já atinge uma demanda de público que vai além do município e do próprio Estado. No carnaval 2007, por exemplo, cerca de 5% do público que assistiu ao desfile no Sambão do Povo eram provenientes de outros estados. Além disso, existe o compromisso, por parte da prefeitura, de apoiar as escolas de samba. É importante lembrar que o trabalho das agremiações não se resume ao desfile em si. Para o espetáculo acontecer é necessário um trabalho continuo o ano todo. Ao investir na profissionalização do carnaval, a prefeitura está investindo na infra-estrutura para criar mais oportunidade de acesso, garantindo mais organização, conforto e segurança ao público que vai prestigiar o espetáculo. Ao mesmo tempo, esse investimento nas escolas de samba e na própria Liga fortalece o trabalho junto às comunidades vinculadas a cada uma dessas agremiações.
- Nesse processo de profissionalização, quais são ações de iniciativa da prefeitura e das próprias escolas?
- Como eu disse, uma das preocupações da prefeitura está relacionada à infra-estrutura, ou seja, existe um esforço em melhorar o acesso do público ao desfile. Nós acreditamos que, a partir do momento em que asseguramos essa condição, naturalmente nós aproximamos as comunidades das escolas. Desta maneira, criamos uma cadeia que vai incentivar essa aproximação comunidade-escola. Essa integração incentiva processos como, por exemplo, a geração de trabalho e renda dentro dessas comunidades. É nesse sentido que queremos investir na profissionalização. Esse trabalho de integração da comunidade com as escolas, além de gerar trabalho e renda, também contribui para redução da violência e promoção da cidadania. Há também ações que são de iniciativa das próprias escolas. Por exemplo, a Liga tem buscado essa aproximação com as escolas do Rio com o objetivo de alcançar essa profissionalização. Isso acontece através de treinamentos, cursos e troca de conhecimento e experiências de maneira geral.
- Quanto a prefeitura repassou à Liga e às escolas no carnaval 2008?
- A prefeitura hoje é o maior investidor do carnaval de Vitória. Para cada uma das oito escolas da Capital a prefeitura repassou R$ 60 mil. São repassados mais R$ 20 mil, a título de premiação e independente do resultado, para cada uma das 13 escolas (oito de Vitória, duas da Serra, duas de Vila Velha e uma de Cariacica) que participam do desfile. Além disso, há também a premiação pelo desempenho das escolas no desfile. Para realização do carnaval a prefeitura repassa à Lieses os recursos para que ela possa organizar a parte artística do carnaval. Este ano a Lieses recebeu R$ 950 mil da prefeitura. Esse dinheiro foi investido na contratação dos jurados cariocas, no som, iluminação do Sambão. Pela sua importância, boa parte desse recurso é gasto com o sistema de som e com a iluminação. Não se pode utilizar qualquer tipo de som ou iluminação. Esses recursos técnicos são fundamentais para garantir a qualidade artística do desfile. Esse dinheiro repassado à Liga também é destinado à premiação das escolas.
Foto: Ricardo Medeiros
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- Ao todo, quanto custou o carnaval 2008 para a prefeitura de Vitória?
- A prefeitura investiu R$ 2.478 milhões no carnaval 2008, entre obras de infra-estrutura no Sambão do Povo, montagem das arquibancadas e camarotes, repasse às escolas. Só para a Lieses foram repassados R$ 950 mil.
- A velha guarda do samba está sendo incluída nesse processo de profissionalização ou ela faz parte de um 'passado romântico' do carnaval que não cabe mais dentro desse novo modelo?
- Pelo contrário, as escolas estão preocupadas em manter esses representantes da velha guarda no carnaval. A velha guarda, a comunidade em geral, mesmo aqueles que ainda têm uma visão mais romântica do carnaval continuam tendo lugar no atual processo. A profissionalização tem ajudado a manter essas pessoas no carnaval. Ela contribui para que a escola e todas essas pessoas que estão vinculadas ao carnaval possam realizar suas fantasias, seus sonhos. É justamente esse processo de profissionalização que vai garantir que esse sonho possa sair do papel e se transformar em realidade. A maioria das escolas tem grande preocupação em manter essas pessoas que têm uma ligação de raiz com o samba e com a comunidade.
- No carnaval do Rio e de São Paulo é comum episódios em que, por exemplo, uma rainha de bateria da comunidade, que desde criança é ligada à agremiação, seja obrigada a ceder seu lugar a uma atriz global que está em destaque na mídia. Coisas desse tipo acontecem também em nome da profissionalização do espetáculo. Pesam na decisão os contratos de patrocínio, publicidade etc., em detrimento da tradição. Essa tendência já se confirma por aqui?
- De fato, é preciso ficar atento a isso. Acho que Vitória ainda não chegou nesse nível de profissionalização como ocorre há anos no Rio e em São Paulo. Nós estamos no início desse processo. As escolas ainda não sabem se o modelo a seguir é esse do Rio de Janeiro. Há com certeza uma influência, mas acho que nós estamos construindo nosso próprio estilo. Até porque as condicionantes são bastante diferentes. Por exemplo, a cidade de Vitória é muito menor. É preciso preservar as manifestações culturais locais. Esse caminho que está sendo construído é autêntico. Mas, como eu disse, isso é um alerta importante para as escolas, para a Liga e para poder público. A Secretaria de Cultura tem essa preocupação e acredito que as escolas também estejam atentas à preservação das tradições. Agora, esse processo de profissionalização e investimento nas escolas, que é muito incipiente em Vitória, ainda é bastante tímido no que se refere aos investimentos da iniciativa privada. Praticamente inexistem. Se a prefeitura não investe no carnaval como tem investido, dificilmente haveria condições para o evento acontecer. Na verdade, todo esse investimento que está sendo aplicado pela prefeitura no carnaval tem o propósito de dar mais visibilidade ao espetáculo e trazer, num futuro próximo, recursos da iniciativa privada.
- Hoje, quem são os investidores do carnaval 2008?
- Este ano, além da prefeitura de Vitória, que praticamente arcou com todas as despesas do evento, nós temos o patrocínio do Banestes. Fora isso, há alguns veículos de comunicação que entraram como apoiadores.