Vitória (ES), edição de 29 de maio de 2008    
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Lá como cá



Da Redação
Foto capa: Washington Possato



  
Foto: Divulgação
  

O ouvido apurado de Paulo Moura sentiu a afinidade entre nosso mestre Tom Jobim e o mestre da canção norte-americana George Gershwin e surpreendeu quem nunca tinha pensado nisso. O CD Pra Cá e Pra Lá (R$ 28,90 em média) gravado ao vivo em julho de 1998 e agora relançado pela Biscoito Fino, demonstra que a afinidade entre os dois craques da canção era mesmo surpreendente.

Qualquer dúvida a respeito cai por terra já na primeira faixa do disco, no pot-pourri que funde Rhapsody in Blue, de Gershwin, com o Samba do Avião e Só Danço Samba, de Jobim, para terminar com I Got Rhythm, de Gershwin. Algum desavisado pode pensar que as três canções são do mesmo autor.

À frente de um septeto instrumental - Cliff Korma (piano), Jarzy Milewsky (violino), Jota Moraes (vibrafone), Nelson Faria (guitarra), Rodolfo Stroeter (baixo acústico) e Paschoal Meirelles (bateria) - Paulo Moura juntou um punhado de clássicos e deu personalidade própria a cada um.

Alternando sax alto e clarineta em Surfboard (Gershwin), Água de Beber, Falando de Amor (Jobim), Prelúdio 2, Lady Be Good, I´ve Got Plenty O´Nuttin, The Man I Love, Embraceable You e Summertine (Gershwin), para terminar com outro pot-pourri, este só com canções de Tom Jobim: Este Seu Olhar, Eu Sei Que Vou Te Amar, Eu Não Existo Sem Você e Se Todos Fossem Iguais a Você, as três últimas, parcerias com Vinicius de Moraes, devidamente homenageado pois, apesar do show ser apenas instrumental, a platéia não resistiu às letras do poeta e cantou em coro.

Este repertório não foi escolhido em vão. No encarte deste relançamento, Paulo Moura admite à Halina Grynberg, que o mesmo traço comum da rítmica africana que rege sua respiração está nas composições de Gershwin e Jobim.

O primeiro, um emigrante judeu, enamorou-se do jazz americano e tingiu a dolente nostalgia das canções familiares do leste europeu com a melancólica bluenote dos africanos que viviam a seu lado no Harlem. Jobim, também um apaixonado do jazz, trançou-o com o negro samba carioca: "É clara a influência afro na obra desses dois compositores", declarou Moura na época da gravação. E completa no texto do encarte: "Fizeram-se brancos de alma negra". (Com informações da Biscoito Fino.)


 

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