Vitória (ES), edição de 29 de julho de 2008    
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Erly, o tagarela (um relato sobre ontem)



Leonardo ViSo



  
Foto: Divulgação
  

Primeiro, eu recebi um e-mail, depois um scrap. Respondi. Depois, veio um telefone, outro e eu mandei um torpedo SMS. A intenção era acompanhar algumas horas do escritor e cineasta Erly Vieira Jr. Seria uma entrevista relativamente simples, para falar sobre o lançamento de Algumas Estórias, coletânea em DVD com seus quatro primeiros filmes curtas-metragens - Macabéia (2000), Pour Elise (2004), Saudosa (2005) e Grinalda (2006). Porém, ele consegue falar de tantos assuntos ao mesmo tempo, que eu corria o sério risco de depois passar horas, talvez dias, transcrevendo tudo o que ele falou (quase tudo).

Nessas horas, a gente usa a internet como escudo. "Erly, infelizmente, terei que te entrevistar por e-mail", avisei a ao telefone. Já que era para soltar a voz, que ele pelo menos me ajudasse a digitar. Era para ser uma simples ligação, mas no final de 30 minutos, ele já tinha pincelado as respostas de metade das perguntas, falando de música, cinema e literatura, me passado sugestão de pelo menos cinco pautas - com encaminhamento, fonte e fotografia de ilustração. Quando ele começou a me entrevistar, achei que era hora de ligar. "Vou mandar o e-mail para você agora, tchau", desliguei rapidamente.

Menos de dois quartos de hora depois, Erly me liga e me pergunta se não poderia responder às perguntas por messenger. Inventou uma explicação louca acompanhada de vozes ao fundo. Desde que começou a misturar ficção com documentário em seus trabalhos, fica difícil não conversar com ele sem ultrapassar em ziguezague a fronteira entre a imaginação e a realidade. No final, a confusão é tanta que todo mundo se diverte. Erly não gosta de ser rotulado, mas ele é um tagarela. E definitivamente, isso não é defeito.

O bate-papo a seguir foi feito numa lan house no bairro de Tabuazeiro, perto do Recreio dos Olhos, com vista para a Pedra dos Dois Olhos. O combinado era fingir que cada um estava na sua casa. Mas, volta e meia Erly me cutucava e mandava links ou comentava sobre alguma cena que acontecia na rua em frente. Apesar de toda a dispersão, ele ainda fala sobre o lançamento do DVD, relembra outros acontecimentos do primeiro semestre de 2008 e ainda conta um pouco sobre os projetos futuros. Detalhe em off: não pagamos a lan house e não poderemos voltar nos próximos meses à região da grande Maruípe.


  
Foto: Divulgação
  
Erly, em uma época de dispersão e descontextualização - a gente acaba muitas vezes só vendo partes e cenas de uma obra - como surgiu a idéia de reunir seus curtas-metragens em um DVD?

Bom, as pessoas sempre me paravam na rua e perguntavam onde ver meus curtas. Numa hora dessas, o que eu poderia responder? Afinal, os curtas passam em mostras, ocasionalmente em programas locais de TV, espaços alternativos e não havia um lugar para as pessoas encontrarem os curtas. Como eu já tinha quatro curtas (tinha acabado de finalizar o Grinalda), pensei em reuni-los num DVD, para que pudesse ser comercializado, locado de modo que as pessoas pudessem ter os curtas em casa e vê-los e revê-los à vontade.

Qual seri....

Peraí!

Terminou não?

Mandei o projeto pra Lei Chico Prego e, nesse meio tempo, houve a Mostra Curta Grav. Pela primeira vez, meus (então quatro) curtas foram exibidos em conjunto, cronologicamente organizados e debatidos. Foi interessante perceber e discutir as ligações entre os quatro.

Qual seria o melhor adjetivo para ilustrar como você se sente com esse lançamento?

Adjetivo? TRANSBORDANTE. É que tenho passado por uma fase de transbordamento criativo, muita produção e ver o resultado disso tudo me deixa muito empolgado.

Tem algum catalisador especial para tal transbordamento? Qual seria a gota d'agua?

Catalisador? Bom, o meu momento atual é o resultado de um percurso bem pessoal intensificado nos últimos anos com a adesão ao vídeo como poética e ao mesmo tempo meio de produção. Digamos que fui, a cada filme ou livro, descobrindo um caminho meu, experimentando e aprendendo com os resultados. Principalmente a partir do Pour Elise, a primeira vez em que dirigi um filme sozinho. Nele, depois de perder o medo de dirigir com Macabéia, pude me sentir a vontade para experimentar. Em Macabéia já tinha intertextualidade e uma certa ironia.

Em Pour Elise, aumentei a ironia e somei a isso à metalinguagem para confundir, ainda que timidamente, real e imaginário. Falas inteiras dos personagens nesse filme foram extraídas das experiências pessoais de alguns atores. No Saudosa a ironia e a metalinguagem foram levadas ao extremo. Até porque ambas já eram presentes tanto no meu trabalho quanto no do Fabrício Coradello (o outro diretor e roteirista). Em Saudosa, pela primeira vez pude improvisar ao trabalhar com um elenco composto quase totalmente por não-atores.

Em Grinalda, a improvisação foi assumida como ponto de partida para explorar a linguagem e, radicalizando uma coisa que já me empolgou muito em Saudosa (o uso de equipe reduzida). Simplifiquei o set até reduzi-lo a mim e à atriz, tomando a liberdade de usar a câmera como uma espécie de caneta com direito a rasurar o que escrevia o tempo todo.

Eu que Nem Sei Francês [o mais recente trabalho de Erly] radicaliza isso, ele todo trabalha com o acaso em diversas instâncias. Por ser um plano-seqüência, o acaso está no improviso da atriz, na quase impossibilidade de dirigi-la sem me manifestar visivelmente em cena (nem sonoramente, tive que fazer tudo em silêncio), o acaso dos reflexos de Letícia na tela, o acaso das listras na imagem, aquelas conhecidas interferências de quem grava a tela do computador e por aí vai. Mantendo o tempo todo ironia, metalinguagem, intertextualidades diversas sem, contudo, ter isso como uma obrigação ou camisa de força. Eu simplesmente concebo meus trabalhos assim o tempo todo. Já incorporei essas três instâncias na minha linguagem cotidiana desde adolescente, creio eu... (risos)

Você uma vez comentou que errou tudo o que tinha que errar em Pour Elise para não errar depois. Acha que esses erros foram por conta dessa timidez em confundir o real com o imaginário?

Não sei se errei TUDO que tinha pra errar. (risos) Mas fiz questão de errar bastante. Errar no sentido de experimentar, arriscar, tentar contar uma história da forma mais diferente que eu pudesse naquele momento afrouxar o máximo possível a narrativa bem-amarradinha para daí ver surgir uma fala realmente minha. Ok, eu sabia que era capaz de fazer um roteiro redondinho, o Macabéia tinha me mostrado que isso era possível, mas eu queria era justamente ir atrás de arestas. Aprender a conviver com as arestas das estórias. Foi na mesma época em que comecei a escrever contos, que mais tarde seriam reunidos no -sse [livro de contos lançado este ano]. Foi também uma época curiosa, eu vivia em Vitória e estudava em Niterói. Adorava aquela confusão de estar a cada hora numa cidade diferente e como fui fazer o mestrado na UFF, no meio do povo que estudava cinema, o espírito de experimentação tomou conta de mim de uma forma bem intensa. Intensa, pelo menos para meus parâmetros de então (risos).

E qual foi a principal mudança de parâmetro entre o Erly de Macabéia para o de Grinalda/Eu que nem...?

Perguntinha difícil, hein? (risos) Deixa eu pensar...

(Isso vai entrar na matéria, aviso...)

Confesso que nunca parei para pensar...

(Aliás, caso você chore, em algum momento, avise. Sempre quis escrever "choro")

Quer dizer... Ops... Pode dizer pros seus leitores que não foi dessa vez que você conseguiu realizar seu desejo de escrever "choro". Eu só choro vendo filme e lendo livro e ouvindo música.

(Aí, como essa matéria vai me dar trabalho, hahah)
Então, voltando: não tem resposta mesmo para a mudança parâmetro, né?


BOM, eu acho que o Erly de lá pra cá desenvolveu uma escrita própria, mas que ainda está em processo. Posso dizer que tive mais tempo para explorar algumas questões com calma no que tange à linguagem audiovisual e, acho que o mais importante foi finalmente fazer uma confluência entre o Erly escritor e o Erly cineasta. Pensa bem, eu lancei um livro de poemas, em 1999 [Contraponto, reta, plano], bem escrito, tecnicamente falando, mas com pouco de mim naqueles poemas, e um filme em 2000, cujo roteiro, de minha autoria, já trazia uma ironia bem pessoal, mas que era bem difícil perceber afinidades entre o Erly poeta e o roteirista. Nesse meio tempo, uma instância foi influenciando a outra. O Erly escritor desdobrava coisas que o Erly cineasta lançava. Uma coisa começou a reverberar na outra. Por exemplo, lancei um livro de contos em primeira pessoa (-sse), misturando real e ficção sem cerimônia alguma tal qual tenho feito nos últimos 3 ou 4 filmes.

Pois é, você volta e meia diz que é um escritor que as vezes filma algumas estórias, algum dia pode ser o contrário? Para que caminho sua produção cinematográfica vai. Seria essa confluência(ficção/real escritor/cineasta)?

Hahahahaha. Como eu gosto de me "inspirar" em meus ídolos - O Reinaldo diz que literatura só se faz com ironia, e eu assino embaixo; o Lando fala que o Lando pintor, o Lando fotógrafo e o videomaker fazem uma coisa só: pintura; o Helio Coelho diz que tem a mão tagarela, que não se cansa de desenhar. A minha é tagarela de tanto escrever... risos)

(uso esses parênteses também ou não?)

Ah, se ficar legal, usa. Os três são meus ídolos confessos. Eles e o Waldo Motta que me ensinou a não temer as palavras e a explorar ao máximo os sentidos delas. Digamos que eu me inspiro em quatro artistas com os quais tive a oportunidade de conviver e que muito me influenciaram, tanto quanto os grandes nomes do cinema e da literatura... Mas, voltando à resposta...

Prefiro pensar que o que faço é uma coisa só. Cada vez mais em primeira pessoa. Cada vez mais lançando um olhar meu sobre o cotidiano misturando meu mundo imaginário e o cotidiano real sem cerimônia alguma. Engraçado que tenho assumido cada vez mais um lado de documentarista. Um de meus projetos futuros é um documentário sobre alguns artistas plásticos daqui que fazem ficção. Eles criam universos próprios em suas obras. E como eu já trabalhei muitas vezes com alguns desses artistas, alguns coincidentemente participam do meu cotidiano, não vai ter como o documentário não ter um caráter de primeira pessoa. Cada vez mais eu tenho feito da minha produção cultural um grande diário.

O público já se confunde entre a ficção e a realidade em sua obra. E você não tem medo de começar a se confundir? O que impediria você de não misturar as coisas?

E é tão importante assim distinguir uma coisa da outra? Os artistas que mais admiro sempre fizeram de sua vida e de sua obra uma coisa só - Kafka, Genet, Borges, Duchamp, Fellini, Drummond, Bandeira. Não que eu acredite numa concepção romantizada do fazer artístico. Muito pelo contrário. Mas exatamente porque não vejo glamour algum em ser artista que eu acredito que dá pra fazer disso tudo uma coisa única.

O ano de 2008 ainda está no começo do segundo semestre e você já teve grandes êxitos. Vamos listá-los: publicação do livro -sse, vencedor da Mostra Independente de Curtas - Desconstrução, e agora, o lançamento da coletânea. O que ainda falta acontecer? Acha que tem uma conjunção astral a seu favor ou resolveu lançar tudo de uma vez?

Acho que é meio que uma coincidência. O DVD atrasou um pouco, estava previsto para o começo do ano, mas questões técnicas atrasaram seu lançamento. Então, como estava próximo o lançamento do livro, resolvi segurar o DVD um pouco e nesse meio tempo o vídeo ganhou o prêmio (que, confesso, foi totalmente inesperado). Atualmente, estou na pré-produção do projeto aprovado na Rubem Braga, cuja execução deve tomar todo o ano 2009 (O documentário sobre artistas plásticos). E antes disso espero finalizar Avenca, terceiro trabalho em parceria com Letícia.

- Aproveitando que tocou no assunto... O que você pode adiantar sobre o seu próximo curta, Avenca, que também tem a participação da Letícia Braga. Já foi filmado, quando é a previsão de lançamento? Depois dele vai dar um tempo de trabalhar com a Letícia ou ela virou sua atriz-fetiche?

Não quero dar detalhes... (risos) A única coisa que posso dizer é que ele está sendo finalizado. Sobre o projeto da lei, chama-se Cartografia. É um documentário sobre alguns artistas plásticos daqui e eu já antecipei um pouco da pesquisa dele em alguns dos textos publicados na minha hibernante coluna do Século Diário. Prefiro fazer suspense do resto. (risos).

A sua obra é ligada sob a licença do creative commons. Fale um pouco disso de disponibilizar os trabalhos.

Eu acho importante a gente repensar a questão dos direitos autorais. Se a internet facilitou o nosso acesso a produtos culturais diversos, graças aos downloads, o mínimo que eu poderia fazer seria liberar o download de meus trabalhos uma vez que muitas das minhas referências audiovisuais só chegaram a mim via internet. Graças a ela, tenho tido contato com obras raras - filmes, livros, discos - que jamais teria como conhecer. E se eu puder contribuir para fortalecer e estimular o uso de licenças flexíveis, eu vou fazer a minha parte. O que me interessa é que as pessoas tenham acesso a meu trabalho, tanto que eu estimulo a copiagem caseira do dvd, sem fins lucrativos. Pode copiar e dar de presente. Simples assim.

Para finalizar. Com esse acesso a internet e a tecnologia de modo geral, o número de compradores de DVDs (e demais mídias físicas) é pequeno. Você acha que alguém vai comprar seu DVD? Se sim, quem e por quê?

Eu acredito que o DVD "oficial" tem suas vantagens: a mídia dura mais, o encarte contém informações interessantes, fotografias e outros mimos para quem quiser colecionar ou dar de presente. Além disso, tem o ineditismo do projeto: raros diretores brasileiros lançam DVDs de seus curtas, eu sou o primeiro capixaba a reunir os meus num único volume. Se o DVD oficial vender, eu vou adorar. Mas, seria legal também saber que ele foi bastante copiado ou baixado e que as pessoas puderam ver os curtas e comentá-los por aí. Eu ia ficar orgulhoso de achar meus curtas nos emules da vida, um dia...(risos)

Serviço
O cineasta Erly Vieira Jr. Lança nesta quarta-feira (30), em parceria com Instituto Marlin Azul, às 21h, no Cine Metroplis, o DVD Algumas Histórias, que reúne seus quatro primeiros curtas-metragens. Av. Fernando Ferrari, s/n, Ufes, campus de Goiabeiras, Vitória. Informações: (27) 3335-2376 . O DVD será vendido a R$ 10.

Saiba mais!
Clique aqui e veja Eu que Nem Sei Francês.

Clique aqui e leia a crítica de Rodrigo de Oliveira sobre o percurso cinematográfico de Erly Vieira Jr.

 

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