Fernando Torres





Maciel de Aguiar


Ao contrário de muitos capixabas que perdem as mais ternas lembranças do Espírito Santo, o ator Fernando Torres faz questão de contar as mais distantes reminiscências vividas desde os primeiros momentos que marcaram indelevelmente sua infância. Fala dos familiares, dos amigos, numa clara demonstração de saudade sociológica cultivada ao longo de muitos anos residindo no Rio de Janeiro.

Nascido em Guaçuí, a 14 de novembro de 1927, foi viver na Cidade Maravilhosa, onde se casou, em 1952, com a atriz Fernanda Montenegro. Tiveram um casal de filhos — Cláudio e Fernanda —, e, nos anos subseqüentes, se consagraram na tele-dramaturgia brasileira, convertendo-se em prestigiados atores de cinema, telenovela e teatro, destacando-se também como diretor e produtor.

Em 1949, estreou com a peça “A dama da madrugada”, de Alejandro Casona, sob direção de Esther Leão, em cartaz no Teatro Universitário. Em 1954, foi para São Paulo, onde atuou no Teatro Maria Della Costa, nas montagens “O canto da cotovia”, de Jean Anouilh; “Com a pulga atrás da orelha”, Georges Feydeau; “A Moratória”, de Jorge de Andrade; “Mirandolina”, de Carlos Goldoni; e, “A ilha dos papagaios”, de Sérgio Tofano.

Em seguida, foi trabalhar no Teatro Brasileiro de Comédia, e assinou, em 1958, a direção de seu primeiro espetáculo: “Quartos separados”. No ano seguinte, funda, com Fernanda Montenegro, Sérgio Britto e Gianni Ratto, o Teatro dos Sete, destacando-se como produtor de vários espetáculos que despertam a atenção do público. Voltou a trabalhar como ator, sendo consagrado pela crítica especializada.

Com o fim da companhia, fez a direção de “O beijo no asfalto”, de Nélson Rodrigues, além de uma série de espetáculos de sucesso — “A mulher de todos nós”, de Henri Becque; “O homem do princípio ao fim”, de Millôr Fernandes; “A volta ao lar”, de Harold Pinter; “Marta Saré”, de Gianfrancesco Guarnieri; e, “O inimigo do povo”, de Henrik Ibsen —, quando foi premiado como diretor revelação.

Já como artista consagrado, produz outras peças que se tornam sucesso — “O interrogatório”, de Peter Weiss; “A longa noite de cristal”, de Oduvaldo Vianna Filho e “Computa, computador, computa” de Millôr Fernandes. Em 1972, inicia a temporada carioca de “O interrogatório”. No fim do ano, ganha o prêmio Molière Especial de produção e monta “A mais sólida mansão”, de Eugene O`Neill.

Em 1973, Fernando Torres e Fernanda Montenegro sofrem censura pela montagem da peça “Calabar”, de Rui Guerra e Chico Buarque de Holanda, que já estava em fase final de ensaios. Não obstante, recebeu o prêmio do Governo do Estado da Guanabara pela montagem de “O amante de Madame Vital”, de Louis Verneuil, realizando em seguida uma grande excursão por diversas cidades brasileira.

Em 1975, Fernando Torres volta aos palcos, agora como ator, em “Seria cômico... se não fosse sério”, de Dürrenmatt, com direção de Celso Nunes. Fica em cartaz até o ano seguinte, numa enorme consagração, quando recebe o prêmio da crítica teatral do Estado de São Paulo, além dos maiores elogios da imprensa especializada no Rio de Janeiro por sua impressionante atuação como o personagem Edgard.

O sucesso não pára. Atua em “É...”, de Millôr Fernandes; “Assunto de família”, de Domingos de Oliveira; “Fedra”, de Jean Racine, e “Rei Lear”, de William Shakespeare. Em 1976, produz espetáculos para Fernanda Montenegro: “Dona doida, um interlúdio”, de Adélia Prado, com direção de Naum Alves de Souza; “Suburbano coração”, autoria e direção de Naum; e, “Gilda”, de Noel Coward.

No cinema, Fernando Torres atua em diversos filmes de sucesso de público e crítica: “Engraçadinha depois dos 30”, de J. B. Tanko; “Os inconfidentes”, de Joaquim Pedro de Andrade; “Tudo bem”, de Arnaldo Jabor; “Veja esta canção”, de Cacá Diegues; e, “A ostra e o vento”, baseado no romance homônimo de Moacir C. Lopes, com direção e roteiro de Walter Lima Júnior, e com a estréia da atriz Leandra Leal.

Fernando Torres guardava reminiscências da infância e, certa feita, manifestou interesse de voltar ao Estado do Espírito Santo. Havia uma congregação de fatores que ajudaram neste reencontro, em que ambas as partes pudessem matar saudades, remexer em baús e, se possível, um reconhecer a importância do outro. É bem verdade que são poucos os casos em que isto ocorreu. Muitas vezes, o artista capixaba nem depois de morto é reconhecido.

Em Guaçuí, foi um reatamento que atravessou uma década, desde quando um prefeito iniciou a construção de um teatro e a obra ficou pela metade. Virou motivo de piada: “Um desperdício de dinheiro público”, diziam os opositores. Mas o homenageado ficava sempre perguntando: “E as obras do teatro?”. A resposta era sempre a mesma: “Não existe dinheiro e muito menos políticas públicas para a cultura no Município e no Estado”.

Certa feita, se fez uma congregação de forças para a conclusão do Teatro Fernando Torres, em sua terra natal. O processo levou alguns anos de idas e vindas, captação de recursos e dependência de boa vontade, além de enfrentar os entraves municipais e a burocracia estadual. Finalmente, um artista capixaba de primeira grandeza para as artes cênicas brasileiras seria homenageado no Estado e, sobretudo, em vida.

Até então, não muito afeito a reconhecer os talentos que conseguem se notabilizar além das fronteiras do Espírito Santo, o Palácio Anchieta não criou obstáculo para que a Secretaria de Estado da Cultura assumisse as obras com recursos próprios. O projeto foi tocado com prioridade, disponibilizando pessoal técnico para que a bela iniciativa pudesse ser concluída como um marco de reconhecimento ao talento de um excepcional artista.

No dia da inauguração, lá estava o homenageado feito uma criança que ganha um precioso brinquedo. Nem de longe parecia o ator consagrado nacionalmente, um mito do teatro e do cinema brasileiros. Ainda trazia a esposa, a atriz Fernanda Montenegro, como prova de que o sonho havia se tornado realidade. No discurso, entremeado de emoção, disse:

— É muito estranho sentir-se um teatro. Mas é muito prazeroso voltar a sentir-se capixaba!