| |
Foto: Divulgação
|
|
|
|
"Oh! Sejamos pornográficos/ (docemente pornográficos)/ Por que seremos mais castos/ Que o nosso avô português?", já diria Carlos Drummond de Andrade em uma de suas poesias eróticas. Como Drummond espantou a muitos com seus versos mais sensuais, que pareciam contradizer a figura tímida do poeta, também outros causaram estranhamento aos mais pudicos ao longo dos tempos, desde a poetisa grega Safo (VII a.C.), passando pelo Marquês de Sade (século XVIII), até autores mais recentes como Nelson Rodrigues, muitas vezes chamado de tarado e alto-intitulado "anjo pornográfico".
Em tempos em que "nádegas aparecem/ em anúncios, ruas, ônibus, tevês/ O corpo soltou-se. A luz do dia saúda-o,/ nudez conquistada, proclamada", conforme o mesmo Drummond, quando tudo isso passa a ser escrito, como na literatura erótica, ainda há muita gente que encare a como vulgar. "O erótico ainda incomoda muito, principalmente nas letras, porque se materializa. O próprio meio literário daqui já vê com muito conservadorismo o livro", diz o professor, editor e ensaísta Raoni Huapaya (foto).
E Raoni fala por experiência. O tal livro a que ele se refere é
Bom-tom, publicação que vai ser lançada nesta terça-feira (13) em Vitória, composta por 19 contos eróticos selecionados a partir de um concurso nacional. A idéia, Raoni conta, surgiu há cerca de quatro anos, quando ele ainda era estudante de Letras na Ufes e começou a fazer uma investigação sobre o tema erotismo na literatura. Depois organizou um sarau de literatura,
Poesia e Prazer, também tratando sobre o tema.
No ano passado surgiu, então, a idéia do livro, a convite da boate de strip-tease Play Man, que financiou a publicação. "A Play Man fez um convite sobre uma publicação sobre o erotismo. A gente fez uma proposta de um concurso via site da Play Man. A divulgação foi local, mas a internet potencializa e a participação acabou sendo maior até de fora do Estado", fala Raoni, que foi um dos idealizadores do projeto, ao lado do professor e crítico literário Pedro Antônio Freire. Ao todo, foram 390 contos inscritos.
Se a literatura erótica ainda é vista com pudores por muita gente, a intenção do livro é justamente escapar do lugar comum da discussão sobre o tema, que sempre leva ao questionamento do que é erótico e o que é pornográfico. "A gente quis fugir um pouco da abordagem ideológica em torno do erotismo, da mulher como submissa".
Na seleção também foram levados em conta os recursos estéticos utilizados pelos autores. "Esse caminho contrário que a gente vê no cotidiano. A discussão foi tentar mostrar o erotismo numa visão bem contemporânea, para que o erótico saia do privê e salte na matéria literária. A gente está fugindo dessa divisão entre erótico e pornográfico. A idéia é justamente não assumir esse rótulo", explica Raoni.
| |
Foto: Divulgação
|
|
|
|
Democrático
Participam da publicação nove autores capixabas e dez de outros estados do país. "Ficou um espaço bem democrático", garante Raoni. Ele tem razão. Entre profissionais e amadores, é possível encontrar estudantes, professores, filósofo, produtora de teatro, um músico e radialista, "uma avó super-feliz" e um psicólogo.
Tem também uma poetisa e dramaturga, titular de Academia Campineira de Letras e Artes, de Campinas (SP). Um oficial da reserva do Exército, que é advogado, e também poeta, contista, cronista e ensaísta. Um médico anestesista carioca, membro da Academia Tubaronense de Letras - Tubarão (SC) e da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores. E uma autora com trabalhos publicados em revistas nacionais como a Cult, Revista Ficção, entre outras.
Em comum, o gosto por escrever e a paixão pela literatura. Uns estão estreando em livro, outros já têm mais experiência, alguns inclusive com premiação em concursos pelo Brasil e até no exterior. Entre os pseudônimos que assinam os contos estão Sérgio Rodrigo, Por Onde Andarás Stephen Fry?, Maninho Pacheco, Divânia, Lobo Santo, Viram, O Aleph, Urso Velho, Mulher de Algodão, Rosebud, Jeitoso, Jorge Tabagista, Anginha, Vera Lúcia, Bardo Tosco, Don Juan, Eleotério Bragança, Antônio Callegaro e Nina.
Creative Commons
Entre os objetivos da publicação, primeira do gênero no Estado, além de divulgar os trabalhos e incentivar a produção literária, está o de derrubar tabus e mostrar que é possível, sim, formar novos leitores a partir do erotismo.
Bom-tom se destaca ainda por uma outra peculiaridade: seu formato foi constituído a partir do conceito do Creative Commons, ou seja, os autores e organizadores abriram mão de receber seus direitos autorais em troca da livre circulação da obra, que poderá ser baixada na íntegra pela internet a partir do mês de julho no site da Play Man (www.playman.com.br).
"É uma bandeira nossa. A internet como um espaço de difusão da literatura e repensando esse formato de direitos autorais. O nosso objetivo como editora é fazer com que o livro seja lido", fala Raoni.
O organizador da coletânea acredita ainda que essa seja uma tendência, assim como acontece com a música, já que quebra as barreiras geográficas e proporciona uma distribuição muito mais eficiente do que no formato tradicional. "A idéia é de que a produção editorial impressa ela seja feita, mas na ausência dessa exista essa outra possibilidade. O importante é que se tenha acesso ao bem simbólico, ao livro", diz.
A publicação vai ser vendida nas bancas de revistas do Estado a R$ 15. Todo valor arrecadado com as vendas será revertido para um fundo que tem como objetivo financiar a realização de mais uma edição do concurso.
Serviço
Lançamento oficial da coletânea
Bom-tom (113 págs, R$ 15), com 19 contos eróticos selecionados a partir de um concurso nacional, nesta terça-feira (13), às 19h, no Centro Cultural Majestic. Rua Dionísio Rosendo, 91, no Centro de Vitória. No dia do lançamento o livro poderá ser adquirido por R$ 10. Entrada gratuita.
Saiba mais!
Clique aqui e leia o conto
Amor, de Por Onde Andarás Stephen Fry?.
|