Vitória (ES), edição de 30 de maio de 2008    
     Capa       Agendas       Cinema         Dicas       Exposições       Rapidinhas       Arquivo       Expediente         Fale Conosco
As travas andam de fusca*



Leonardo Viso
Atualizado toda terça, às 16 horas


Ninguém pode ser mais surpreende que uma travesti. Um trânsito constante. Nem homem, nem mulher. São mosaicos móveis de corpos e sentidos que não podem ser analisados em separado. Uma travesti sempre é um conjunto e nunca apenas um único conceito. Você nunca entenderá uma trava, se tentar defini-la. É impossível. Quando a gente acha que "tá tudo explicado", elas vão mostrar que não. Nada pode ser mais surpreende que uma trava.

Figuras urbanas. Marginalizadas. Carnavalizadas. Sexualizadas. Exploradas. Discriminadas. Você tem uma amiga travesti? No seu jantar, família e amigos têm alguma na lista? Não sejamos politicamente corretos. Admita que você ao passar por Camburi, por Copacabana, pela Amaral Gurgel e afins, quando vê uma travesti na melhor das hipóteses acha "engraçado". E que não acharia a menor "graça" em ser atendido por uma naquela loja-irada do shopping-maneiro.

O cotidiano de uma travesti pode ser bem mais simples do que imaginamos. Claro que a "simplicidade" é relativa. Viver entre hormônios e silicones em profusão não é para quem quer, é só para quem realmente pode. Adicione nesse dia a dia, tarefas que todos nós executamos. Cuidar da casa, ir ao banco, sair com os amigos e ir para a faculdade. Ainda são raríssimas, mas as travestis já freqüentam a universidade.

Figuras da noite. Nem sempre. Carpe Diem serve para elas, também. Objetos do desejo. Não apenas. As travas também amam. E muito. Beijam. Têm prazer. Bastante. Namoram. Casam. Inclusive entre si. Uma travesti pode ser casar com uma travesti - e terem um Fusca laranja. Tente definir esse casal e se perca em estupidez e em superficialidade. A trava pode ser tão roqueira quanto quem ia ao Entreamigos e muito mais indie do que os Centenarianos da Ilha.

As travas são nossas esfinges contemporâneas - e elas sabem bem disso. Decifrem-nas ou elas os devorarão. Decifrem-nas. Sigam o caminho com elas. Que venha o momento em que baldes de águas, latas de cervejas ou manchetes sensacionalistas não refletirão mais a imagem das travestis. Nessa hora, o champanhe estourado não será apenas para dar viva à pomba-gira e demarcar uma esquina. Terá gosto de conquista e direito adquirido. Uma trava é alguém surpreende porque é igual a qualquer um de nós, ou melhor, somos nós.

* para Janaina Lima

Saiba mais!
Clique aqui e leia a coluna anterior.





 

Leia Também:
    
Agendas
Turismo e Cultura do ES

Século Diário
Notícias do dia

Veículos
Novidades sobre o mundo automobilístico