| |
Foto: Divulgação
|
|
|
|
Qual a roupa ideal para ir cobrir a um baile funk? A primeira idéia foi um estilo básico: jeans, malha e tênis. Mas, teria dois problemas: eu poderia destoar muito do restante do público e não conseguiria ir até o chão nas melhores músicas. Decidi ir de bermuda, na falta da "florida que todo homem quer", fui com um xadrez que não é "feia, mas tá na moda". O visual estava completo e como eu sei cantar grande parte das músicas, dava até para me misturar. Era uma noite fria e por mais que a chapa fosse ferver, eu sabia que até isso acontecer ia sentir a friagem. Por isso, sem me importar com o eventual calor que sentiria, coloquei um casaco com capuz de moleton verde. Sozinho, eu fui pro baile.
O show da equipe Furacão 2000 Tsunami estava marcado para as 21 horas. Seria a gravação do terceiro DVD da equipe. Saí de casa depois das 22 horas. Por mais que eu não fosse funkeiro de carteirinha, sabia que essas apresentações sempre atrasam. Quando eu peguei o ônibus e visualmente ele estava lotado de "bondes" vindos de vários bairros, tive certeza que ia conseguir assistir à apresentação toda. Sentei em um dos bancos antes da roleta. À medida que o ônibus avançava, maior era a animação. O figurino era sempre uma variação de bermuda, camisa e boné - tudo de marca - para os homens, e roupas justas e mínimas para as mulheres.
A viagem rumo ao Gigante do Álvares Cabral foi toda ao som de diversos funks que saíam dos mais diversos celulares de última tecnologia. Quando o coletivo adentrou a Avenida Mascarenhas de Moraes, começou a contagem regressiva de pontos. O relógio marcava quase 23 horas. A fila da entrada era enorme. Os passageiros resolveram descer um ponto antes para ficar mais próximo do fim da fila. O motorista abriu as três portas do ônibus e todos desceram. Alguns sem pagar a passagem, pela porta dianteira - inclusive eu.
Passa o sabãozinho...
O trânsito na avenida era lento. Da entrada da sede social do clube até a entrada do ginásio a extensa fila se movia vagarosamente. É quase desnecessário dizer que os carros com seus alto-falantes potentes tocavam os hits do ritmo. Segui a pé até o portão de entrada reservado para imprensa, convidados e para quem tinha ingresso da área vip. Recebi minha pulseirinha e entrei no ginásio depois de ser totalmente revistado pela segurança - todos os meus bolsos foram olhados, até o capuz do meu casaco. Meu bloco de anotações também não escapou da vistoria - a caneta poderia ser uma arma. Enquanto eu era apalpado, o som mecânico já bombava e pude notar a arquibancada quase toda lotada. Um dos seguranças tentava se controlar para não dançar, mexer os pés era o máximo que podia fazer.
A divisão era: pista, arquibancada e cercadinho da área vip - espaço realmente pequeno colado ao palco e provavelmente proporcional ao número de ingressos vendidos para aquele setor. Lá dentro percebi que o público do funk é cada vez mais é heterogêneo. A maioria sem dúvida ainda é de negros e moradores de periferias da Grande Vitória. E, sem querer, milhões de hipóteses sobre questões raciais, de gênero e classe vêm à mente. O som era tão potente que logo elas somem.
Antes do elenco da Furacão 2000 começar seus shows, três grupos de dança serviram de entrada e aperitivo do baile. O primeiro entrou ao som de um axé music para em seguida apresentar os passos do ritmo da noite - tenho sempre a impressão que os funkeiros tendem a ser mais tolerantes com os outros estilos de música do que os apreciadores desses sons com o funk. Fiquei próximo ao palco e percebi que o som era extremamente alto a ponto de doer os ouvidos e sentir minha roupa se mover.
A turbinada da noite
A aparelhagem sonora é sem dúvida a grande vedete da apresentação. Uma grande parede com colunas e mais colunas de caixas de som no palco. Néons com o nome da Furacão Tsunami 2000 brilhavam sobre as caixas. Canhões de luzes se moviam a todo momento. No chão bem junto ao público vip, mais uma fileira de caixas de som. Tudo isso faz que o show seja uma experiência sensorial - diria até sinestésica, porque tem horas que o som arde.
O segundo grupo de dança se apresentava e entre uma música e outra o locutor anunciava as atrações principais da noite - Os Havaianos e Mc Sabrina - e que era a primeira vez que a equipe se apresentaria "completinha" fora do Rio de Janeiro. Como no primeiro grupo, os dançarinos homens causavam mais euforia nas mulheres (e nos gays "invisíveis" a olho nu) que gritavam a cada rebolada e levantada de camisa. As dançarinas mulheres não empolgavam tanto, algumas até estavam desanimadas ou não levavam "jeito pra coisa", como comentou um rapaz do meu lado. O terceiro e último grupo foi bem rápido. Finalmente era hora da Tsunami passar.
As luzes iluminação do ginásio se apagaram restando apenas o jogo de refletores das caixas de som e os néons. Uma névoa de gelo seco tomava conta de tudo. Labaredas de fogos explodiam no palco e uma chuva de papel prateado picado saia de dois canhões. O som estourava de tão alto. Na primeira batida, o famoso e antigo hino da Furacão foi identificado e em coro (aos berros) todos o cantavam:
F de Força
U de União
R de Rainha do movimento que é bom
A de Amizade
C de Coração
A de Autoridade
O de Organização
Equipe poderosa
FURACÃO 2000
E quem não gostou?
Vai para puta que pariu!
ÔO FURACÃOOO FURACÃOOO
Equiquiquipepe equiquipepe equiquipepe poderosa!
O pancadão começou - e em uma arquibancada a pancadaria também. "É para segurar a onda porque senão o DVD da Furacão vai ter vai ter três ou quatro babacas brigando". O som continuou, mas as luzes foram acesas: o baile começou de vez. O primeiro a se apresentar era o Mc Kadú. "Deixa a gatinha dançar", ele cantava na companhia de algumas popozudas e mais um convidada catada da platéia. O diferente era que Mc Kadú não se vestia como funkeiro (estereótipo) - sua calça era xadrez como a minha bermuda.
Não dá para descrever show por show. Todos basicamente, eram como mulheres dançando e poucas cantando - apenas duas Mc's, Juliana e Sabrina. Jefinho Faraó, o único capixaba da noite, agitou todo o Álvares de maneira quase frenética. Outras meninas da platéia subiram e dançaram sem tirar nenhuma peça. Cada apresentação seguia as diversas variações do funk, seja na batida quanto na temática. Mas, sem dúvida, os mais esperados foram os que a gente não sabia se dançava ou se assistia. Em suma, Os Havaianos dominaram tudo.
Vem que vem quicando...
Entre uma apresentação e outras sempre rolava uma ida rápida ao bar. Porém, como a Lei de Murphy não respeita nem baile funk, na hora que mais demorei a ser atendido anunciaram a entradas d'Os Havaianos.
Vem que Vem Quicando! e
Passinho do Bonequinho pareciam que por si só bastavam, mas não. Os Havaianos, um quarteto de quatro rapazes, é um show de dança e expressão corporal sem precedentes na noite.
Eles conseguem coisas impossíveis com o corpo. Uma elasticidade. Fazem som com a boca. São ultra-sincronizados. Toda a arquibancada, pista e área vip, lotadérrimas, ficou boquiaberta e aos gritos com cada um dos integrantes do grupo. Sabe-se lá porque o show foi bem curto - será porque era bom? Sem a menor dúvida, Os Havaianos poderiam cantar e dançar por horas.
A minha única pergunta para eles seria (ou melhor, é): como vocês conseguem? Para mim, assim que eles saíram do palco foi como se o Furacão tivesse passado e ia demorar a voltar. Fiquei para o final, mas era como já estivesse no ônibus de volta com o "bonde dos cansados".
|