("A palavra é metade de quem a pronuncia e metade de quem a ouve." Michel de Montaigne)
Foto: José Rabelo
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Ele tem 72 anos, é casado há 37 e tem dois filhos advogados. Fenômeno de audiência na freqüência AM no Espírito Santo, seu programa completou no dia 1º de maio - não casualmente para ele, no Dia do Trabalho - 47 anos de rádio. De profissão mesmo ele já tem mais de meio século, completa 51 anos de carreira em 2008. Nascido em Bom Jesus do Norte, começou sua carreira, inicialmente como locutor, na rádio ZYL-9, em Cachoeiro de Itapemirim. "Eu lembro que no começo o José Américo me corrigia muito, principalmente na pronúncia de palavras em inglês". Já em Vitória, começou trabalhando com direitos autorais. Orgulha-se de mostrar a assinatura de Lamartine Babo (1904 - 1963) - compositor carioca consagrado autor de marchinhas de carnaval e hinos de clube de futebol - na sua Carteira de Trabalho, que na época era tesoureiro da Ordem dos Músicos. Em 1961, já começava a dominar as ondas do dial na Rádio Espírito Santo. Depois passou pela Rádio Vitória, Capixaba, retornou à Espírito Santo e há 19 anos, completados no último dia 8 de maio, está na Gazeta. Mais uma pista: ele foi o primeiro radialista capixaba a receber ligações telefônicas no ar. A inovação fez o serviço da Companhia Telefônica do Espírito Santo entrar em parafuso. "É que o resultado do jogo do bicho também saia às duas e meia e o número de ligações aumentava muito por causa do programa. Eu já recebia uma quantidade enorme de ligações, as linhas da cidade não agüentavam o tráfego e entravam em colapso. Ninguém conseguia usar o telefone nesse horário. Era uma loucura".
Embora os leitores, obviamente, já saibam de quem estamos falando, a introdução da entrevista tenta parodiar um quadro de sucesso do Programa Jairo Maia (PJM) intitulado "Personagem Oculto". No quadro, o radialista costuma descrever um personagem da história que está sendo homenageado naquele dia para que o ouvinte mate a charada e descubra quem é o personagem oculto.
Esses e outros quadros criados por Jairo Maia nestes 51 anos de carreira transformaram o produtor e radialista em um fenômeno de audiência no Espírito Santo. Seu nome, como ele mesmo admite, virou sinônimo de rádio. Com 60 mil ouvintes por minuto, segundo dados do Ibope, o PJM faz parte do dia-a-dia de milhares de capixabas. Com o foco na prestação de serviços, o PJM construiu, ao logo de todos esses anos, uma vigorosa rede de solidariedade entre os ouvintes. Às segundas e sextas-feiras, quando um quadro do programa é dedicado à solidariedade, pode-se conseguir de cadeira de rodas a colchão d'água, passando por muletas, camas e até computadores. "Eu leio as cartas, que são carregadas de emoção e os ouvintes ficam sensibilizados. Já tive caso de ouvinte que vendeu um objeto da sua própria casa para fazer uma doação a uma outra ouvinte".
A fidelidade do ouvinte é algo que ainda hoje emociona o próprio radialista. Ele guarda com muito cuidado todas as cartas que recebe dos ouvintes. Cartas como as de Ewerton Soares ou de Maria Salomão que há mais de 30 anos colaboram com o programa. Jairo Maia explica que 80% do programa são feitos pelos ouvintes que lhe enviam religiosamente material para produzir os quadros do programa.
Entretanto, o leitor vai poder conhecer um outro lado do radialista Jairo Maia. Nesta entrevista exclusiva a Século Diário, esse gigante do rádio faz um desabafo. Ele se diz profundamente magoado com o não reconhecimento por parte da Rede Gazeta que não publicou uma única nota em um de seus veículos para homenagear o aniversário de 47 anos do PJM. "Na véspera, eu cheguei a procurar o Abdo Chequer (diretor de Jornalismo da TV Gazeta) para pedir uma nota sobre os meus 47 anos de rádio [diz com a voz embargada], mas ele não quis dar a nota. Eu estou há quase 20 anos ali dentro [da Gazeta]. Nunca faltei com minha responsabilidade, nunca houve nada que desabonasse a minha conduta, mas infelizmente..."
Século Diário: - Quando o senhor começou a fazer rádio?
Foto: Ricardo Medeiros
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| Jairo Maia é fenômeno de audiência na freqüência AM no Espírito Santo: 47 anos de história no rádio
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Jairo Maia: - Eu comecei a fazer rádio em 1957, em Cachoeiro de Itapemirim, na antiga ZYL-9, do José Américo, tio do também radialista José Roberto Mignone. Comecei como locutor cobrindo as folgas de fim de semana de outros profissionais. Eu lembro que no começo o José Américo me corrigia muito, principalmente na pronúncia de palavras em inglês. Eu não me incomodava de trabalhar nos fins de semana, sempre gostei muito do que faço.
- Como surgiu a idéia de criar o Programa Jairo Maia (PJM)?
- Nessa época, em 1961, eu já estava em Vitória. Trabalhava com direitos autorais na Ordem dos Músicos do Brasil, inclusive veja aqui [exibe o registro da Carteira de Trabalho], quem assina minha carteira é o Lamartine Babo, aquele compositor famoso de hinos de clubes de futebol. Ele era o tesoureiro da Ordem. Um dia estava na Rádio Espírito Santo, numa visita de trabalho para receber direitos autorais, quando o Duarte Júnior me chamou para oferecer um espaço na rádio para eu montar um programa no período da tarde. Inclusive a escolha do nome do programa foi curiosa. Não foi por uma questão de vaidade ou de ego que o programa foi batizado com o meu nome. Na verdade, ficamos pensando qual nome colocaríamos no programa: as melhores da tarde, as campeãs da tarde etc. Até que um colega da rádio chegou e disse: 'Bota Jairo Maia mesmo, se não colar, muda'. Parece que colou.
- O programa de cara foi um sucesso ou demorou um pouco para engrenar?
- O PJM começava às três horas da tarde e foi o pioneiro aqui no Espírito Santo em receber telefonemas no ar. Com a boa aceitação do programa resolveram me puxar para o horário das duas e meia, foi quando houve um problema com a Companhia Telefônica do Espírito Santo por causa do resultado do jogo do bicho.
- Jogo do bicho, como assim?
- É que o resultado do jogo do bicho também saía às duas e meia e o número de ligações aumentava muito por causa do programa. Eu já recebia uma quantidade enorme de ligações, as linhas da cidade não agüentavam o tráfego e entravam em colapso. Ninguém conseguia usar o telefone nesse horário. Era uma loucura. Tanto é que um dia um dos diretores da Companhia Telefônica esteve na rádio para dar uma entrevista e fez um apelo para que mudássemos o horário do programa para o bem da telefonia.
- Depois de um período de quatro ou cinco anos na Rádio Espírito Santo o senhor foi para a Rádio Vitória, não foi isso?
- Exato. Eu lembro que quem me dirigia nessa época na Rádio Vitória era o Danilo Bastos, marido da Dercy Gonçalves. Ele era diretor dos Diários Associados, que incluía a rádio e a televisão. Depois passei pela Capixaba, rádio que acabei comprando logo depois. Inclusive, esse foi um dos piores negócios que fiz.
- Por que a compra da Capixaba não deu certo?
- Porque já nessa época, e hoje ainda é assim, o rádio só tinha uma boa audiência pela manhã, das nove ao meio-dia. O período da tarde para o rádio sempre foi um horário morto, ingrato, ninguém queria. Sem o anunciante fica difícil. É igual na TV, o horário da tarde não vale nada. Eles ficam reprisando um monte de programas velhos. O valor dos comerciais nesse horário é preço de banana podre. Por que o padre Marcelo Rossi entrou na Rádio Gazeta às nove horas? Porque ao meio-dia, lá no Rio de Janeiro, ele perdeu para um programa policial da Tupi. Depois de quatro anos que fiquei com a Capixaba resolvi vendê-la e voltar para a Rádio Espírito Santo. Fiquei mais um tempo por lá e em seguida fui para a Gazeta, onde estou até hoje. No dia 8 de maio completo 19 anos de Gazeta. Hoje (quinta-feira) é dia 8? Pronto, então estou completando hoje 19 anos de Gazeta.
- O senhor conquistou a liderança de audiência com muita rapidez na Gazeta. Nessa época o JPM já era bem conhecido?
- Demorou um pouquinho ainda porque a Gazeta não era conhecida. As pessoas não sabiam nem onde a rádio ficava. Havia um terreno na frente da Gazeta onde sempre era montado um circo, que era bem mais conhecido que a própria rádio. Quando as pessoas me perguntavam a localização da Gazeta, eu respondia que ficava atrás do elefante. O nome Jairo Maia nesta época já era bastante conhecido. Para onde eu ia a audiência me acompanhava. Tanto é que o ex-governador Albuíno Azeredo, à época, estava dando uma entrevista na Gazeta e disse no ar: 'Gostaria de mandar um bom dia para os ouvintes do PJM da Rádio Espírito Santo'. O ex-governador não sabia em que rádio ele estava, mas sabia que estava no PJM. Nas pesquisas Recall se pergunta ao ouvinte: 'Que rádio você está ouvindo? Eles respondem: 'Estou ouvindo Jairo Maia'. Meu nome já se tornou sinônimo de rádio. E quero deixar bem claro que não é por vaidade da minha parte, mas as coisas simplesmente foram acontecendo à custa de muito trabalho.
- O senhor costuma dizer que 80% do seu programa são feitos pelo ouvinte. Como funciona essa co-produção?
- Eu não produzo quase nada, quem produz são os ouvintes. Criei o formato do programa, que tem hoje treze seções: Pensamento do Dia, Sabatina, o Quebra-cuca, Simpatia, Horóscopo, Solidariedade, Corrente de Oração pela Família e assim por diante. Meu trabalho é fazer a triagem de todo esse material que recebo diariamente dos ouvintes. Não jogo nada fora. Não tenho coragem. O material que não é selecionado é guardado em pastas. Eu fico todos os dias atrás do computador montando o programa.
Foto: José Rabelo
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- A maioria do material chega pela Internet?
- Não. O ouvinte do PJM, geralmente, não usa Internet. É uma pessoa mais humilde. O material chega por telefone, por cartas e até pessoalmente - algumas pessoas vão ao estúdio para entregá-lo. Eu tenho um ouvinte, o Eriwelton Soares, que me envia recortes de revistas com notícias interessantes há mais de 30 anos [pega as cartas para me mostrar]. Veja só, são dezenas de recortes com as mais variadas notícias, pensamentos, curiosidades. Assim como o Eriwelton, eu tenho outros ouvintes que me mandam materiais há décadas. Esse ouvinte de Anchieta, o Fernando Matos Ramalhette, que nem conheço, me enviou esse material [exibe um grosso caderno impresso] com mais de dois mil pensamentos. Constantemente eu utilizo um dos pensamentos enviados pelo Fernando no programa.
- O senhor sempre faz questão de dar o crédito ao ouvinte e eles ficam muito satisfeitos com esse reconhecimento. Inclusive, soube que uma ouvinte que é portadora de deficiência física ficou muito comovida quando o senhor leu pela primeira vez o "quebra-cuca" que ela havia enviado ao programa.
- Você está se referindo à Maria Salomão. Ela é outra ouvinte que também colabora há mais de 30 anos. Tenho muita estima por ela por causa de sua força de superação. Você a conhece?
- Não.
- Pois estão, ela é toda atrofiada a ponto de não conseguir nem escrever. Uma outra pessoa escreve as cartas para ela. Eu fui criando um elo muito forte com meus ouvintes e eles comigo. É como se fôssemos todos de uma grande família. Existe uma relação de afeto entre os ouvintes. Por isso o programa tem esse apelo solidário, essa rede de ajuda mútua que foi sendo construída ao longo do tempo. Por exemplo, uma vez eu fiz uma campanha em comemoração ao Dias das Mães e disse que presentearia com uma TV a mãe mais velha e também a que tivesse mais filhos. Quando fui entregar a televisão a essa mãe que tinha o maior número de filhos, me deparei com uma situação muito difícil. Ela era extremamente pobre e morava num barraco caiando aos pedaços. A energia elétrica era 'gato'. Não havia um único móvel para eu colocar a televisão. Decidi fazer uma outra campanha para ajudar essa senhora. Consegui fazer uma permuta com uma loja de materiais de construção e fiz uma casa de alvenaria para ela. Ela, logicamente, ficou feliz da vida. Ganhou a televisão e uma casa. Esse tipo de coisa nos deixa bastante realizados. E você sabe que não sou metido em política. Nunca fui e nunca vou ser candidato a nada.
- O senhor parece ter aversão à política. O senhor já foi muito assediado para entrar para a política?
- Já cansaram de insistir com essa idéia, mas eu nunca quis. Eu prefiro fazer política independente no rádio, sem ter compromisso com políticos ou partidos. Não acredito na política e nos políticos.