Nada de almas desajustadas, nada de corações atribulados. Nada de
sex, drugs & rock n' roll.
Toda Terça começa aparentemente banal, Laura explicando a seu psicanalista um sonho em que atravessa o deserto do Atacama. Horas e horas atravessando o Atacama. Nada demais. A não ser o fato de que o livro se desenrola nesse tom aparentemente banal com que começa. Aí mora o perigo.
Segundo livro e primeiro romance da escritora Carola Saavedra - chilena que vive no Brasil desde os três anos de idade -
Toda Terça (2007) dialoga tematicamente, segundo dizem os críticos, com os escritores de sua geração, isto é, de uma ou de outra forma, todos falam, direta ou indiretamente, de uma juventude sem rumos, objetivos ou anseios. Se deliberadamente ou não, pouco importa. Mas tal convergência temática é inquestionável.
Mas, voltando ao tom aparentemente banal...
Toda Terça é dividido em três parte: estruturalmente, a primeira se alterna entre as sessões de análise da verborrágica Laura - que acontecem toda terça-feira, com o pragmático e cartesiano Otávio, o psicanalista - e a vida do latino-americano Javier em Frankfurt ao lado da alemã Ulrike, estudante de antropologia; as conexões vão se fazendo ao longo da história. A segunda, e mais densa, fica a cargo de Camille.
Tanto Laura, jovem de vinte e poucos anos, quanto Javier, também jovem nos seus vinte e poucos, vivem ao sabor das horas. Mas, isso é bem legal, suas pálidas existências não lhes dão uma ar de gente enfastiada. Com Laura, pelo menos, muito pelo contrário. Com Javier até certo ponto também não.
A moça tem senso de humor e é pródiga em sacadas irônicas. Também pudera, Otávio, o estereótipo do analista/cientista é um prato cheio para ela: Laura fica boa parte do tempo maquinando, interiormente, um jeito de passar uma rasteira em Otávio. Seria a glória vê-lo desabar do alto do pedestal do analista imperturbável, matematicamente frio, cientificamente distante de seu objeto.
Nascem daí diálogos divertidíssimos e comentários irônicos que Laura faz de si para si sobre seu analista:
Otávio era assim, para ele tudo tinha uma explicação, uma força escondida que motivava o agir, o pensar, por que você virou à esquerda e não à direita?, por que você prefere o vermelho ao azul? por que você disse "casa" e vez de "janela"? (...).
Na Europa temos a vida errante de Javier, o latino-americano que já
havia carregado malas no aeroporto, cuidado do jardim de um cemitério, distribuído panfletos no ponto de ônibus, vendido legumes no mercado, e servido mojitos e caipirinhas num bar da moda, nada que durasse mais que algumas semanas. Uma vida sem luz própria, que segue firmemente rumo a lugar nenhum.
Seria Javier um niilista? Um cético? Um desencantado a lamuriar a vida em arengas românticas? Nada disso. Se assim fosse,
Toda Terça seria um livro "fácil" demais, o enredo desembocaria mole,mole no óbvio. E o livro correria o sério risco de se transformar numa novela mexicana filosófico-existencial. O que faz de Javier um personagem bem construído é que, apesar de sua falta de rumo, ele é consciente de si, de sua condição e de suas possibilidades. Mas... por breves momentos.
Olha só o que ele nos confessa:
...porque as coisas iam acontecendo sem que eu tivesse controle sobre elas, já havia algum tempo que tudo ia acontecendo por vontade própria, numa espécie de geração espontânea [...] eu explicava a Ulrike, que não entendia por que eu me encontrava naquela situação, logo eu, um homem tão inteligente, tão culto, que poderia fazer qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, ela insistia [...]. E mais adiante:
Se eu quisesse, eu poderia qualquer coisa, qualquer lugar e, num piscar de olhos, todas as dúvidas e todos os dias seriam outros. Seriam, Javier, seriam...
Javier permeia e perpassa toda a contida dor de Camila, a terceira personagem, a dramática narradora da segunda e última parte. Depois de uns tempos na Europa - ela aparece rapidamente na primeira parte, flertando com Javier - ela retorna e está agora no apartamento de Laura.
A presença de Camila recombina e preenche algumas passagens que ficaram "suspensas" na primeira parte. Tudo se completa, os vínculos entre os três se estabelecem. Javier é um ponto comum a ambas: é o garoto do cinema que teve um caso com Laura; é o garoto que, apesar de Ulrike, toda terça (opa!) ia ao apartamento de Camila, com quem dividia cama, mesa, banho, sonhos e planos. Por fim, saberemos que Laura e Camila são amigas de infância.
A experiência com Javier não foi em vão para Camila. Embora longe no tempo, há outra coisa, bem trabalhada por Carola, que torna Javier muito mais que "uma foto no computador", como ela insiste em repetir para si mesma: a memória. Embora longe no tempo, Javier ainda pulsa vivamente na alma de Camila. Isso é a memória afetiva, para a qual o tempo daquele relógio na parede da cozinha não existe. O tempo da memória é outro.
A bem construída experiência mnemônica de Camila que a faz um personagem mais especial. Tanto mais em outra passagem. Na cozinha, ela se surpreende com o cartão-postal que enviou à Laura quando estivera na Grécia, mais ainda com a própria letra. Mais ainda com o que escrevera. Era ela, mas ela não se viu ali. Entre a Camila que foi à Grécia e a de agora, no Leblon, muita coisa fez girar a roda da vida.
Por isso, Laura, embora uma amiga de infância, é uma estranha. Agora podemos falar: Camila estranha o tempo todo os modos e as conversas de Laura. Não há a mínima diferença entre aquele cartão-postal e a amiga de infância, ambos, estes sim, pálidos retratos dela mesma, Camila. São lembranças que só vêm à tona quando ativadas mecanicamente (uma foto no computador, um cartão-postal na geladeira...).
O que sobra a Camila, senão a memória de Javier? Pouca coisa. Laura passou, a Grécia passou e Javier... está passando. Só lhe resta a uma dor solitária e silenciosa. E lhe resta a solidão. Dos três, Camila é que a sente mais esmagadoramente: Laura, embora perto, está mais longe do que nunca; e Javier, embora longe, está mais perto do que nunca. Mas não fisicamente, como Laura. Não há mais para onde ir.
Vale dizer que a sua intensidade é potencializada por uma certa tática narrativa, também explorada em Javier e nos sessões de análise de Laura, mas que alcança maior êxito em Camila: o de misturar ou amalgamar o monólogo interior/presente com um comentário/diálogo já passado.
Não entendeu? Vai então um exemplo:
Encostada no parapeito da janela, eu observava a cidade a preparar-se, lenta, [...], enquanto a voz de Laura, quase um contraste, chegava inquieta, intermitente, sorrindo como se a minha presença fosse um motivo de intensa alegria, como se a minha presença fosse a culminância de uma espera longa e custosa, eu quero que você se sinta à vontade, que você se sinta na sua casa, Laura se aproximava, olha, você vai me prometer que não vai fazer cerimônia....
Presente e passado se misturam numa frenética torrente frasal como que para não interromper o fluxo interior da narradora. Um instrumento narrativo que só faz ressaltar o drama interior, a confusão interior de Camila.
A intenção não é "sociologizar" o livro, tampouco tomá-lo como um retrato de uma geração - ainda que ele diga muito sobre uma certa geração, que, como Laura, Javier e Camila, agora está nos seus vinte e poucos. Velhos engajados, com ranços de 68 e o travo amargo dos sonhos fracassados no peito, poderiam acusá-la de "alienada". Sim, naquele velho sentido pejorativo (haja saco!), que pode traduzir-se em "cidadão-que-politicamente-por-escolha-própria-é-um-pouco-mais-que-uma-anta", aqueles que voluntariamente renunciam a entender as leis que governam os homens. É. Pode ser.
Mas a loquacidade de Laura, a vadiagem de Javier e a solidão de Camila dizem muito sobre um mundo que, ao contrário, não lhes diz nada. E, sobre essa falta de mútua identificação, o estranhamento entre o eu e o mundo, que mais se evitam do que se aproximam,
Toda Terça aponta caminhos interessantes.
P.S.1: O mais breve possível falaremos de 'O Dia Mastroianni', de João Paulo Cuenca.
*Editor do Caderno A.
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