Vitória (ES), edição de 17 de julho de 2008    
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Pretérito Imperfeito



Carlos Calenti Trindade
Atualizado toda quarta-feira, às 16 horas


(musiquinha do plantão da Globo de fundo)

De supetão, decidi fazer essa participação especial por aqui, de novo. É a vontade de compartilhar a leitura de um autor que muita gente que lê essa coluna conhece. A foto dele, por exemplo, está do lado da minha (que resiste) na página do Atrações. E era ele que comandava esse espaço sobre literatura antes de mim, e das investidas ocasionais do Henrique. Sim, estou falando do Erly (Vieira Jr.), e do seu novo livro, lançado pela Secretaria do Estado de Cultura, -sse.

Mas vamos fazer as coisas corretamente. Por exemplo, começando pelo título:

Pretérito Imperfeito


Acho que eu deveria começar logo dizendo, de cara, que o livro do Erly é muito bonito. E não estou falando da capa do livro (que, bem, também é muito muito bonita - com uma ilustração linda do David Caetano). E sim que o livro é de uma delicadeza imensa. Os relatos, os fragmentos de falsas memórias que o compõe, são alivanhados com uma destreza e leveza tais, que acabamos a leitura assim também, mais leves, mais poéticos. E essa palavra, solta no ar assim: poéticos, não é por acaso. Em muitos momentos do livro, ficamos indecisos, confusos, se estamos lendo uma poesia ou um conto. (Reservem a palavra confusão - retornaremos a ela). Rastros, talvez, da atividade poética que o autor exerce (já tendo um livro de poesia publicado) e que enriquece enormemente a experiência de -sse.

Uma outra coisa que aproxima esse livro de contos da poesia é a coesão das narrativas apresentadas, entre si. O que denota algo que todo bom livro de poemas (e de contos também) deveria ter: um projeto, uma proposta estética (e ética, é claro). Nesse livro, adentramos no universo da memória, do relato pessoal em primeira pessoa. E é agora que devemos pinçar a confusão novamente. Na própria orelha do livro Erly já nos esclarece as regras do jogo: a maior parte desses aparentes "relatos autobiográficos" é falsa. O que quer dizer também que outras, poucas, partes são verdadeiras. Há uma posição aí. Não podemos esquecer que estamos na época mais abundante da primeira pessoa: ela se desdobra pela internet, pela tevê, pelo cinema, pelos livros - todos narramos nossas próprias vidas continuamente. Dentro desse quadro, a posição do autor valoriza a invenção. A ficção mesmo. E a poesia. Ou talvez, e melhor: a própria indefinição entre a vida e o inventado. E por isso ele realiza algo muito mais importante que milhões de narrativas pseudo-biográficas e banais por aí, de Claras Averbucks aos montes.

(É muito interessante como essas questões reverberam também nos filmes do Erly. Inclusive há um conto chamado parque moscoso, 22:35, que me lembra muito seus dois últimos vídeos: grinalda e eu que nem sei francês - ambos no you tube, podem procurar. É aquela questão de projeto, que falei antes. Mas essas correlações entre literatura e cinema são para outros momentos).

Desde já o meu conto favorito é o que dá nome ao livro. É tão bom que eu mesmo gostaria de tê-lo escrito.

Eu acho que esse livro merecia muito ser lido e conhecido, e para fora dos limites do nosso estado querido. E, de resto, para mim, capixaba, é muito bom ler narrativas que se movimentem em espaços por mim conhecidos, por lugares que eu mesmo freqüentei - é sempre ótimo quando um livro bom nos transporta para onde já estamos, nos dá novas visões sobre nossa própria cidade. É triste que nós sintamos isso tão pouco (por nossa culpa também). Aqui está uma ótima oportunidade pra (re-)começar.

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E-mails para o colunista: carloscalenti@yahoo.com.br


 

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