Vitória (ES), edição de 15 de julho de 2008    
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Simetria estranha



Leonardo Viso
Atualizado toda terça, às 16 horas


Nunca tinha ido a Brasília de avião, e a primeira vez que isso aconteceu me decepcionei. Não dava para ver seu traçado da mesma forma que se vê nos mapas e os grandes prédios ficavam muito pequenos em meio a todo aquele vazio do cerrado. Mas, como a gente não flutua o tempo inteiro, logo após a aterrissagem tudo voltava ao "normal". É claro que quando falo de normalidade tem que ser relativista. Jamais acharei Brasília uma cidade normal.

É clichê dizer, mas não consigo entender como a gente consegue ficar tão perdido em uma cidade tão organizada? O que custava dar nomes as ruas e aos bairros. Letras e números é algo tão frio e sem charme. Ok, naquele pedaço de terra não tinha muita coisa e tiveram até que construir um lago, mesmo assim, acho que criatividade nunca é demais.

Antes que alguém se aborreça e ache que vou escrever um texto sobre o que falta em Brasília, alerto que minha intenção não é exatamente essa. Também não farei um tratado sobre seus monumentos arquitetônicos ou projeto urbanístico. Fico até tentando, confesso. Porém, meu namoro com a arquitetura e urbanismo é tão platônico que muitas vezes cai no esquecimento.

Brasília é apenas um cenário participativo para momentos impares em espaço tedioso. É o maior exemplo da "ordem" - que sabemos que nos final das contas não dá muito certo. Não deixa de ser metáfora para os dias de imerso na multidão, mas sem encontrar ninguém. Tente pedir informação a noite na cidade, tente encontrar alguém.

A coluna poderia ser sobre convívios forçados. Numa madrugada muito fria e seca, um grupo de evangélicos seguia em um ônibus para as proximidades da rodoviária. No sentido contrário, jovens emos-gays partiam para mais um noitada subterrânea. Sem sentido algum drogados - ou noías - zanzavam entre eles. No final uns tomavam sopa, outros a cerveja mais gelada e a maioria sentia frio.

Perdidos naquele prédio cheio de corredores, cheiros ruins e andares vazios, eram obrigados a conviver colados uns aos outros. As pedras jogadas pareciam bumerangues, bastava ir para logo voltar. Os crentes distribuíam sopa para os viciados e esses pediam moedas para as bichas que só se serviam entre si. Cenas provavelmente não previstas no script inicial lançado no dia 21 de abril de 1960. O improviso sempre prevalece.

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