Vitória (ES), edição de 17 de julho de 2008    
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Welcome To Fradinhos



Leonardo Viso
Atualizado toda terça, às 16 horas


Seria mais um sábado diante do computador, bebendo coca-cola e lendo alguma matéria da Piauí. Os meus sites conectados, o MSN online e Media Player tocando pop-rocks platinos. Entre uma janela e outra, a mesmice quase que diária, potencializada pelos fins de semana. Alguns convites, outrora recusados. Sim, não saio mais de casa para uma infinidade dos lugares limitados de Vitória. É mais fácil eu ir ao baile de outono da 3º idade que a uma festa indie no Centenário.

Já eram umas 8 da noite, quando um convite inesperado me fez mudar de idéia: um churrasco em Fradinhos. Na semana anterior, tinha sido Serra-Sede. Resolvi mais uma vez ir uma festa do tipo "desterritorializada", onde encontraria pessoas bem diferentes e um lugar novo. Só precisava viabilizar minha ida, já que Fradinhos é um mundo à parte.

Assim, como Serra-Sede, Fradinhos era um lugar que eu tinha ido pouquíssimas vezes na minha vida. Duas no máximo. Na minha lista de amigos, poucos moram nesse bairro, aliás, Fradinhos é um bairro para poucos. Isolado na ilha de Vitória, mantém uma característica residencial-bucólica aos pés do Maciço Central. Não é caminho de passagem para lugar nenhum. Você não passa por Fradinhos, você vai à. É um cantinho charmoso. Lembra o Cosme Velho no Rio, mas bem menos central e com muitas ladeiras íngremes como o bairro carioca.

O churrasco foi definido pelo anfitrião como um lugar "que costuma reunir todas as tribos". Obviamente não acreditei, mas como tinha carta branca para convidar outras pessoas, fui atrás de gente da minha casta (se é que tenho uma). Uma única amiga aceitou. Sabia que ela é do tipo que se aventura numa boa. Para facilitar nossa vida ela arranjou um carro com os pais. Sem dúvida, Fradinhos sem carro é complicadíssimo e quase impraticável.

Achar a casa foi um pouco complicado, apesar do endereço na mão e coordenadas detalhadas. Na rua, às 22h, nenhuma alma para informar. No fim, achamos. O churrasco já acontecia, com umas 15 pessoas. Conhecia apenas duas dela, o dono da casa e mais um. Na varanda, um pequeno palco armado. Minha chegada foi anunciada ao microfone pelo non-sense do anfitrião. Pelo menos todo mundo me conheceu de uma vez. E eu conheci aos poucos alguns.

Quem conhece o dono da casa, sabe a leseira que habita em sua boa alma. O churrasco deve ter sido planejado de último momento. Mais pessoas chegaram, mas pouco tempo ficaram. Começaram um pocket-show improvisado. Enquanto isso eu colocava o papo em dia com a Lorena. Como ela disse "eu completava ela naquele momento" e pensava "e vice-versa". Quando percebemos todo mundo tinha ido embora. Só restava o anfitrião, o amigo, eu, a minha amiga, a secretária da casa e a amiga dela. Juntamos as mesas. E papos um tanto quanto surreais surgiram.

Lembranças de carnavais e viagens passadas foram a pauta. Mas, a vida amorosa da secretária da casa e amiga foi o ponto central. Nordestina, de 41 anos, tinha acabado de chegar uma baladinhas rápida por bares "próximos" - ou seja, ladeiras a baixo. Cansada de namoros, foi categórica ao dizer "agora só quero ficar". "Fui casada 10 anos e só gozei com ele uma vez. Atraso de vida". Mantinha um affair com dois caras ao mesmo tempo, um deles taxista - o que facilitava sua locomoção ladeiras acima. Fazia pouco tempo tinha terminado um namoro com um rapaz de 16 anos. "Quem gosta de velho é caixão", contou rindo. Sua amiga confirmava todas suas histórias. "Um velho chegou para ela uma vez no baile e ela disse sai para lá que quem gosta de galo velho é panela de pressão", contou a amiga imitando o sotaque nordestino. Elas riam e a secretária completava "eu lá quero homem que dê umazinha e vire para o lado! Tem que ser umas três, duas no mínimo".

Sim, elas eram os centros das atenções. Quando começou a tocar Cartola, foram rápidas "troca essa música! Tá parecendo seu pai". "Põe na Jovem Pan. Somos jovens ainda", falou a amiga. Aliás, ela estava incômoda com as músicas que ouvia num outro programa de rádio "Muito Tribuna FM, Antena 1, põe umas músicas mais jovens, tipo a Joven Pan. Tem que levar em consideração a opinião do público".

Os amigos que tinha saído do churrasco foram para um luau na Ilha do Boi, outro bairro isolado de Vitória, menos que Fradinhos em termos geográficos e mais no sentido financeiro. Minha amiga já totalmente adaptada aos presentes incentivou de irmos para o luau. Todos animaram. E lá estava eu mantendo minha linha "exotic places". As poucas ruas da Ilha do Boi parecem fantasmas de tão deserta, a praia então... Chegando lá umas 30, 40 pessoas compunham um luau muito, mas muito roots - um roots classe A. A gente se diverte como pode.

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