| |
Foto: Divulgação
|
|
|
|
Erly Vieira Jr sussurrava. Tentava manter um tom normal de voz. Estaria ele dentro do cinema, assistindo aula ou escondido? Ele respondeu que estava numa biblioteca. Pediu um tempo de trinta minutos. Provavelmente para dar tempo de jogar mais uma rodada de pique-esconde. O relógio marcava 15h34. Nesse intervalo daria para ler pelo menos um conto do novo livro de Erly, intitulado
-sse, que será lançando junto com de outros quatro autores capixabas - de nascimento ou não.
Quando deu 16h02, voltei a procurar Erly. Já tinha folheado o livro todo e lido todos os primeiros parágrafos de cada um dos "14 exercícios ficcionais narrados em primeira pessoa" como explica a orelha de
-sse. Aliás, é uma orelha bem tagarela que segundo Erly "já diz tudo" e completa a definição da obra como "um ou outro fragmento autobiográfico em meio a um monte de mentiras deslavadas...". Um jogo de verdadeiro ou falso.
"O uso da primeira pessoa tem essa característica de confundir o leitor que fica dúvida se é confessional ou não", conta Erly. O escritor explica que vem fazendo essa confusão entre ficção e a realidade faz tempo. "Vou brincando, jogando entre o autobiográfico e o que não é", completa. Seja na literatura, seja no cinema. Não podemos esquecer: Erly faz filmes ou como ele se define "é um escritor que às vezes escrever para o audiovisual". Ele também estuda, dá aulas e outras tantas outras atividades. No final ele afirma "estar mergulhado em ficção".
Apesar da sua atividade cinematográfica, Erly afirma que não adaptaria nenhum dos contos do livro para o cinema. Não acha que nenhum deles funcionaria como um curta metragem. E adaptação nem seria uma novidade para ele que tem no currículo a co-direção do curta
Macabéia, inspirado no livro
A hora da estrela Clarice Lispector. A propósito Erly deixa claro que Clarice não é uma influência direta para sua escrita por mais que as pessoas façam essa relação. "Será que terei que carregar essa marca como karma?", brinca o escritor.
Os autores "ilusionistas" como Jorge Luis Borges, Julio Cortazar e Reinaldo Santos Neves são os que mais "fazem a cabeça" de Erly. "Outros autores acabam influenciando se a gente pensar que é um pouco de tudo que lemos. Mas, nem sempre é uma influência consciente", conta. No caso de
-sse, nem os ilusionistas o influenciaram diretamente. O livro foi resultado da união de contos que surgiram das mais diversas experiências fragmentadas, cotidianas e contemporâneas do autor - além da cultura pop, principalmente música.
"O livro não nasceu pronto. Alguns contos nasceram antes. Fui tomando gosto pela ficcionalização em primeira pessoa. Algumas coisas não davam para fazer em cinema e nem em poesia (gênero em que ele já lançou um livro)". Nessas horas, "sobra" a prosa - na verdade, sobram muitos outros suportes. Erly conta que a migração para a prosa coincidiu com o momento que ele se dividia entre três cidades: Vitória, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. "Minhas referências de tempo e espaço se confundiam. Já que confundia os dois, por que não o sujeito do texto? Acabei tomando gosto em trabalhar esse tipo de narrativa em primeira pessoa", diz.
Erly ainda aborda outras questões. Assunto não lhe falta e nem mesmo uma batucada estudantil o interrompe. Pelo contrário ele se afasta dela e fala ainda mais. Se empolga em contar sobre a brincadeira de verdadeiro e falso de seus textos e ainda pergunta "Você já conversou com a Andréia Delmaschio? Ela também trabalha isso", pergunta se referindo a autora de
Mortos Vivos, outro livro que será lançado junto com os de Erly e dos demais autores - Alessandro Darós, Elton Pinheiro e José Irmo Goring.
Uma conversa em três ligações
| |
Foto: Divulgação
|
|
|
|
A primeira tentativa de falar com Andréia Delmaschio terminou em uma mensagem de secretária eletrônica, em "inglês default". A segunda, a terceira e a quarta também. A quinta foi atendida por alguém de verdade, mas Andréia não estava. Horas depois, consigo. Após colocar um bebê no berço, ela pode conversar comigo. O assunto era
Mortos Vivos, seu novo livro. Começa a primeira ligação.
Mortos Vivos é no mínimo dois livros, onde a autora extrapola todos os limites entre realidade e ficção. Narração em primeira pessoa e mistura de experiências reais e outras nem tanto. Alguns pontos de partida são os sonhos/pesadelos que ela teve anotou em um livro de sonhos. E ainda tem pitadas de morte como tema recorrente - mas, sem assombrar ninguém.
Parte de
Mortos Vivos é fruto de um livro de sonhos que Andréia vem preenchendo depois de cada noite de sono. "Comecei a anotar os sonhos e pesadelos com a idéia de fazer um livro de sonho, e nem foi por recomendação de psicanalista", explica. Os sonhos/pesadelos foram se acumulando e ela percebeu que havia correspondência entre eles. A bateria do telefone acaba.
Volto a ligar para Andréia e retomo a conversa do ponto em que tínhamos parado. "Pensei que tivesse desligado, por não ter gostado da resposta", brinca. Alguns dos sonhos de Andréia acabaram por ser tornam premonitórios. Ela sonhou e alguns aconteceram. Coincidência ou sensibilidade alta?
Os textos que tratam sobre a morte fogem do ar macabro. A morte é tratada sem muita solenidade. "Cada cultura trata a morte de um jeito. A morte hoje com tantas tragédias que vemos ficou algo não solene", afirma Andréia. A morte porém não é tratado como um tema propriamente dito, para a escritora, morte e vida não se separam. "Nós somos mortos. A gente já vive meio morto nessa sociedade", fala.
Da mesma forma que Erly Vieira Jr gosta dos escritos dela, Andréia Delmaschio também "gosta muito do Erly escritor". Assim, como o autor de
-sse, ela também mistura realidade e ficção em seu livro. A interseção é tão grande que muita gente acredita que a imaginação aconteceu de verdade.
Durante seu doutorado, Andréia resolveu transformar seu "objeto de pesquisa" em personagem de ficção. Seria mais um exercício literário se ela não estivesse escrevendo sobre Chico Buarque. "Eu já tratava o Chico na tese como uma personagem. Resolvi então escrever crônicas sobre encontros com ele e comecei a mandar esses textos para os amigos, mas eles interpretaram como se fosse real", conta a escritora. A riqueza dos detalhes descritos por ela eram determinantes para que as pessoa acreditassem e ficassem ainda mais curiosas. "A partir dessa experiência comecei a gostar desse jogo entre o que é vivido e o que é inventado", comenta. A ligação cai novamente.
Terceira e última ligação. Entre o intervalo das ligações Andréia ficou pensando como eu iria organizar tudo que ela tinha falado. Preocupada com as informações e compreensão dela. "Você está gravando o que estou falando?". Para tranqüilizar, mesmo que não houvesse nervosismo, disse a ela que no final sempre é a minha interpretação sobre as palavras dela. "É esse meu medo", afirmou. Ela deve saber que jornalista também adora criar em cima da realidade.
Serviço
Lançamento de cinco livros do edital 06/2006 da Secult
Garimpo de Estrelas;
-sse;
'Sqizo ou As Patas do Velho Sátiro;
Mortos Vivos; e
Orações com vícios de linguagem, terça-feira (05), as 18h30, no Salão São Thiago, Palácio Anchieta, Vitória.
Saiba Mais
Clique aqui e leia sobre as outras obras
|