("A fotografia é uma forma de ficção. É ao mesmo tempo um registo da realidade e um auto-retrato, porque só o fotógrafo vê aquilo daquela maneira". Gérard Castello Lopes)
Foto: Ricardo Medeiros
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Durante este mês, Vitória está sendo palco de uma das propostas inovadoras para a divulgação do trabalho fotográfico. O Vitória Foto já conta com seis exposições simultâneas e oficinas gratuitas. O evento pretende destacar a tradição do Estado na área e relembrar a fundação do Foto Clube do Espírito Santo, em 1946.
Como parte da programação do Vitória Foto, neste dia 20, a partir das 19h, no Espaço de Arte do Bandes, Centro de Vitória, estará aberta a exposição Foto Clube do Espírito Santo. A visitação será de 21 de maio a 15 de junho.
A exposição, além de celebrar 62 anos do Foto Clube, revelará ao público 48 imagens raras, produzidas por fotógrafos que fizeram parte desse movimento. Na entrevista deste final de semana, temos um legítimo representante dessa época. Talvez o mais velho entre os vivos. Magid Saad completará, em julho, 88 anos de vida e muitos dedicados à sua paixão pela fotografia.
A loja de equipamentos e materiais fotográficos Empório Capixaba era o cenário de muitos dos fotoclubistas, amigos e contemporâneos de Saad. Dentre eles, Pedro Fonseca, Érico Hauschild, Dolores Bucher, Ugo Musso, Décio Lírio e Finn Knudsen.
Foto: Ricardo Medeiros
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Os apaixonados pela fotografia organizaram a "I Exposição de Arte Fotográfica de Amadores", inaugurada em 25 de dezembro de 1945, em uma loja da Praça Oito, Centro de Vitória. Foi daí que nasceu o Foto Clube. E, com a entidade, vários outros eventos provaram a credibilidade dos participantes. Sobre o Foto Clube e muitas outras experiências com a arte de fotografar falou Magid ao Século Diário, com o seu tom humorístico peculiar. Confira.
Século Diário: - O senhor nasceu em Vitória...
Magid Saade: - Vou completar 88 anos de idade. Nasci no dia 13 de julho de 1920. Sou descendente de libaneses. Nunca saí de Vitória. Fiz curso primário e ginásio em Vitória. Fiz Academia de Comércio. Sou contador. Na década de 1940 fiz concurso para o Banco do Brasil. Só me afastei 30 anos depois.
- Qual a sua função lá?
- Galguei diversos postos. Fui investigador de cadastro, chefe de sessão, vários serviços... Me aposentei na modalidade de comissões. Na carreira, cheguei à ultima 'letra', ou seja, categoria. A última era uma espécie de cargo de confiança do presidente do banco. Era 'extra-carreira'.
- E depois do banco, o senhor trabalhou em quê?
- Ainda no banco fui convidado para ser professor de Auditoria e Análise de Balanço no curso de Ciências Contábeis. Trabalhei 18 anos fazendo isso dentro do banco. Fui professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) vinte horas. Vinte horas! Não quis tempo integral, não. Na década de 40 pratiquei bastante esporte... atletismo, voleibol...
- Em qual clube?
- Entrei para o Saldanha da Gama. Fui remador do Saldanha da Gama. Fui diretor, fui secretário geral... Neste ínterim, trabalhei na Federação Desportista Espírito-santense. Fui assistente técnico de remo. Assumi, provisoriamente, a técnica de futebol quando Genílio Ramos adoeceu. Depois, o basquetebol, aqui em Vitória, estava paralisado. Eu fui designado assistente técnico de basquetebol para reerguer o esporte. Graças a Deus, consegui e ele está até hoje. Na Federação, fui secretário de Contas, secretário de Justiça, além de assistente de remo e secretário geral. A Federação era eclética. Agora está dividida. Agora tem departamento de voleibol, futebol, basquetebol...
Foto: Ricardo Medeiros
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- Quando o senhor começou a se interessar por fotografia?
- Em 1945, ingressei no ramo da fotografia. Fazia as fotos e o Empório Capixaba revelava. Era a casa especializada no serviço. Eles resolveram trazer o Jamil Merjane do Rio de Janeiro para estruturar o Empório. Depois, Jamil se especializou como fotógrafo profissional. Nessa época, fomos nos comunicando com fotógrafos amadores. Era tudo amador! Foi sugerido pelo grupo realizar uma exposição de fotografia. Fizemos uma exposição em novembro de 1945 na Praça Oito. A Praça Oito era o Centro de Vitória. Tudo acontecia na Praça Oito. Era política, esporte, acordo, negociatas, tudo! (risos)
- Qual era o tema?
- Livre. Pensamos em fazer um Foto Clube para trocar idéias. A gente trocando idéias adquire novos conhecimentos. Então, foi fundado o Foto Clube, no dia 23 de maio de 1946. O Foto Clube reunia pessoas de toda as classes sociais interessadas por fotografia. Fui uma época em que houve um 'boom' de fotoclubismo em todo o mundo. Um 'boom' também de associações literárias e congêneres, associações culturais de diversas formas. Na época apareceu em Vitória também o Clube Filatélico Numismático, clubes afins... criadores de canário... (risos) enfim... Houve um 'boom' mesmo. Academia Espírito-santense de Letras, Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo... Eu comecei a me dedicar à fotografia quando o Renato Pacheco falou com o doutor Roberto Rodrigues e o doutor Danilo Rebouças, que era uma elemento proeminente, para que fizéssemos um curso de fotografia porque eles fizeram uma 'universidade do povo'. Então, foi feito o curso. No dia que eles não podiam ir eu assumia, dava aula no lugar. Aos pouquinhos, fui me entrosando com a fotografia. Comecei a dar cursos e sucessivos cursos. E aí eu tinha que estudar. Não posso dizer que sou autodidata porque eu assisti às aulas do professor Roberto. Depois, no Foto Clube, tivemos a participação de Quincas e Hugo Musso. Musso trabalhava no Empório, mas não era fotógrafo profissional. Aprendi muito com Quincas e com Hugo também. Comecei a estudar muito. Comprei livros, revistas... Às vezes, o aluno fazia uma pergunta e eu não sabia responder de pronto. Dizia 'na próxima aula eu respondo.' Aí, eu ia investigar o assunto. A mesma coisa eu fazia com as aulas de Auditoria e Balanço. Eu dizia 'vou ler e depois eu dou uma resposta.' Eu não sou uma enciclopédia humana... Então, o Foto Clube cresceu assustadoramente.