Vitória (ES), edição de 16 de maio de 2008    
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A tradução da tradução



Felicia Borges



  
Foto: Divulgação
  

O diretor Sérgio de Medeiros começou sua contribuição para o cinema nos anos 70, em Vitória, ainda adolescente, como ele fala. Fez filmes em Super 8, passou pelos 16 mm, pelos 35 mm e agora faz sua estréia no digital. O cineasta lança nesta sexta-feira (16), no Cine Metrópolis, na Ufes, o média-metragem A Virada.

A idéia do filme surgiu a partir do Departamento de Letras da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). O conto homônimo que originou o vídeo está no livro Papel de Parede Amarelo, da escritora norte-americana Charlotte Perkins Gilman (1860-1935), traduzido para o português por Lillian DePaula em coletânea organizada por Stelamaris Coser, com a participação do Núcleo de Pesquisas em Tradução e Estudos Interculturais (TEI) do Departamento de Línguas e Letras. A obra foi publicada em 2006 pela Edufes, a editora da Ufes.

Para a realização do filme, produzido em parceria com o IPLI (Instituto de Pesquisa da Linguagem Imagética), partiu-se da radicalização do processo de tradução, inicialmente de idiomas e depois de meios. "Havia a discussão da tradução, além do idioma, da linguagem literária para a audiovisual. A tradução de meios, que serve para se criar uma discussão também. É uma adaptação literária feita a partir de uma idéia acadêmica, mas o produto final foi feito com uma linguagem dramatúrgica, com atores profissionais capixabas", explica o diretor.

A Virada narra os fatos ocorridos com a chegada de uma adolescente, Gerta (Francienne Pavesi), vinda do interior, à casa de um casal de classe média alta que não tem filhos. O Sr. e Sra. Marroni (Edwaldo Almeida e Maura Moschen) acreditam ter a família completada, até que a história toma outros rumos. A partir da relação entre os três e tendo como pano de fundo a cidade de Vitória, o filme traz uma indagação sobre as distintas expectativas sociais do homem e da mulher.

Feminista
  
Foto: Divulgação
  
A autora do conto, Charlotte Perkins Gilman, foi uma das pioneiras do movimento feminista. Em sua produção literária constam obras de ficção e textos teóricos tratando sobre a condição da mulher, defendendo a emancipação feminina e pela redistribuição de tarefas que lhe eram tradicionalmente atribuídas. Suas idéias a tornaram mais conhecida nos Estados Unidos como ativista social do que como escritora de poesia, ficção e teatro. O conto no qual o filme é baseado faz parte de sua mais famosa obra, publicada em 1892.

Segundo o diretor, o filme tem uma fidelidade muito grande ao texto literário, inclusive nos diálogos. "Só houve uma atualização, porque vai ter um público mais de estudantes", diz Medeiros. Essa atualização, inclusive, foi um dos grandes desafios da equipe, que teve que adequar um texto datado (final do século XIX) para os dias atuais. Optou-se, então, por situar a narrativa na passagem da década de 1980 para 1990.

Outra dificuldade foi a falta de recursos. "A dificuldade sempre é a mesma de se fazer um trabalho desse aqui em Vitória. Trabalha-se com um custo mínimo. A TV Universitária entrou com os equipamentos, a Rádio Universitária também e a Ufes entrou com o que ela tinha para oferecer. A Fundação entrou com o cachê simbólico para os atores. Todo mundo entrou porque apostava na idéia", conta o diretor.

O processo de roteirização do média-metragem começou no início de 2007 e os atores fizeram um laboratório nos seis meses seguintes. As gravações ocorreram em setembro, na Barra do Jucu (Vila Velha) e Maruípe, Centro, Enseada do Suá, Praia da Castanheira e no Aeroporto (Vitória).

Na era digital
O cineasta Sérgio de Medeiros trabalha com cinema há cerca de três décadas, sempre com orçamentos exíguos e exibições públicas de seus trabalhos. No final dos anos 1970 teve seu filme Sinais de Fascismo (1978, Super 8) apreendido por falta de certificado de censura, documento obrigatório na época. Medeiros também foi ator entre 1976 e 1978 em outros filmes de Super 8.

Fez a fotografia do longa Um Minuto, Uma Hora... Uma Vida, de Walter A. Abreu. Em vídeo dirigiu Refluxo (1986), Diga Adeus a Lorna Love (1988), e o longa Fuga de Canaã (1991). Depois, em 35mm, dirigiu Rito de Passagem (1996) e O Amor e o Humor na Música Brasileira do Século XVIII e XIX (1998), cujo roteiro foi vencedor no Primeiro Concurso de Premiação Cinematográfica de Curta-metragem do Ministério da Cultura, 1997.

  
Foto: Divulgação
  
"Na década de 70 tinha um movimento de Super 8, então as pessoas escreviam roteiro e acabavam participando de várias etapas, mas bem amador. Você vai acumulando experiências. É um somatório dessas experiências. Várias pessoas que hoje produzem ou atuam passaram por isso", conta.

Em tantos anos participando do cinema capixaba, Medeiros vê com bons olhos as transformações que ocorreram na produção audiovisual. "A qualidade do digital está cada dia mais próxima da qualidade da película. Claro que não se pode comparar em termos de custo. O digital dá uma possibilidade de redução de custos. Hoje você pode fazer em casa, com um computador, inclusive com uma qualidade. Eu acho que isso vai dar uma dinamizada e mais pessoas vão poder fazer. E hoje você tem a própria internet para ajudar na divulgação", fala.

Ele acredita que as leis de incentivo, como a Lei Rubem Braga, criada nos anos 1990, mais o aumento do número de cursos de Comunicação no Estado foram fatores fundamentais para a expansão da produção audiovisual local, e ainda mais com os equipamentos digitais.

Além do lançamento nesta sexta-feira (16), em Vitória, A Virada vai ser exibido na TVE, no programa Curta Vídeo, e na TV Ufes. A Universidade também vai fazer a distribuição para bibliotecas e o vídeo vai ser disponibilizado na internet para fazer download. "A gente pretende que seja uma coisa acessível, por internet mesmo, quem quiser possa baixar. Já que estamos fazendo essa primeira experiência com o digital, vamos usar também esse meio de distribuição", conclui Sérgio de Medeiros.

Ficha técnica
Elenco: Francienne Pavesi, Edwaldo Almeida, Maura Moschen, Geisa Ramos, José Augusto Loureiro, Ednardo Pinheiro, Alvarito Mendes Filho, Rosi Andrade, Aline Goltara, Victor Rosalen, Terezinha Nascimento, Wander César, Loyde Lima, Branca Santos Neves, Izabel Cristina, Mestre Vitalino, Maria Fillina e Ariel Morgana.
Roteiro: Paulo DePaula, Maria Pacheco, Jorge Nascimento e Sergio de Medeiros
Direção de Produção: Maria Pacheco
Direção de Arte: Nortton Dantas e Paulo DePaula
Direção: Sergio de Medeiros
Assistentes de Produção: Marlécio Matos e Kátia Raposo
Fotografia: Valmir Zatta
Som direto: Newton Raposo
Som off: Renegrado Jorge
Montagem: B. M. Rosemberg

Serviço
O diretor Sérgio de Medeiros lança o média-metragem A Virada (2007, 35 minutos) nesta sexta-feira (16), às 21h, no Cine Metrópolis. Av. Fernando Ferrari, 514, Goiabeiras, Vitória. Informações: (27) 3132-8396. Entrada franca.


 

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