"Um grama de ação vale uma tonelada de teoria."
(Friedrich Engels)
Uma caminho permeado por algumas indecisões profissionais, mas de várias certezas quanto ao objetivo central, o de cuidar dos mais necessitados. Esta é a trajetória de Eduardo Andrade, médico clínico, anestesista e mestre em Saúde Pública pelo Instituto Real Holandês de Doenças Tropicais, em Amsterdam, Holanda.
Como coordenador da NRL Brasil (Neitherlands Leprosy Relief), Andrade vem procurando cumprir as metas da entidade, estabelecendo critérios para trabalhar intensamente nos estados, despertando mecanismos eficientes de atenção aos pacientes de hanseníase. A área de doenças infecciosas encantou o médico, desde o início da sua vida estudantil. Não demorou tanto para que ele descobrisse a parceria com a ONG.
Foto: Syã Fonseca
|
|
|
|
A visita de Andrade ao Estado deveu-se à forma de trabalho que a NLR mantém, no sentido de promover um melhor tratamento à doença e uma atenção aos pacientes, mas desde que estes sejam tratados dentro dos programas de atenção básica. Antes denominada de lepra, a hanseníase, aparentemente uma doença simples, vem sofrendo menos preconceito. O motivo da erradicação do estigma seria justamente a conscientização da sociedade, diante da evolução dos programas públicos.
Século Diário: - Como surgiu seu interesse pela Medicina?
Eduardo Andrade: - Pela Medicina, foi desde criança. Aquela coisa de criança quando perguntam: 'O que você quer ser quando crescer?' Ah, eu queria ser astronauta. Criança viaja, vai longe... Depois, professor... A idéia acabou amadurecendo através de leituras e tudo o mais. Gostei muito da área de biologia, estudar animais, especialmente répteis. Aí, queria fazer Medicina Veterinária. Na minha realidade, no interior do Maranhão, não havia Veterinária. Depois, acabei enveredando pelo lado da Medicina. Coisa de criança mesmo.
- E seu interesse pela Saúde Pública?
- Pela Saúde Pública, aí, sim, durante o curso, no quinto período da faculdade, comecei a ter interesse pelas doenças infecciosas. Sempre gostei muito de estudar animais e por isso também logo me interessei pela parasitologia. Fui monitor durante dois anos da disciplina de parasitologia, estudando micróbios, parasitas etc. Daí, comecei a fazer trabalhos de parasitologia clínica, comecei a estudar as técnicas de epidemiologia e comecei a gostar mais dessa área que envolve vigilância epidemiológica. Era uma coisa que não era muito clara ainda na minha cabeça. Gostava porque gostava. (risos) Fazia porque gostava. Através desse convívio, com uma professora nossa na UFMA, professora Moema, por quem tenho muito apreço, comecei a desenvolver um trabalho nas comunidades, nas palafitas. Aí, a gente começou a trabalhar em grupos voluntários, com vários alunos, através de projetos de extensão universitária, e uma das áreas que a gente escolheu para trabalhar era uma área contígua a um ex-necrosário, uma ex-colônia de pacientes de hanseníase. Começamos a fazer o trabalho com as crianças, com a comunidade em geral, porque é uma área que existe até hoje em São Luís, mas não é mais uma área de foco endêmico de hanseníase. É uma área como o hospital daqui, o Pedro Fontes. É uma área que ficou da época da política de isolamento compulsório e pessoas moram lá, famílias moram lá, por conta das pessoas que foram internadas na época da internação compulsória, do programa de lepra do Brasil. Aí, sim, começamos a trabalhar num posto, um posto que havia sido estabelecido pela Igreja, pelos padres italianos que trabalhavam na comunidade e nós, junto com a professora e sob a coordenação dela, fazíamos projetos de acompanhamento de crianças, de mulheres grávidas, algo, assim, bem primordial. Até digo, assim, que foi o primórdio do que hoje é o Programa de Saúde na Família (PSF). Isso foi em meados de 1985. Aí, comecei a trabalhar com esse pessoal e gostei muito de estudar hanseníase. Então, dentro daquele grupo, passei a me dedicar mais à hanseníase.
- O seu gostar era mais ligado a quê? Ao problema em si?
- Ao problema em si e também ao aspecto médico da doença, ao aspecto da doença, da imunologia, da imunopatologia da doença, que é algo que acho muito interessante. É uma doença teoricamente simples, uma doença com manifestações na pele, comportamento simples, mas que tem uma dificuldade de se estudar, de avançar na ciência, no conhecimento científico sobre a imunologia da doença. Foi algo que me fascinou bastante. Comecei a me aproximar disso para estudar mais esse aspecto da doença. Tanto me interessei que escolhi o tema até o final do curso para estudar. Foi o tema da minha monografia de final de curso. Aí, em 1988, fui fazer internato no Rio de Janeiro porque no Maranhão, à época, havia uma carência de bons serviços. Eu queria, realmente, crescer profissionalmente. Facilitou o fato de eu ter parentes morando lá e resolvi fazer o internato no Hospital do SUS. Não era SUS na época, mas Inamps. O SUS não estava estabelecido.
Foto: Syã Fonseca
|
|
|
|
- Era aquela "realidade pública"...
- Sim... Bem diferente do que é hoje. Hoje o SUS é um avanço, no sentido de acesso e acuidade, muito maior do que era o Inamps, no final dos anos 80. Bem, aí fui para esse hospital, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, e fiquei lá como interno, durante um ano inteiro, e decidi que queria fazer clínica médica, Medicina interna, Medicina geral, generalista, pelo fato de poder trabalhar tanto com crianças quanto com doenças infecciosas e com doenças que envolviam também manifestações reumatológicas. Eu não queria ficar muito limitado com especialidades. Acho especialização médica algo muito bom, produtivo para o avanço da ciência, mas sempre gostei muito de ter o conhecimento amplo, tanto que resolvi fazer "medicina de adulto" e a parte de clínica geral. Então, era meu sonho como estudante, ser médico clínico, trabalhar em hospital. Detesto consultório, nunca quis ter consultório. Não tenho aquela paciência de ter um consultório particular. Não gosto. Nunca quis, nunca tive. Queria ser médico de hospital, de hospital de grande porte, onde pacientes ficavam internados, para fazer investigação diagnóstica, diagnóstico diferencial, aquela coisa toda da parte clínica, mas que envolvia também investigação científica da doença e do paciente. Fiz isso durante três anos. Depois, mercado de trabalho... A gente tem que ralar muito e, infelizmente, médico ganha muito pouco na realidade brasileira. Então, ficou inviável só essa minha vontade de trabalhar em hospital público sem sair para o lado da especialização. Então, pensei: 'Meu Deus, o que é que eu quero fazer? Não quero consultório..." Então pensei em fazer algo que permitisse continuar trabalhando em hospital e ter um ganho um pouco melhor. Aí, resolvi fazer Terapia Intensiva. Fiz um ano e trabalhei dois como "ceteísta" e foi assim meio que uma fase de transição para depois eu evoluir e fazer Anestesiologia. Por que? Porque a questão limitante na Terapia Intensiva é o fato de ficar preso a uma determinada rotina, um determinado serviço ou serviços, dependendo da quantidade de trabalho e que aquilo ali não muda. Então, perde-se um pouco da autonomia profissional e eu acho a autonomia fundamental para ter liberdade de atuar onde quiser e com quem você quiser. Ou se é dono de um CTI, partindo para a Medicina empresarial, que também nunca foi o meu desejo, ou se continua sendo empregado de empresas com todas as limitações que isso traz. Isso era meu inconformismo também na época da Medicina interna. Daí, comecei a ter um novo dilema existencial profissional: "O que eu vou fazer da minha vida?"
- Comum em toda vida acadêmica...
- Aí, pensei em Patologia, já que gosto tanto de estudar doenças infecciosas, tropicais... Vou fazer Dermatologia... Mas, não. Dermatologia é igual à limitação de um consultório médico, a uma única especialidade. Radiologia? Pensei. Radiologia envolve muito o conhecimento da clínica médica como um todo, diagnóstico por imagem etc. Aí, pensei: "Ou vou ter dinheiro para investir na minha própria clínica ou vou continuar na mesma limitação como ceteísta, empregado com patrões e aquela mesma limitação... Quero uma especialidade que me dê autonomia de trabalhar a hora que eu quiser, com quem eu quiser. Aí, um amigo meu, numa mesa de bar, que é sempre onde a gente tem boas idéias... (risos), tomando um chopinho bem gelado..., me falou: "Eduardo, não tem outra opção para você, a não ser anestesiologia." Falei que "nunca". Nunca gostei de centro cirúrgico, nunca quis ser cirurgião, nunca tive nenhum tipo de ambição dessas. No meu internato, eu fugia dos rodízios das especialidades cirúrgicas, para ficar somente na parte de pediatria e clínica. Esse médico é anestesista e somos grandes amigos até hoje. Ele sugeriu que eu o acompanhasse, ficasse por dentro da rotina das cirurgias, do que é um ambiente das especialidades cirúrgicas. Fui com ele, achei interessante, era um ambiente completamente diferente do que eu estava acostumado e resolvi fazer um teste. Fiz a prova em 1991, passei e comecei a fazer com total descompromisso em relação ao futuro. Pensei: "Se gostar, gostei. Se não gostar, não perco nada, abandono e tento outra coisa." Quinze dias depois, eu estava na especialidade no Hospital Sousa Aguiar, um grande hospital de emergência no Rio. Aí encontrei uma especialidade para "ganhar dinheiro". Depois disso, conheci um pessoal lá muito legal de uma ONG que estava iniciando, era Instituto Brasileiro de Inovação e Saúde Social, e fui convidado por eles para compor a primeira diretoria e também trabalhar como primeiro médico contratado, por causa daquela minha experiência prévia no Maranhão. Foi ótimo. Era uma coisa que eu adorava fazer, me garantia uma fonte adicional de salário e me manteve em contato com o mundo da saúde pública. Nessa época eu já estava fazendo Terapia Intensiva ou Anestesiologia, na parte de alta complexidade da Medicina. Aí, continuei também ligado à saúde pública, através desse trabalho com essa ONG. Tínhamos projetos nas favelas, trabalhávamos com meninos de rua, participamos do primeiro movimento nacional dos meninos de rua. Eu era o médico que fazia atendimento a essas crianças. Foi uma coisa muito feliz num momento muito certo e que deu certo. Morei no Rio até fevereiro deste ano e agora estou morando em Porto Seguro, Bahia. E esse tempo todo, até 2002, fiquei trabalhando na ONG. Em 2002, um projeto que tínhamos dentro da ONG, chamado de Projeto 2000, que era por conta da meta de eliminação da hanseníase, estabelecida pela Organização Mundial de Saúde. Esse projeto virou uma própria ONG. Cresceu tanto que conseguimos recursos externos, na Holanda, e deu autonomia para que o projeto se transformasse numa ONG também, onde atuo até hoje, a N L R. A sede no Brasil fica no Rio e a internacional na Holanda, de onde provêm os recursos. A NLR Brasil não tem capacidade de captação de recursos. São 12 projetos em 10 estados. O gerenciamento financeiro desses recursos é realizado em parceria com as coordenações estaduais. Os recursos são todos captados na Holanda, através de doações de pessoas físicas, com mecanismos de arrecadação de fundos próprios. Há doações de grandes empresas holandesas também. Então, essa forma de captação nos dá menos preocupação. É uma qualidade de trabalho, uma garantia, porque sabemos que o recurso está lá e temos que administrá-lo e fazer desses recursos o melhor possível para aplicar nos projetos que trabalhamos.