Bispo das regiões norte e noroeste capixaba, que inclui o Sapê do Norte - tomada por eucaliptais que provocam enormes danos ambientais e sociais -Dom Zanoni Demettino Castro, de São Mateus, visitou as fábricas da transnacional Aracruz Celulose em Barra do Riacho, no município de Aracruz, norte do Estado. A informação foi publicada pela empresa.
Sapê do Norte é o território negro formado por Conceição da Barra e São Mateus. Com o título "Bispo de São Mateus visita a Aracruz", a Aracruz Celulose informa que "o clérigo foi recebido por gestores e pelo diretor de Operações da companhia, Walter Lídio Nunes, e conheceu mais sobre a história da empresa, sua evolução, patrimônio, composição acionária, mercado, público interno, projetos sociais, Programa Produtor Florestal e os desafios atuais".
Informa ainda que "na ocasião, Dom Zanoni visitou a área industrial, o terminal de barcaças da Portocel, o viveiro de produção de mudas de eucalipto e o programa Produção Integrada de Madeira e Alimento (Pima) de Cachoeirinha, em Aracruz".
Segundo o site da diocese de São Mateus, "Dom Zanoni Demettino Castro nasceu no dia 23 de janeiro de 1962 na cidade de Vitória da Conquista". O bispo estudou filosofia no Seminário Maior Arquidiocesano de Brasília e Teologia no Instituto Teológico de Ilhéus-BA. Após sua ordenação sacerdotal licenciou-se em Teologia Dogmática pela Universidade Católica do Rio de Janeiro. Foi ordenado sacerdote no dia 28 de dezembro de 1986.
O bispo baiano substituiu Dom Aldo Gerna, que nasceu na Itália. Gerna, quando ordenado bispo de São Mateus, cunhou uma frase que correu o mundo: "Vou acabar bispo de bois e eucaliptos com a entrada da Aracruz Celulose em São Mateus".
No final de sua carreira, Gerna mudou de lado: deu para criticar os quilombolas na luta contra Aracruz, dizendo que eles querem fazer uma republiqueta negra. Aldo Gerna chegou a ser condecorado pelo governador Paulo Hartung com a comenda Jerônimo Monteiro. Hartung é o principal aliado da empresa no Estado.
Dom Zanoni Demettino Castro é negro e segundo o site da diocese que dirige, entre outras funções que desenvolveu foi "professor de Teologia Dogmática no Instituto Teológico de Ilhéus; professor de Doutrina Social da Igreja no Instituto Filosófico de Vitória da Conquista; presidente da Comissão dos Presbíteros do Regional Nordeste III da Conferência Episcopal, e participou da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano como convidado".
A Igreja Católica informa ainda que Dom Zanoni Demettino Castro "foi nomeado pelo Papa Bento XVI terceiro Bispo da Diocese de São Mateus - Espírito Santo, no dia 3 de outubro de 2007, ano que completou 20 de sacerdócio e 45 de idade. Ordenado bispo no dia 24 de novembro de 2007 em Vitória da Conquista - Bahia e tomou posse da Diocese de São Mateus na Catedral Diocesana no dia 15 de dezembro de 2007 com o lema: "Ecce mitte me" (Eis-me Envia-me)".
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Transnacional demoníaca
A Aracruz Celulose é famosa por ser de empresário da família Lorentzen (foi criada por Erling Sven Lorentzen, hoje substituído por Haakon Lorentzen), ligada à coroa norueguesa. É famosa também por produzir celulose de qualidade, usada como matéria prima principalmente de papel higiênico produzido na Europa, Ásia e nos Estados Unidos da América. A empresa também é conhecida por sua alta rentabilidade no mercado financeiro.
A transnacional Aracruz Celulose é mais famosa, contudo, por ter destruído, só no Espírito Santo, cerca de 50 mil hectares de mata atlântica primária e toda a sua biodiversidade. Sem contar que a empresa desestruturou e por pouco não aniquilou completamente no Espírito Santo os índios Tupinikim, em Aracruz, e a comunidade quilombola do norte, além de prejudicar camponeses, em todo o Estado.
A empresa foi instalada com dinheiro público dos brasileiros, há 40 anos, em plena ditadura militar. Na ocupação da área agrícola capixaba o uso da força foi comum. Os quilombolas do território do Sapê do Norte ou eram seduzidos com falsas promessas de emprego e de boa vida na cidade, ou saíam à força, com a terra paga a preços vis. O território negro no Espírito Santo é de aproximadamente 50 mil hectares, ocupados principalmente pela Aracruz Celulose, e por empresas sucroalcoleiras e fazendeiros.
Neste processo de violência, a Aracruz Celulose empregou contra os negros os serviços do tenente Merçon, no Exército. A empresa também contou com serviços do matador profissional major PM Orlando Cavalcanti, neste caso contra os índios e posseiros, em Aracruz (dos índios foi tomado um território de cerca de 40 mil hectares).
A ocupação do território quilombola provocou uma diáspora dos negros, que passaram a ocupar as favelas nas cidades próximas, ou até na Grande Vitória. Só conhecendo os trabalhos da lavoura, a maioria passou a viver de biscates. Muitos jovens se prostituíram e outros foram lançados na criminalidade.
Pesquisas apontam que em Sapê do Norte existiam centenas de comunidades na década de 70, e hoje restam 37. Ainda na década de 70, pelo menos 12 mil famílias de quilombolas habitavam o norte do Estado: atualmente resistem entre os eucaliptais, canaviais e pastos cerca de 1,2 mil famílias. Em todo o Espírito Santo existem cerca de 100 comunidades quilombolas.
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