Vida de Imigrante - Décimo andar, por favor




Wanda Sily
Escreve direto de Miami - EUA


Jamais encontrei alguém com medo de andar de carro. As estatísticas de acidentes de carro são, no mínimo, desastrosas. Mesmo assim, nunca ouvi alguém dizer, "Vou a pé porque não entro em carro; as chances de sofrer um acidente são grandes". No entanto, conheço muitas pessoas que nunca andam de elevador. A festa é no 10º andar? "Vou pela escada, é um ótimo exercício".

Existem mil tipos de fobias, que muitas vezes nascem de alguma experiência desagradável, mas que, na maioria das vezes, existem por si mesmas - são auto-suficientes. No caso do elevador, pode ser claustrofobia, o medo de espaços herméticos, e não medo do trajeto. Que dura uns poucos segundos, apenas. Medo de andar de avião também pode ser claustrofobia.

As estatísticas trabalham contra os carros. O mundo está entulhado com carros demais, e os acidentes ocorrem com alarmante frequência, em muitos lugares são até a maior causa de morte. Numa cidade grande, o número de elevadores é também grande, e o fluxo de pessoas indo e vindo para cima e para baixo, o dia todo, é absurdo. Mas os acidentes são raros, e nunca ouvi falar em acidentes fatais.

Nossa cultura hoje vem dos filmes e da televisão, onde o elevador recebe pouca atenção. A mídia explora à exaustão o charme dos carros, em alguns filmes eles são o palco - e às vezes até o motivo - de situações relevantes. Romance, por exemplo, fica muito bem dentro de um carro conversível. Ou o oposto, as tão repetitivas e aparentemente perigosas cenas de perseguição de carros.

Mas nosso meio de transporte preferido não é nenhum santo, e desastres de carro fatais ou quase são também um bom recurso usado pela sétima arte. Empurra o enredo para a frente, na linguagem de Hollywood. Essas situações não criam preconceitos contra os carros nem desenvolvem fobias dignas da poltrona dos psicólogos. Sem falar que é o objeto de desejo número um da humanidade - todo mundo gostaria de ter um.

O elevador, coitado, perdeu essa corrida. Quando ganha destaque no cinema ou na TV, é quase sempre o vilão; dentro de suas quatro paredes, subindo ou descendo, geralmente só acontecem coisas ruins. No mais, é apenas um meio de transporte para os pontos acima e abaixo - a porta se abre e se fecha, mocinhos e bandidos entram e saem, aguarde na próxima parada onde nossa história vai continuar.

Herói e bandidos estão se esmurrando, a porta do elevador se abre, o herói corre para dentro, mas os bandidos conseguem entrar antes que a porta se feche. Os socos continuam enquanto o elevador faz seu trajeto inexorável para o alto. até[ o. Já viu esse filme? O mocinho em desvantagem numérica, mas quando a porta se abre no 20º andar, os bandidos estão derrotados.

Muita gente não anda de elevador porque ele é uma metáfora da vida - uma caixa pendurada por um fio, que pode nos levar ao topo ou ao poço. Péssima metáfora, mas empurrou a coluna para a frente. Sem elevador não inventariam os edifícios com mais de 10 andares. Mas pensando bem, sem elevadores, talvez a humanidade estivesse mais magra.