Há quase duas décadas, quando os arcos dourados do McDonalds piscaram tardiamente (se é que deveria ter chegado antes) no Espírito Santo, o fato mereceu destaque na mídia. Ainda me lembro da matéria na televisão que mostrava a nova lanchonete que era inaugurada no Centro da cidade e suas modernidades - drive-thru, por exemplo. Pouco tempo depois, ao sair de uma sessão no finado Cine Paz, lá estava com minha família para o meu primeiro Mc Lanche Feliz. Filas e filas mais tarde, hoje foi a vez de ir pela primeira vez no Burguer King - em Vitória.
O local da primeira filial não poderia ser mais emblemático: o Shopping Vitória. O novo centro é a Enseada e o núcleo é esse shopping. Por mais que tenham surgido (e surgirão) outros, o Vitória ainda é o preferido. Foram meses e meses de uma placa anunciando a chegada a rede Burguer King. Era uma das grandes cadeias de lanchonetes que ainda não tinha chegado aqui - ainda faltam a KFC e a Starbucks. Aliás, sempre demoram a chegar e sempre de maneira discreta. Nem mesmo o McDonalds abriu muitas lojas.
O meu primeiro contato com o Burguer King foi mais pela comodidade e preço do que pelo fetiche. Estava viajando e era a lanchonete 24 horas mais barata que encontrei perto de onde me hospedava. Achei o sabor diferente, mas nada muito "ohhhh" - já comi hambúrgueres mais inesquecíveis. Quando a filial Vix abriu, eu nem fui lá. Cheguei em casa e encontrei uma coroa de papelão que meu irmão tinha ganhado ao comprar seu lanche lá - sim, a família continua freqüentando os fast-foods da vida. Na minha primeira ida ao shopping faria isso.
Já era mais de oito da noite. Estava com fome e queria assistir algum filme - desde que ganhei nova carteirinha de desconto, resolvi que era preciso aproveitar antes do benefício acabar. Não tinha filme interessante e assim, fui direto para a praça de alimentação. Seria meu dia de Burguer King - ainda mais que o refrigerante lá é "à vontade". Assim que entrei na praça de alimentação, tomei um susto. Uma pequena multidão se apertava em frente o balcão da nova lanchonete, vários com a tal coroa de papelão - cortesia da casa. Fiquei na dúvida se ia ou não ia comer lá. Olhei para o McDonalds e vi que a fila apesar de menor não seria muito rápida. Resolvi encarar o desafio, já que tinha tempo livre.
Tive tempo de escolher de sobra meu pedido e trocá-lo várias vezes - e acabei pegando justo um sem cebola. Um casal aguardava na minha frente para ser atendido e muitos aguardavam para comer. Um senhor com uma caixa de pizza na mão para diante do casal e pergunta "a comida aí é boa?". O casal responde "ainda não sabemos". Como sou educado, não sou carioca e ele não me perguntou nada, não emiti opinião. O senhor tirou suas próprias conclusões "deve ser, pela fila. Vou comer ai também". Fiquei pensando o que ele iria fazer com a pizza. Próximo! Chegou minha vez.
Pedido escolhido, o difícil era chegar ao caixa com tanta gente em volta deles. "Essa é sua senha". Mas, como eu saberia que estava na minha vez se não havia visor. "as meninas vão gritar". E elas gritavam. Percebi que tinha pelo menos 20 pessoas na minha frente. "Não está na ordem, deve ser pela complexidade do pedido", comentou uma moça com a amiga. O senhor da pizza - agora sem a pizza - esperava ao meu lado. Gritava "bingo" a cada senha. Por sorte, ou baixa complexidade, meu pedido veio logo.
Se for para aproveitar a novidade, vamos por completo. E na hora de comer escolhi sentar nas cadeiras da própria Burguer King. Por sorte tinha uma mesa vazia no fundo da loja. Ao meu lado uma família grande e do outro uma mãe com três crianças - dois meninos e uma menina. Sentei e comecei a comer. A mãe trouxe os brinquedinhos dos lanches para as crianças e disse para eles ficarem lá sentados enquanto ela buscava o seu. Continuei comendo. Uma loura com uma bandeja cheia veio em minha direção ao perceber que não tinha mais lugares perguntou se poderia se sentar comigo. Consenti e ela ao invés de sentar a minha frente sentou-se ao meu lado. "Meu lanche caiu e o gerente me deu uma batata a mais. Se soubesse tinha derrubado antes", contou antes de me oferecer uma batatinha.
Usava um vestido florido e carregava uma bolsa com várias caixas de incenso. Como eu recusei as batatinhas "que são piores que a do McDonalds apesar do hambúrguer acebolado sem beeeem melhor", ela ofereceu as batatas para as crianças que ainda aguardavam a mãe. Educadas, as crianças recusaram. "Ficaram com medo". A loura comia e tentava oferecer as batatas para as crianças. Um dos meninos ia se levantar quando o outro com a coroa de papelão na cabeça gritou para ele ficar lá como a mãe tinha pedido. A loura comentou "ele se sente um reizinho mesmo". Logo, depois o menino saiu correndo.
A loura me cutucou para me mostrar a fuga. Os outros dois foram atrás e logo, os três voltaram. A loura ofereceu novamente a batata. "Aceitem". "Não, minha mãe vai trazer para a gente". "Eu sei, mas eu tenho duas e vou ter que jogar fora se ninguém comer. Não tá envenenada não". "Você pode oferecer para outra pessoa que não seja a gente", disse rindo a menina que não tinha mais do que 7 anos e já se expressava muito bem. "Foi aquele homem ali que me deu as batatas", disse a loura para crianças enquanto apontava para o gerente que passava de mesa em mesa pedindo desculpas pelo atraso no atendimento. "Às vezes temos uma pane com muita gente". O menino da coroa e a menina saíram da mesa e deixaram o outro sozinho. Ao ver isso a loura virou para o menino e disse "Tá vendo seu bobão, você foi aquela hora e eles mandaram você voltar e agora vai ter que ficar sozinho vigiando a mesa. Não pode deixar aquele outro mandar em você assim não. Tem que revidar", filosofou. Nessa hora achei melhor sair da mesa, três crianças na mesa do lado até vai, mas uma na minha mesa, melhor não. Ela poderia querer me obrigar as comer as batatas também.
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