Vitória (ES), edição de 27 de maio de 2008
 
Ignorando seus impactos, Aracruz
lança nova campanha 'responsável'


Flávia Bernardes



Uma senhora com muitas marcas na pele. O retrato do respeito e da tradição. Essa é a imagem que a Aracruz Celulose tenta vender em sua nova campanha publicitária "Que frutos você pretende deixar?", divulgada esta semana em rede nacional. A empresa tenta mais uma vez maquiar as condições precárias em que vivem as comunidades ilhadas pelo eucalipto.

Na propaganda divulgada em horário nobre na televisão, a empresa reforça que tem responsabilidade social, que investe no futuro e que se preocupa com o meio ambiente. Divulga a campanha no mesmo momento em que une seus esforços para alcançar a meta de produzir 7 milhões de toneladas celulose por ano, até 2015.

Para isso, a empresa terá que crescer 11% ao ano ou 500 mil toneladas por ano, um recorde para a empresa desde 1978. Consequentemente, irá avançar ainda mais com seus plantios no Estado, assim como no sul do País, na Bahia e São Paulo, gerando mais impactos ambientais e sociais.

Para os quilombolas, que vivem ilhados entre as extensas plantações de eucalipto da transnacional, a Aracruz deixou suas famílias sem alternativas de trabalho, restando apenas a cata dos resíduos que a empresa não usa, e que os negros usam para produzir carvão. A atividade gera em torno de um salário mínimo por família.

Além disso, os quilombolas têm que conviver com o solo empobrecido pelos agrotóxicos e com rios igualmente poluídos pelos venenos químicos utilizados em abundancia pela empresa. Com isso, ressaltam, fica difícil sobreviver.

Os descendentes de escravos apontam que a Aracruz sempre ignorou seus anseios, portanto, não será agora, quando as comunidades lutam pela recuperação de suas terras, que a transnacional irá reconhecer seus erros.


Os índios Tupinikim e Guarani, que recentemente conseguiram retomar suas terras ocupadas pela Aracruz Celulose, devido a favores políticos do passado, também concordam. A campanha tenta esconder o óbvio.

Os quilombolas lutam por 50 mil hectares que foram tomados pela empresa, na época da ditadura militar. Estas comunidades vivem de forma precária e o governo pouco faz para que estas famílias tenham suas terras de volta, entre outras atrocidades cometidas em favor da empresa.

Exemplo da irresponsabilidade da empresa e do governo do Estado foi denunciado pelos quilombolas no último mês. Segundo a denúncia, o governo Paulo Hartung se recusou a informar ao Instituto Nacional de Reforma Agrária (Incra) e ao Ministério Público Estadual (MPE), onde estariam as terras devolutas do seu território. Caso tivesse feito, os negros poderiam ocupar as terras imediatamente e começar a produzir alimentos.

A recusa do governo favorece a manutenção da ocupação do território dos quilombolas pela Aracruz Celulose e a Suzano, e por alcooleiras e fazendeiros. É mais um fato que a empresa tenta maquiar com suas campanhas, como lembram os quilombolas.

Mas a empresa pode até tentar esconder sua irresponsabilidade social e ambiental com as campanhas, mas dificilmente irá conseguir, já que cada vez mais, seus impactos vêm tomando proporções internacionais, como ocorreu em meio à luta dos indígenas por suas terras. Na ocasião, a coroa sueca chegou a se desfazer de suas ações na transnacional, devido à postura violenta da empresa com os índios do Estado.

A empresa ocupou cerca de 40 mil hectares de terras indígenas. Após os índios realizarem até ações internacionais denunciando a usurpação por parte da empresa, a Aracruz Celulose foi obrigada a devolver 18.027 hectares aos Tupinikim e Guarani no Estado.

A campanha institucional da Aracruz Celulose deste ano foi feita pela W/Brasil.


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