Vitória (ES), edição de 06 de maio de 2008    
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O fotógrafo-poeta



Felicia Borges



  
Foto: Walter Firmo
  

Um dos mestres da fotografia nacional, Walter Firmo é tido como um dos maiores fotógrafos coloristas do Brasil e arquiteto do acaso. Em 50 anos de profissão, ele já captou com suas lentes fatos relacionados a uma temática social e bem brasileira, registrando folclore, cultura e personagens típicos, de norte a sul do país. Nesta quinta-feira (8), Firmo inaugura em Vitória a exposição Abstrato Extrato, uma das atrações da primeira edição do projeto Vitória Foto, que traz para Vitória, simultaneamente, uma série de exposições fotográficas.

"É um nome que significa nada e significa tudo, porque é uma ilusão em relação a uma fotografia que não tem nada a dizer supostamente porque trata de uma abstração", define o fotógrafo carioca sobre o trabalho. Serão ao todo 20 fotografias, selecionadas entre muitas outras, que retratam uma fase do fotógrafo em que ele se abstrai e se reinventa, usa a saudade e a tristeza decorrentes da perda de pessoas próximas em prol da imagem. Firmo também vai ministrar na Capital o curso Criatividade na Cor, entre os dias 6 e 9 de maio, que vai trabalhar uma das especialidades do fotógrafo: a cor.

Superdisposto, o fotógrafo nos atendeu ao telefone em Curitiba, onde ministrava um de seus cursos. Primeiro começou explicando a exposição que vai trazer para Vitória, falou da fotografia, dos fotógrafos. Parou. Diante da afirmativa de que a conversa não estava sendo gravada e sim transcrita, sugeriu que a entrevista fosse feita por e-mail, porque assim "não se perde a essência do entrevistado". Sugestão acatada. Segue abaixo um pouco de Walter Firmo.

Firmo, qual é o trabalho que você vai trazer para Vitória, para a exposição Abstrato Extrato?
Walter Firmo - Seu nome já traduz certa indumentária sigilosamente hermética trajada em poesia: Abstrato Extrato. Ela é uma decantação de cores viajante, caminhando entre o belo irracional, trabalhando induções semânticas nos encontros com as coisas e objetos. Foi uma descoberta há anos passados, depois que perdi meus pais e minha mulher. Sentia-me só, desgarradamente errante, e foi quando descobri a necessidade de observar coisas e atrações que estavam a meu lado e nem dava conta que eles existiam. Então, na minha aparente solidão, ela se desfez, já que os objetos tinham vida e estavam ali para que eu os descobrisse. Ao mesmo tempo é uma decantação poética de um novo trabalho.

  
Foto: Walter Firmo
  
Como essas fotografias da mostra se inserem na sua carreira? Elas foram selecionadas por um tema ou talvez por um tempo específico?
WF - O tempo especial do artista é aquele que sublimará sua importância espacial daquilo que sente. Quem cria transita numa abóbada celestial do prazer inerente, ao mesmo tempo pegajoso enquanto necessidade de sedução a si mesmo. Quando se desfizer entre os achados e perdidos será porque não interessa mais.

Você também vai ministrar na Capital o curso Criatividade da Cor. É um curso livre, quem pode participar?
WF - Criatividade na Cor, o próprio nome induz que, quem quiser participar basta ter uma caixinha mágica, mesmo que ela seja digital, (risos), partindo do princípio que na natureza das coisas tudo é manifesto e se a fotografia existe é para manipular desejos, fatos e seduções. Transito há quinze anos como professor e encontrei pessoas estabelecidas em suas profissões de médico, advogado, cientista biológico, analisador de sistemas, engenheiro, piloto de avião, psicólogo, enfim, gente realizada em suas atividades profissionais, mas que vê na fotografia um escape necessário a uma convivência parceira freudiana, descobrindo nas imagens existenciais a própria identidade de um novo viver.

Muitas pessoas já passaram pela sua vida para aprender um pouco dessa arte de fotografar. Com tem sido este trabalho depois de anos se dedicando ao fotojornalismo? Algumas dessas pessoas, que você tenha conhecimento, viram fotógrafos mesmo?
WF - Entendi como mensagem do além, do cosmos, porque se tivesse seguido somente como fotógrafo das redações dos jornais enfrentando meus concorrentes, que muitas vezes jogam pesado, talvez teria me desinteressado, não sei. Acho que o fazer jornalístico fotográfico é coisa para os mais jovens. POSSIVELMENTE NÃO ESTARIA TÃO ANIMADO COMO ESTOU AGORA EM PLENOS SETENTA ANOS INTEIROS, e ainda sentindo-me capacitado a muitas realizações.

A vida de professor é intensa no conhecimento das pessoas mais intimamente ligados a ela e passa nesse conviver novos amigos. Também tem outra coisa: é uma troca. Ao mesmo tempo que eu dou, recebo, a gente tem sempre que aprender também com os bons alunos. É possível que tenha passado pelas minhas mãos uns três mil alunos, e muitos se profissionalizaram, outros, acalentaram um sonho amadorístico do hobby e, às vezes, são tão competentes e criativos como verdadeiros profissionais.

Você é muito conhecido como fotógrafo colorista. Como a cor se insere no seu trabalho?
WF - A cor é de Deus, porque a vemos todos assim desde que nascemos. A cor é inocente e nos insinua dependendo de seus graus e tons, viagens de um conviver pacífico ornado de aventuras.

Como você vê a cor na informação jornalística?
WF - Eu, se fosse proprietário de um jornal, por exemplo, minhas informações fotográficas seriam em preto-e-branco, porque ele traduz melhor o fato. E, certamente, nada de decantações colorísticas ou poesias impressas quando a cor é total sedução. Vejo a cor mais para as revistas.

Em uma entrevista você disse que o grande assunto da sua vida, seu grande projeto, são os negros, os ofendidos, os humilhados. É isso mesmo? Como você vê a função social da fotografia?
WF - Sou negro e a minha gente, que é a maioria neste país, muitas vezes é incompreendida e escorraçada. Por isso, como artista e repórter que fui, me senti num patamar onde poderia emitir sinais para que a sociedade pudesse nos compreender melhor. A função social da fotografia é o do conhecimento, isto é, que você enfrente e descubra o outro e os lugares onde nunca esteve.

Em sua opinião, quais são as qualidades fundamentais a um fotógrafo?
WF - Confiança, determinação e conhecimento básico do mundo, enquanto sua política humana e financeira e tantos outros etecéteras. Há que ficar atento a tudo que se desenrola no planeta.

Você começou no fotojornalismo há 50 anos. O que vê de mudanças na área agora no século XXI? E os avanços tecnológicos, mudam muita coisa?
WF - Hoje o jornalismo não só não é mais "inocente", como também não é mais romantizado. Aliás, inocente nunca foi, jornalismo é uma indústria como outra qualquer. A tecnologia digital é uma mão na luva para a fotografia jornalística pela velocidade da informação. Todos sabemos que agora é tão fácil em pleno deserto do Saara emitirmos sinais do computador ao satélite e daí para as redações. É um verdadeiro milagre.

Depois de 50 anos de fotografia, prêmios, livros, fama, o que falta fazer? Quais são seus projetos?
WF - Falta fazer tudo, tem certos homens que poderiam viver quatrocentos anos que jamais morreriam. Oscar Niemayer, por exemplo.

Serviço
O fotógrafo carioca Walter Firmo abre nesta quinta-feira (8) sua exposição Abstrato Extrato, às 20h, na Galeria Homero Massena. Rua Pedro Palácios, 99, Cidade Alta, Centro de Vitória. Visitação de 9 de maio até 6 de junho. A mostra faz parte do projeto Vitória Foto, que reunirá na Capital durante todo o mês de maio seis exposições simultâneas e oficinas gratuitas, juntando grandes nomes da fotografia.

Firmo também vai ministrar em Vitória o curso Criatividade na Cor, entre os dias 6 e 9 de maio, no Studio Base 40, em Fradinhos. Inscrições encerradas.

Saiba mais!
Clique aqui e confira o calendário de exposições do projeto Vitória Foto.


 

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